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Luciano Pires -

Em 2013 fiz um programa chamado DIAS SOMBRIOS, no qual eu falava dos conflitos crescentes no Brasil, da incapacidade das pessoas aceitar quem pensa diferente, do uso do rótulo “fascista” como se fosse “bobo” ou “tonto”. Aquele programa inspirou um outro em 2014, Simpatia pelo Diabo, que vou revisitar hoje.

Olha: já se vão oito anos… De lá para cá, saímos do bate boca para o cancelamento. Das sombras para as trevas, num crescendo de intolerância que continua dividindo o Brasil.

Bom dia, boa tarde, boa noite. Você está no Café Brasil e eu sou o Luciano Pires.

Posso entrar?

Olha: já me perguntaram e eu respondi num episódio anterior, e vou fazê-lo outra vez: por que revisitar episódios antigos? Porque são temas não datados, que ficam para trás, esquecidos num feed. Como se fosse “assunto antigo”. E não é.  O assunto é atual, os problemas apontados continuam acontecendo, até mesmo evoluindo. Por isso, revisitar o que foi dito, refrescar as ideias, é um exercício fundamental.

Além do que, a revisita nos proporciona uma comparação entre o período em que o episódio foi publicado e estes dias. Vem cá: a gente evoluiu? A gente involuiu? E o que fazer a respeito, hein?

O programa de hoje tem essa proposta. E quanto terminar de ouvi-lo, você entenderá o porquê da revisita. Vamos a ele?

Mas antes…

“Olá, bom dia, boa tarde, boa noite, Luciano e toda a fabulosa equipe do nosso Café Brasil.

Aqui ouvindo o último programa em homenagem ao Alaor, seu amigo, acho que todos lembram dos amigos que se foram, nesse momento, os familiares e todos aqueles que deram a presença muito grande na vida da gente.

Bom Luciano, essa semana nós perdemos aí o grande Olavo de Carvalho. Eu fui aluno durante um tempo, fiz o curso durante seis meses, curso online de filosofia, depois vi que estava muito aquém do que ele falava e fui pra literatura básica que ele sempre passou. Passei, praticamente três anos, lendo, pra poder voltar agora pra pegar as aulas ao vivo do professor e, infelizmente, eu atrasei.

Mas o que ele está deixando aqui pra gente é um grande legado, um legado pra população brasileira, são inúmeros alunos que se desenvolveram e tomaram até suas vertentes paralelas, junto aí aos ensinamentos do professor.

E a nossa história é feita de pessoas que fazem a difereça e lá em 2016, não, 2014, ou 2015, eu conheci os podcasts através do meu sobrinho e dos podcasts eu fui pro Café Brasil e eu posso ter certeza, tenho a certeza disso que sim.

O trabalho que o Olavo fez e vai continuar gerando frutos, o trabalho que o Luciano Pires faz e agora com esse novo projeto do Café com Leite, que eu achei incrível, já passei pra minha filha que tem 11 anos, que já ouviu vários episódos com a gente em tantas viagens. Que no último que ela ouviu no carro, ela estava assim ouvindo de olhinho aberto, prestando atenção, que foi sobre o AC/DC, já passei pra ela também.

Tenho certeza que essa semente que você plantou há anos atrás, o Brasil também está colhendo. Então é feito de várias pessoas e vários homens que fazem a história e estão servindo a nossa pátria, a nossa nação. Cada um da sua forma.

Então, obrigado, obrigado professor Olavo, obrigado Luciano Pires e todos aqueles que contribuem pra melhorar o nosso país. Um abraço.

Roberto, de Santa Helena de Goiás.”-

Graande Roberto, obrigado pelo comentário. Pois é, Olavo de Carvalho se foi e deixou um legado. Uma pena que pela polarização, muita gente deixou de aproveitar as referências que ele divulgou, preferindo se apegar à caricatura. Esse é o preço da divisão… Fico feliz que você tenha tirado proveito e profundamente honrado por me colocar como alguém que também está construindo algo positivo com o Café Brasil. Tem gente que jura que não, mas dane-se. Eu foco é em quem gosta do meu trabalho e está disposto a construir um país, em vez de destruir reputações. A consequência desse pensamento destrutivo, vou discutir no programa de hoje. Um abraço.

