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Mundos morais

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Luciano Pires -

Estes dias de embates políticos têm sido um aprendizado só. As mídias sociais estão se revelando verdadeiros laboratórios do comportamento humano diante de quem pensa diferente. Desde que forcei a mão nas questões político-ideológicas, assumindo a defesa dos ideais liberais-conservadores em minhas páginas e em meu Podcast, tenho experimentado situações inusitadas. Por um lado, aumentei minha audiência dramaticamente, por outro perdi leitores e ouvintes que antes admiravam minha suposta imparcialidade e se decepcionaram quando descobriram que tenho uma visão de mundo diferente da deles.

– Como é que um cara tão legal, tão sensível e aparentemente tão inteligente pode defender uma barbaridade dessas?

Fica difícil conviver com essa questão, não é? Especialmente quando admiramos de verdade uma pessoa. Batizei essa sensação de Síndrome de Chico Buarque.

– Mas, se a pessoa é assim tão admirável… Será que o errado sou eu?

É essa possibilidade de estar do lado errado que nos provoca angústia. Não raro me pego diante de situações assim, e me questiono profundamente. Será que quanto mais estuda, mais idiota a pessoa fica? Ou o idiota sou eu?

Mas o fato de uma pessoa ser inteligente, talentosa, inovadora, não quer dizer que ela comungue os mesmos valores morais que eu. Pode ser que ela viva num mundo moral diferente. Ambos queremos um mundo melhor, mais justo, mais respeitoso, mais abundante, mas divergimos profundamente na forma de chegar lá.

Para mim, esse “chegar lá” significa respeitar a lei, respeitar a autoridade, respeitar a liberdade individual, reconhecer que não sei tudo, que o mundo e o homem são imperfeitos e que é impossível resolver as coisas com uma revolução. O que dá para fazer é consertar o que está errado e conservar o que está certo, dar liberdade para o indivíduo. Se alguém queima a bandeira do Brasil, fico indignado, pois vejo ali valores desrespeitados. Quando erro, primeiro acho que a culpa é minha e devo arcar com as consequências.

Já meu amigo do “outro lado” entende que por um bem maior, a lei pode ser “contornada”. Questiona a autoridade e acha que algo que não prejudica ninguém não deve ser proibido, que queimar a bandeira é só queimar um pedaço de pano, que todos têm o direito de se expressar. Quando erra, culpa fatores externos e não acha justo assumir sozinho a responsabilidade.

Eu e meu amigo somos igualmente inteligentes, temos acesso aos mesmos fatos, mas chegamos a conclusões diferentes, pois partimos de valores morais distintos. Nossas disputas políticas não são resultantes de ignorância ou maldade. Sim, é claro que existem os bandidos contumazes, mas não é a eles que me refiro, e sim ao meu vizinho, com quem tomo chopp, divido o churrasco e falo da vida.

No máximo em alguns momentos compartilharemos alguns valores ou nos toleraremos mutuamente, desde que as concessões não sejam grandes demais. Mas sei que dificilmente conseguirei convencê-lo a compartilhar minha visão de mundo. Nem ele a mim. A menos que mudemos nossos valores.

Em minha palestra Tudo Bem Se Me Convém afirmo que valores morais, e por consequência a ética, dependem do espaço geográfico e temporal que você ocupa. Onde e quando você está. Uma vez adquiridos, esses valores morais resistem a mudar mediante simples argumentos. Mas talvez dependam também do como você está. Onde, quando e como.

Enquanto alguns valores morais têm raízes biológicas, outros são resultado de pressões sociais, condicionamento emocional, imitação ou exposição aos grupos nos quais convivemos. Alguns têm a ver com racionalidade, outros com a natureza humana. Existiriam então múltiplas moralidades?

Talvez vivamos, tal como dimensões paralelas, em mundos morais diferentes e nenhum discurso político nos levará ao consenso.

Quem não entender isso continuará xingando.

Me ajuda a continuar essa reflexão?