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O desengajamento moral

O desengajamento moral

Luciano Pires -

O psicólogo e pedagogo canadense Albert Bandura estudou psicologia clínica e se destacou como pesquisador da teoria da aprendizagem social. Em seus estudos, desenvolveu o conceito do Desengajamento Moral, tratando dos mecanismos que chamou de “lacunas na consciência humana”, através dos quais as pessoas permitem a si mesmas praticar atos desumanos sem sofrer a angústia da autocondenação.

Normalmente jamais nos envolvemos em condutas prejudiciais a terceiros sem antes justificar a nós mesmos a moralidade de nossas ações. Nesse processo, tentamos fazer com que a conduta prejudicial a outros seja apresentada como algo valioso para propósitos morais e sociais superiores. E assim o que seria reprovável passa a ser aceitável. É quando vemos gente “de bem” cometendo as maiores barbaridades enquanto se considera agente da moralidade.

É o desengajamento moral que explica o guerreiro decapitando o inimigo na televisão… os homossexuais sendo atirados do alto de um prédio pelo crime de serem homossexuais… mulheres sendo apedrejadas por serem adúlteras… E para ficar aqui pertinho, dinheiro roubado em nome da causa; sua vizinha tão pacata saqueando o mercado quando não tem polícia… O que não falta são exemplos.

Bandura definiu 8 mecanismos de desengajamento moral: a Justificação Moral, a Linguagem Eufemística, a Comparação Vantajosa, a Difusão da Responsabilidade, o Deslocamento da Responsabilidade, a Distorção das Consequências, a Desumanização e a Atribuição da Culpa. Publiquei um Podcast no qual falo de cada um: http://portalcafebrasil.com.br/podcasts/543-desengajamento-moral/

O quem mais me fascina é a linguagem eufemística, que suaviza palavras ou expressões que possam ser rudes ou desagradáveis. É a arma perfeita para o desengajamento moral.

Você usa eufemismos desde que começou a falar. Por exemplo, chamando pênis de “piu-piu”. Não suaviza?

E então passamos a chamar caixa dois de “recursos não contabilizados”; ditadura de “democracia social”; censura à imprensa de “controle social”; demissões se transformam em “colaboração descontinuada”; privatização é chamada de “desestatização”. Percebe?

Cada eufemismo dá um alívio moral.

Uma das formas de eufemismo mais eficiente é a higienização, quando atividades perniciosas são disfarçadas de ações inocentes ou pelo bem de todos. Exemplos? Chamar “invasão” de “ocupação”; dizer que as pedaladas foram para pagar o Bolsa família; em vez de “operações de crédito”, chamar as operações ilegais entre a Caixa e o governo de “inadimplemento”. Na Odebrecht, o Departamento de Propinas foi chamado de ‘Departamento de Negócios Estruturados’. Viu só?

Nas guerras, “danos colaterais” são usados no lugar de “morte de civis inocentes”. Sentiu a pegada? “Danos colaterais” parece para-lamas amassado, não é? Já “morte de civis” é assassinato.

Quando você muda o rótulo, muda o sentido da ação. Mas o resultado permanece o mesmo.

Sabe onde é possível verificar o desengajamento moral em sua plenitude? No trânsito. Tem placa, tem lombada, tem marcações, mas a gente anda acima do limite, dirige com celular, estaciona em vagas proibidas ou em fila dupla. Ultrapassa pelo acostamento. E o infrator sempre tem uma justificativa racional para a transgressão, não é?

Racionalizar a conduta delituosa. É disso que trata o Desengajamento Moral.

Bandura disse: “Todas as pessoas são capazes de construir ideologias morais para justificar seus comportamentos, e geralmente tendem a convencer a si e aos outros de seus princípios conforme lhes convêm.”

Viu só? Não sei se você reparou, mas “todas as pessoas” incluem eu… e você.

Tudo bem, se me convém.