Você já sabe que a Perfetto patrocina o Café Brasil fazendo sorvetes, não é!

No site perfetto.com.br – lembre-se, perfetto tem dois “tês”, a gente enlouquece.

Com o delicioso picolé Buben, você garante diversão vitaminada para toda galerinha. Em cada palito, um irresistível sorvete de morango tipo queijo Petit Suisse com cobertura especial sabor Banana, que só a Perfetto tem.Perfetto tem dois ts. Lembre-se sempre.

Confira todos os detalhes em: perfetto.com.br

Você tá se aguentando aí, cara? É difícil, né?  Vai lá no site! Acompanha no Instagram. É enlouquecedor!

Como é que é, lalá?

Lalá – Ah! Com sorvete #TudoéPerfetto, né?

Foi na paróquia de Navalmorales. Seguraram o padre:

— “Estás preso, velhinho”.

E o ancião suspira:

— “Seja o que Deus quiser”.

Outro miliciano (eram milicianos) pergunta:

— “Estás com medo, padre?”.

Responde: — “Quero sofrer pelo Cristo”.

Os milicianos riam, sem nenhuma maldade. Batiam nas costas do sacerdote:

— “Pois morrerás como Cristo”.

Em seguida, disseram:

— “Tira a roupa, amigo. Ou tens vergonha?”.

— Olha as caras que o cercam.

— “Tudo?”.

E os outros: — “Tudo”.

O padre vai-se despindo. E, de repente, pára. Pergunta, súplice:

— “Basta?”.

O chefe diz, e não isento de doçura:

– “Eu disse tudo!”

E tirou tudo. Alguém faz o comentário:

— “Como tu és magro, hem, velho?”.

De fato, o ancião era um esqueleto com um leve, diáfano revestimento de pele. Foi açoitado furiosamente. Perguntaram:

— “Não choras, padre?”.

Arquejou: — “Estou chorando”.

As lágrimas caíam-lhe, de quatro em quatro.

Por fim, os homens cansaram-se de bater. Resmungavam:

— “O velho não grita, não geme”.

Houve um momento em que um dos milicianos teve uma dúvida:

— “Padre, vamos fazer um trato. Blasfemas e serás perdoado”.

Responde: — “Sou eu quem os perdoa e abençoa!”.

E repetiu: — “Quero sofrer como o Cristo”. Os milicianos se juntam, num canto, e discutem. Como matar o padre, eis a questão. E um deles voltou:

— “Padre, vamos te crucificar”.

Estende as duas mãos crispadas:

— “Obrigado, obrigado”.

Mas três ou quatro milicianos esbravejaram:

— “Vamos acabar com isso!”. Realmente, fazer uma cruz dava trabalho. A maioria optou pelo fuzilamento:

— “Fuzila-se e pronto!”.

Puxaram o padre nu:

— “Vamos te fuzilar. Anda” .

O velho tinha um último pedido:

— “Quero ser fuzilado de frente para vocês. Pelo amor de Deus. De frente para vocês”.

E repetia: — “Quero morrer abençoando vocês”.

Atracou-se a um miliciano, escorregou ao longo de seu corpo, abraçou-se às suas pernas; soluçava:

— “De frente para vocês, de frente, de frente, de frente!”. Levou seus últimos cachações terrenos:

— “Sai pra lá, velho!”.

Ficou de frente. Quando viu os fuzis apontados, esganiçou-se:

— “Eu perdôo vocês! Eu abençôo vocês! Eu amo vocês, amo, amo,”.

Os milicianos atiraram.

Um tiro na cara, outro no peito, outro no ventre, outro não sei onde. E ficou, lá, horas, varado de balas, aquele cadáver tão magro e tão nu.

