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Os Patrulheiros

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Luciano Pires -

Recebi de um patrulheiro pelos direitos dos gays um e-mail ameaçando me cobrir de porrada. Afinal, escrevi que o Lacraia, que faz dupla com aquele ícone da MPB chamado Mc Serginho, era efeminado.
E os patrulheiros do PT? A cada vez que cometo a ousadia de criticar Lula ou seus companheiros, sou acusado de “preconceituoso” contra o humilde operário… Lula é um caso raro. Mais de trinta anos longe de um torno e levando uma vida de nababo continua “humilde operário”…
E os patrulheiros de “El comandante”? Vieram pra cima de mim, ferozes, quando insinuei que o regime político castrista é uma merda.
E o patrulheiro que trabalha numa fábrica de eletrodomésticos? Escreveu reclamando (é sério!) que ofendi os trituradores de lixo quando comparei a televisão com aquele precioso e tão útil equipamento.
Ah, teve também a advogada, ativista racial raivosa que me detonou quando chamei o Ministro Joaquim Barbosa de “negão”.
Mas um deles superou-se. Escrevi que fui com minha filha jogar veneno num formigueiro que estava destruindo nosso jardim e o cara acabou comigo. Era um ativista pelos direitos das formiga!.
Pois é… Ativistas. Militantes. Patrulheiros.


Comecei a pensar no assunto depois de ler duas notícias coincidentemente complementares. Primeiro sobre o lançamento do documentário “Simonal – Ninguém sabe o duro que dei”, de Claudio Manoel em parceria com Micael Langer e Cavilto Leal. O filme trata da carreira de Wilson Simonal, um dos maiores fenômenos da música popular brasileira. Tenho muitos leitores jovens, que desconhecem quem foi Simonal. Em vez de ficar falando, dou uma sugestão: vá até o Youtube, digite “Simonal” e procure a apresentação que ele fez ao lado da lendária diva do Jazz Sarah Vaughn em 1970. O endereço é este: http://br.youtube.com/watch?v=8Hc0FGmXONk .
Não é preciso dizer mais nada…


Simonal estava no auge da carreira, com seus trinta anos, quando descobriu que seu contador estava desviando dinheiro. Chamou uns “amigos” da polícia que deram uma dura no contador. Enquanto o sujeito apanhava, Simonal dizia algo como: “Toma cuidado comigo, pois sou amigo dos home!”. Ocorre que alguns dos policiais faziam parte do SNI – Sistema Nacional de Informação, a temida “polícia” política do regime militar. E a história se espalhou: Simonal, então, seria informante do SNI. O cantor, acusado de dedo-duro passou a ser patrulhado. Dezenas de músicos foram pressionados a não tocar mais com ele, que teve a carreira destruída em questão de dias. Simonal faleceu desgostoso aos 61 anos, em 25 de junho de 2000. Pouco depois os arquivos do SNI comprovaram que ele jamais foi informante da repressão. E a Comissão Nacional de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil reabilitou Simonal oficialmente em 2003.
Mas era tarde demais.


A campanha mais virulenta contra ele foi d’O Pasquim, o tablóide que marcou época no jornalismo brasileiro como peça de resistência ao regime militar dos Anos de Chumbo. O que nos leva à segunda notícia. O Ministério da Justiça acaba de autorizar o pagamento de uma indenização de mais de um milhão de reais e de uma pensão mensal vitalícia para os cartunistas Ziraldo e Jaguar, que dirigiam o Pasquim durante aqueles anos. A indenização é por prejuízos morais e financeiros causados pela censura e pelas prisões a que foram submetidos durante a repressão.
Millôr Fernandes, um dos fundadores do jornal, ao ficar sabendo, sacou esta: “Então eles não estavam fazendo resistência. Estavam fazendo previdência”.


Não pretendo discutir a legalidade ou moralidade da indenização. Quero apenas deixar no ar uma pergunta.
Quanto as patrulhas pagarão para a família de Wilson Simonal, a título de indenização por prejuízos morais e financeiros?
Ah, mas Simonal, como o jovem soldado que foi morto ou o sujeito que perdeu a perna no atentado a bomba dos ”revolucionários”, estava do “outro lado”. É “efeito colateral”.
Cega, a justiça não se aplica a eles.


Pronto! Virei patrulheiro.