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Eduardo Ferrari - Resumos e Artigos -

Lembremos que o objetivo dessa série é chamar atenção para o conteúdo do Curso On-line de Filosofia, que pode ser acessado na página do Seminário de Filosofia. Os principais destaques da aula de 2h59min serão apresentados em menos de 5 minutos de leitura, não substituem de forma alguma a experiência de assistir a uma aula completa do Professor Olavo de Carvalho e tem a finalidade de fisgar o leitor para que se torne aluno regular do COF.

No início da quinta aula do COF, em 25 de abril de 2009, o professor reforça a importância da formação literária para o estudo da filosofia. O livro do Olavo, Aristóteles em Nova Perspectiva — A teoria dos Quatro Discursos, trata exatamente disso: a poética (incluída a literatura de ficção) e os outros três tipos de discursos (retórica, dialética e lógica), compõem todo o ferramental do intelecto humano para descrever, estudar e compreender a realidade.

A leitura de clássicos da literatura fornece referências comparativas que são importantíssimas para a análise filosófica de situações reais. Por isso, os livros de ficção dos maiores autores de todos os tempos devem ser lidos como se as estórias e as reações humanas fossem reais. Para compreendermos as mazelas humanas, faz-se necessário trabalhar a imaginação por meio da literatura de ficção. Na mesma linha, um livro de filosofia deve ser lido não apenas partindo-se do pressuposto de que as narrativas sejam reais, mas principalmente deve-se imaginar quais foram as experiências vivenciadas pelo autor que o levaram àquelas conclusões.


Olavo chamou esse exercício de “reconstituição da experiência originária”, que seria responsável por 90% da compreensão de uma obra filosófica.


Ao responder uma pergunta de um aluno, Olavo citou Benedetto Croce, que dizia: “você não entende uma filosofia se você não sabe contra quem ela se levantou polemicamente”. Isso significa que para entender a obra de um filósofo você precisa pesquisar e entender o contexto histórico, dados biográficos, fatos reais da vida do autor e até mesmo quem ele estava tentando refutar com suas ideias. Tudo com o objetivo de conferir se o conteúdo filosófico do autor está respaldado por suas experiências sensíveis, de forma coesa.

Ao ser questionado por outro aluno sobre a existência de uma oposição entre a fé religiosa e a filosofia, o Professor responde que fé nos dias de hoje significa acreditar numa doutrina religiosa.


Porém, a fé relatada na Bíblia Sagrada não pode ser esse tipo de fé, pois não havia uma doutrina na época em que o Senhor Jesus viveu na Terra. A doutrina católica foi sendo construída para refutar os questionamentos dos incrédulos diante dos testemunhos das pessoas que narravam os acontecimentos vivenciados por elas na época de Jesus e dos Apóstolos.


Essa justificativa para o surgimento e o desenvolvimento da doutrina católica a partir da busca de explicações racionais para as objeções aos fatos narrados por testemunhas da época de Cristo, está descrita numa tradução espanhola de um livro raríssimo de Alois Dempf, publicada pela editora Gredos, chamada La concepción del mundo en la Edad Média. A argumentação para essas objeções foi sendo produzida de maneira caótica até que mil anos depois do nascimento e morte de Jesus, elas foram organizadas de maneira lógica em sumas teológicas.

A diferença entre evidência intuitiva e crença infundada consiste em que a primeira gira em torno de uma percepção decorrente da presença do objeto, diretamente ou imaginativamente. Essa existência real do objeto vale mais do que qualquer ideia a respeito dele. Olavo sugere que se busque o desenvolvimento desse senso da realidade concreta, citando Voegelin: “a experiência da realidade é em si mesma transcendente”. Uma crença, por sua vez, apenas permanece enquanto repetida à exaustão.

Segundo o Professor, a realidade é a fonte abundante de ensinamentos que nos guia no caminho da verdade. Diante da percepção da realidade e de sua imensidão, se tivermos a noção de quão ínfimos somos, estaremos no caminho da filosofia. Embora não tenha citado nesta aula, me lembro de outras ocasiões em que Olavo menciona a tensão existente entre saber que somos apenas um átomo na estrutura da realidade, mas que ao mesmo tempo nossa alma imortal transcende o tempo de duração de todas as coisas concretas e reais do mundo físico, que certamente não durarão para sempre como nossas almas.

Ao responder mais uma pergunta sobre a filosofia baseada em experiências reais da vida, Olavo afirmou que não se trata de interpretar sinais a partir da realidade, mas sim de contemplar a realidade como ela mesma se apresenta, citando Santo Tomás de Aquino:

“Nós escrevemos com palavras, mas Deus escreve com palavras e coisas.”

Essa é uma de minhas aulas preferidas, pois começa a se consolidar na cabeça do aluno o fato de que a filosofia nada mais é do que a busca da verdade por meio da tentativa incessante de compreender a realidade que nos cerca.

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