Sympathy For The Devil
Keith Richards
Mick Jagger

Please allow me to introduce myself
I’m a man of wealth and taste
I’ve been around for long long years
Stole many a man’s soul and faith

And I was ’round when Jesus Christ
Had His moment of doubt and pain
Made damn sure that Pilate
Washed his hands and sealed his fate

Pleased to meet you
Hope you guess my name
But what’s puzzling you
Is the nature of my game

I stuck around St. Petersburg
When I saw it was a time for a change
Killed the Czar and his ministers
Anastasia screamed in vain

I rode a tank
Held a general’s rank
When the Blitzkrieg raged
And the bodies stank

Pleased to meet you
Hope you guess my name
But what’s puzzling you
Is the nature of my game

I watched with glee
While your kings and queens
Fought for ten decades
For the gods they made

I shouted out
Who killed the Kennedys?
When after all
It was you and me

Let me please introduce myself
I’m a man of wealth and taste
And I laid traps for troubadours
Who get killed before they reached Bombay

Pleased to meet you
Hope you guessed my name
But what’s puzzling you
Is the nature of my game

Get down, baby

Pleased to meet you
Hope you guessed my name
But what’s confusing you
Is just the nature of my game

Just as every cop is a criminal
And all the sinners saints
As heads is tails
Just call me Lucifer
‘Cause I’m in need of some restraint

So if you meet me
Have some courtesy
Have some sympathy, and some taste
Use all your well-learned politesse
Or I’ll lay your soul to waste

Pleased to meet you
Hope you guessed my name
But what’s puzzling you
Is the nature of my game

Get down

Tell me, baby, what’s my name
Tell me, honey, can ya guess my name
Tell me, baby, what’s my name
I tell you one time, you’re to blame

What’s my name
Tell me, baby, what’s my name
Tell me, sweetie, what’s my name

Simpatia pelo diabo

Por favor, permita-me apresentar-me
Eu sou um homem de riqueza e bom gosto
Eu estou aqui há muitos anos
Roubei a alma e a fé de muitos homens

E eu estava presente quando Jesus Cristo
Teve Seu momento de dúvida e dor
Certifiquei-me de que Pilatos
Lavou as mãos e selou seu destino

Prazer em conhecê-lo
Acho que você já sabe o meu nome
Mas o que está te intrigando
É a natureza de meu jogo

Eu fiquei em São Petersburgo
Quando vi que era a hora de mudanças
Matei o Czar e seu ministros
Anastasia gritou em vão

Pilotei um tanque
Tinha a patente de general
Quando a Blitzkrieg começou
E os corpos federam

Prazer em conhecê-lo
Acho que você já sabe o meu nome
Mas o que está te intrigando
É a natureza de meu jogo

Eu assisti com alegria
Enquanto seus reis e rainhas
Lutaram por dez décadas
Pelos deuses que eles criaram

Eu gritei
Quem matou os Kennedys?
Quando afinal
Fomos eu e você

Por favor, permita-me apresentar-me
Eu sou um homem rico e de bom gosto
Deixei armadilhas para os trovadores
Que foram mortos antes de chegarem a Bombaim

Prazer em conhecê-lo
Acho que você já sabe o meu nome
Mas o que está te intrigando
É a natureza de meu jogo

Divirta-se, meu bem

Prazer em conhecê-lo
Acho que você já sabe o meu nome
Mas o que está te deixando confuso
É a natureza de meu jogo

Assim como todo policial é um criminoso
E todos os pecadores são santos
Assim como cara é coroa
Chame-me de Lúcifer
Porque preciso de alguma contenção

Então se você me encontrar
Tenha bons modos
Mostre um pouco de simpatia e bom gosto
Use toda sua boa gentileza
Ou eu vou dar cabo de você

Prazer em conhecê-lo
Acho que você já sabe o meu nome
Mas o que está te intrigando
É a natureza de meu jogo

Divirta-se

Diga-me, meu bem, qual é o meu nome?
Diga-me, querida, você já sabe o meu nome?
Diga-me, meu bem, qual é o meu nome?
Eu direi uma vez, a culpa é sua

Qual é o meu nome?
Diga-me, meu bem, qual é o meu nome?
Diga-me, querida, qual é o meu nome?

Você está ouvindo o clássico Sympathy for the Devil, numa versão maravilhosa de Gail Swanson, cantora e compositora de Maui, uma ilha que faz parte do arquipélago havaiano. Gail é uma artista que canta como cantavam os artistas nos anos 70. Sabe onde você ouve Gail Swanson? É aqui ó, no Café Brasil 

Vamos então voltar ao relato do fuzilamento do padre de Navalmorales?

Esse é um episódio da Guerra Civil Espanhola. Iguais a esse, e piores do que esse, ainda mais hediondos, houve milhares, houve milhões. De parte a parte acontecia tudo. Matava-se, violava-se, enforcava-se, sangrava-se sem nenhum ódio e, até, sem nenhuma irritação. O padre de Navalmorales teria escapado se tivesse dito um palavrão contra Deus ou contra a Virgem Maria. E sairia com vida e ninguém lhe tocaria num fio de cabelo.

Contei o episódio do sacerdote e proponho ao ouvinte: –

Façamos de conta que isso vai acontecer no Brasil dos nossos dias. Não é mais a Guerra Civil Espanhola, nem Espanha, nem Navalmorales. É a Guerra Civil Brasileira. A toda hora, e em toda parte, brasileiros fazem apelos à Guerra Civil. Há muita gente interessada em que os brasileiros bebam o sangue uns dos outros. E vamos admitir que, tão solicitada, tão sonhada, a Guerra Civil venha a explodir no Brasil.

Sei que estou, aqui, sugerindo uma fantasia cruel. Mas vamos lá. Tiremos de cena os milicianos. Somos agora nós, brasileiros, cariocas, paulistas, gaúchos, pernambucanos ou lá o que seja, quem prende um padre bem velhinho como o de Navalmorales. Vejo um nosso patrício rosnando: — “Velho, fica nu, velho!”. Algum ouvinte há de pedir: “Licença para um aparte?”. Respondo: — “Pois não”. E o ouvinte, enfático: — “Mas nós somos brasileiros!”.

Ledo engano. Ou, por outra: — nós somos brasileiros, sim, mas os espanhóis também eram espanhóis. E os americanos eram americanos, e os franceses eram franceses, e os chineses eram chineses. Mas aqui começa o pavoroso mistério da condição humana. Quando um povo chega à Guerra Civil ninguém é mais brasileiro, ninguém é mais francês, ninguém é mais americano ou cubano. Cada qual é o anti-homem, a antipessoa, o anticristo, o antitudo.

Nós ouvimos falar em Guernica, a cidade espanhola que sofreu um trágico bombardeio durante a guerra Civil Espanhola. Pelo amor de Deus, não sejamos cínicos. Na Guerra Civil, cada lado faz uma Guernica em cima do outro. São massas de canalhas contra massas de canalhas. Cada uma das nossas inocentes passeatas propõe Cuba, propõe Vietnã, propõe a matança espanhola, propõe a linha chinesa etc. E isso sem nenhuma sutileza, da maneira mais límpida, líquida, taxativa. As passeatas picham os muros confessando suas intenções.

Até há bem pouco, a história tinha-nos feito o favor de não testar a nossa crueldade. Eu próprio escrevi, certa vez, com certa humilhação de subdesenvolvido: — “Nunca tivemos um vampiro”. Mas eu vejo muita gente querendo beber sangue como groselha. E já o mito da nossa bondade começa a ruir. Em São Paulo, massacraram um oficial americano porque era americano. A vítima estava com o filho, um garotinho. O filho foi testemunha auditiva e ocular do fuzilamento do pai.

E quem fez esse crime, de uma irracionalidade apavorante, não foi chinês, nem espanhol, nem tirolês, foi um brasileiro. Portanto, convém desconfiar dos nossos bons sentimentos. Mas voltemos à história que o aparte do ouvinte interrompeu. O padre velhinho, de oitenta anos ou mais, está nu. A dez passos, ou quinze, estamos nós, de fuzil apontado. Veja bem: — nós — brasileiros, torcedores do Flamengo, do Fluminense, do Botafogo, do Vasco massacrando um velhinho, magro, santo e nu. Queremos sangue.

O brasileiro tem suas trevas interiores. Convém não provocá-las.

Ninguém sabe o que existe lá dentro. Sim, ninguém sonha com as fúrias que estão por baixo das trevas, A partir do momento em que se instala o terrorismo no Brasil, tudo o mais é possível. E nós, brasileiros, estamos brincando com a nossa irracionalidade. Ainda domingo li um espantoso editorial sobre o assassinato do oficial americano. Lá está dito que foi obra da direita. Meu Deus, deixamos de raciocinar. Os esquerdas levam anos promovendo, aos urros, o seu ódio aos Estados Unidos. E vem um jornal e diz que foi a direita a assassina. Ninguém entende mais nada e nem há nada para entender.

Mas não vou acabar sem referir um outro episódio da Guerra Civil Espanhola. Prenderam uma freira que, por infelicidade, era mocinha. Se tivesse 85 anos, seria apenas fuzilada. Mas, repito, era mocinha. Um miliciano pergunta-lhe: — “Queres casar comigo?”. Não quis. E, então, ele tomou-lhe o rosário e enfiou-lhe no ouvido as contas do rosário. Em seguida, bateu-lhe na orelha com a mão aberta, até rebentar-lhe os tímpanos. Ato contínuo, fez o mesmo na outra orelha. E, por fim, a violou. Transfiram o mesmo fato para o Brasil dos nossos dias. As nossas classes dominantes estão encantadas com a letra de Vandré. Há grã-finas que a cantam, deliciadas, como se cada qual fosse a própria Dolores Ibárruri, a “Passionaria”. É uma pose, claro, mas uma pose pode comprometer ao infinito. Em caso de Guerra Civil, prendem a capa de Manchete. Um sujeito pergunta: — “Queres casar comigo?”. Não. O revolucionário faz o seguinte: — enfia-lhe pedrinhas no ouvido. Depois dá murros na orelha. Os tímpanos explodem. Faz o mesmo na outra orelha. E depois, depois. Paro aqui.

Com algumas pequenas adaptações, esse texto é de Nelson Rodrigues, publicado em outubro de 1968.

E então, hein? Nelson Rodrigues pintando um quadro sombrio mais de meio século atrás. Em alguns momentos até parece que falava destes nossos dias sombrios, não é?

Pois é, cara…

Em 2014, durante um quebra quebra que se seguiu às chamadas manifestações populares no Rio de Janeiro, dois inconsequentes acenderam um rojão que foi explodir junto à cabeça de Santiago Andrade, cinegrafista da TV Bandeirantes que documentava a confusão. O cinegrafista morreu e o que se seguiu foi uma polêmica insana sobre responsabilidades, criminosos, jovens inocentes, fascistas (outra vez), intolerância, etc etc.

Confesso que fiquei assustado. Em alguns momentos parecia que eu estava num filme italiano dos anos sessenta, daqueles de Pasolini ou até mesmo Fellini, onde imperava o realismo fantástico. Não parecia ser real aquela discussão. Havia um brasileiro morto e se discutiam questões acessórias…

Bem, o escritor Ruy Castro escreveu um texto chamado Trevas dos Brasileiros, publicado na Folha de São Paulo. É conveniente trazê-lo para esta nossa reflexão.

Ao fundo você está ouvindo La Passionaria, com o Baixo de Charlie Haden e o violão de Antonio Forcione.

Nelson Rodrigues, numa crônica dos anos 60, falou de um inglês de passagem pelo Rio. Ao lhe perguntarem que característica identificava no brasileiro, o visitante espiou em volta e declarou: a cordialidade. Referia-se às pessoas que, nas ruas, se dirigiram umas às outras como se se conhecessem , fossem íntimas e se estimassem, embora nunca se tivessem visto.

Nelson fez disso um artigo, mas talvez não partilhasse da ideia do inglês – ou não de todo. Porque, em outra crônica, pouco depois, escreveu: “O brasileiro tem suas trevas interiores. Convém não provocá-las. Ninguém sabe o que existe lá dentro”.

Mas se não sabíamos como era o brasileiro por dentro, não é por falta de exemplos que estamos deixando de saber. Nosso passado recente inclui prisioneiros metralhados às centenas numa cadeia, homens fritando seus semelhantes em “micro-ondas” nas favelas ou abatendo helicópteros com fuzis. Chacinas são vistas como faxinas. Outros degolam companheiros de cela, chutam cabeças de adversários caídos nas arquibancadas, agridem moradores de rua e gays e vão às ruas para destruir, queimar, matar.

Conheci Santiago Andrade, o cinegrafista morto pelos “Black-blocs”. Durante anos, veio semanalmente a meu apartamento, com o produtor João Paulo Duarte, para gravar uma coluna diária que eu fazia na TV BandNews. Era grande profissional e pessoa. Insistia no melhor enquadramento, melhor som, melhor luz. Se, por minha culpa, tivéssemos de refazer cada coluna duas ou três vezes, era com ele mesmo.

Santiago foi vítima desses brasileiros que estão pondo suas trevas para fora. Há algo de monstruoso em quem dispara um rojão em meio a uma multidão, indiferente ao que pode acontecer. Alguém fracassou na formação desses indivíduos.

Não somos cordiais, somos cruéis, e é bom que o mundo se cuide a nosso respeito.

É cara! Pesado esse texto do Ruy Castro.

Olha, não sei você, mas eu estou a cada dia mais indignado. Não aceito esse rótulo de cruel. Ou fascista. Ou bandido. Ou intolerante. Não sou assim cara, acho que você também não é. Mas temos visto a crescente elevação da intolerância. Gente tem sido linchada virtualmente, alguns já foram parar na cadeia, cara… Quanto falta para repetirmos o fuzilamento do padre de Navalmorales? Ah, você acha que eu estou exagerando? Não tô, não. Tô avisando.

O brasileiro tem suas trevas interiores. Convém não provocá-las. Ninguém sabe o que existe lá dentro.

E nasceu a Itaú Cultural Play, plataforma de streaming gratuita dedicada a produções nacionais. O catálogo oferece mais de cem títulos já na estreia e é composto de filmes, séries, programas de TV, festivais e mostras temáticas e competitivas, além de produções audiovisuais de instituições culturais parceiras. É só fazer um cadastro gratuito que você poderá acessar todo conteúdo e escolher se verá no desktop ou no celular.

Acesse itaucultural.org.br. Agora você tem cultura entrando por aqui, por aqui, pelos olhos e pelos ouvidos…

É assim então, ao som de Sympathy for the Devil, com os Rolling Stones num versão que os caras chamam de 8D áudio, que vamos saindo, assim, meio preocupados.

Olha cara, não mexe com o diabo, não, viu? É ele quem tem as chaves para nossas trevas interiores.

O Café Brasil é produzido por quatro pessoas. Eu, Luciano Pires, na direção e apresentação, Lalá Moreira na técnica, Ciça Camargo na produção e, é claro, você aí, que completa o ciclo.

O conteúdo do Café Brasil pode chegar ao vivo em sua empresa através de minhas palestras. Acesse lucianopires.com.br e vamos levar um cafezinho ao vivo pra você?

Olha! Tem mais, tem muito mais de onde veio esse conteúdo aqui. Acesse mundocafebrasil.com. Venha para o nosso ecossistema. Ali você pode consumir conteúdo de primeira linha mas pode fazer mais. Você pode se tornar um assinante e ajudar a gente a continuar produzindo esse conteúdo aqui que chega de forma independente. Cara! Nós não estamos aqui conectados a nenhum grande portal, não tem ninguém por trás. O trabalho da gente é produzir de forma absolutamente independente, cara, o que significa que nós temos que encontrar fontes pra remunerar o trabalho e poder continuar fazendo. E você, tornando-se um assinante, é parte ativa do sistema. É parte ativa desse jogo. Venha! mundocafebrasil.com.

Mande um comentário de voz pelo WhatSapp no 11 96429 4746. E também estamos no Telegram, com o grupo Café Brasil.

Pra terminar, uma frase dele, é claro. Nelson Rodrigues:

Antigamente, o silêncio era dos imbecis hoje, são os melhores que emudecem. O grito, a ênfase, o gesto, o punho cerrado, estão com os idiotas de ambos os sexos.