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O que é Respeito?*

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Alessandro Loiola -

Quando éramos crianças, fomos ensinados, por bem ou por mal, a respeitar nossos pais e professores, nossa família, as autoridades, as regras, as leis, os sentimentos das pessoas, os emblemas de nossa nação e as tradições de nossa cultura.

Na idade adulta, estes aprendizados, ainda que imperfeitos, impregnaram nossas relações: o convívio em sociedade exige um enorme grau de Respeito pelos membros que a compõem, suas crenças, seus pensamentos diferentes, suas orientações sexuais, seus níveis econômicos e, primordialmente, pela vida de cada ser humano. Afinal, sem algum respeito mútuo, nos devoraríamos em poucos minutos.

Mas exatamente como o Respeito é constituído? Que tipos de Respeito existem? E será que estamos esquecendo o que Respeito deveria ser?

OS QUATRO ELEMENTOS DO RESPEITO

Uma atitude de Respeito consiste na relação entre um sujeito e um objeto ao qual o sujeito responde de uma determinada maneira e a partir de uma determinada perspectiva. Assim, o primeiro elemento do Respeito é um Objeto: o Respeito deve sempre ser direcionado para algo. E este algo pode ser uma pessoa, uma ideia, uma religião, uma instituição, um símbolo, etc.

Do objeto deriva o segundo elemento do Respeito: a Motivação. Devemos estar imbuídos de motivação para considerar um determinado objeto digno de Respeito. Sem motivação, ficaríamos inertes e o Respeito jamais brotaria.

Uma vez motivados, passamos para a etapa da Deliberação, um planejamento (nem sempre consciente) sobre como reagir frente ao objeto e ao estímulo despertado por ele. De um modo ideal, o Respeito deveria ser governado não pela volatilidade das emoções, mas pelo exercício deliberado da Razão, da Lógica, do Raciocínio e da Temperança. Uma deliberação com estes fundamentos permite que demonstremos Respeito pelo que não apreciamos, pelo que não concordamos, e até mesmo por nossos inimigos.

Finalmente, temos o quarto elemento e último elemento do Respeito: a Resposta. Não é à toa que a palavra Respeito vem o latim respicere, “olhar de novo”, que também poderia ser entendido como “olhe de novo e responda à motivação que o objeto suscita”. A Resposta, portanto, nada mais é que o modo como eliminamos a indiferença e a negligência, e dedicamos tempo e atenção para responder ao um objeto.

OS TIPOS DE RESPEITO

Podemos concordar que, em primeira instância, é o elemento Objeto que condiciona o Respeito que será exteriorizado ou negado. As diferentes configurações do Objeto definem os tipos de Respeito que possuímos, que podem ser classificados em três grupos principais: a Observância (o Respeito pelas Ideias), a Reverência (o Respeito pelos Outros) e o Auto-Respeito (o Respeito por Si Mesmo).

Observância está no âmago das Moralidades que nos governam. É a Observância que confere corpo aos dogmas, às tradições, às regras, às leis e às instituições. Sem Observância, nenhuma destas faculdades teria qualquer sentido ou impacto.

Reverência, por sua vez, é o tipo de Respeito extensivo a todos os seres humanos pelo simples fato de serem humanos – uma concepção que está no cerne da formulação dos Direitos Naturais descrito por John Locke (1632-1704). Em Dois Tratados sobre o Governo(1689), Locke defendeu que os indivíduos são iguais, independentes e deveriam ser tornados plenamente livres para decidir suas ações, dispor de seus bens e regular os semelhantes que possam vir a ofender os seus direitos. Nada disso seria possível sem Reverência.

A Reverência também foi profundamente investigada por Kant (1724-1804), para quem as pessoas deveriam ser respeitadas como “fins em si mesmas” e não “meios para os outros” – como ele mesmo afirmou em A Metafísica dos Costumes (1797).

Além da natureza humana apontada por Locke e Kant, as qualidades que normalmente nos motivam para estabelecer um objeto como digno de Respeito por Reverência ainda incluem a senciência, o livre arbítrio, a autonomia, a inclinação para o raciocínio e a habilidade de se envolver em relações amigáveis recíprocas.

Todavia, por vários motivos diferentes, a obrigação Moral de sempre ter Reverência para com todas as pessoas é no mínimo controversa. Deveríamos ter Reverência com terroristas, estupradores confessos e praticantes de crimes hediondos? Ademais, a Reverência deveria ser aplicada a outros animais, além dos humanos?

Finalmente, temos o Auto-Respeito, que envolve a capacidade de identificar as próprias vocações, de estabelecer e cumprir metas, de construir valores individuais, e de ser capaz de compreender os limites da própria soberania. É o Auto-Respeito que dá sentido à frase “cada pessoa é o pior inimigo de si mesmo”.

O Auto-Respeito é essencial para uma vida satisfatória, significativa e virtuosa. Em geral, ele é comparado (nem sempre corretamente) à autoestima, à autoconfiança, à dignidade, ao amor próprio, à honra e ao orgulho. Não obstante, podemos definir Auto-Respeito mais precisamente como sendo a consciência do senso de autovalor envolvendo aspectos cognitivos de autopreservação, de ação e de reação à realidade do mundo; um senso que reverbera em nossos pensamentos, desejos, valores, emoções, compromissos, disposições e participa de maneira crucial na formação da própria Identidade Pessoal.

Na cultura Ocidental, o Auto-Respeito pode ser dividido em (1) o senso de valor que temos de nós mesmos (nosso mérito pessoal enquanto membros de uma comunidade) e (2) na expectativa que temos das consequências de nossos atos (nossos encargos e obrigações ante a sociedade). Auto-Respeito, portanto, envolve Autopertencimento e Auto-responsabilidade.

SOBRE A CRISE DO RESPEITO

O Respeito certamente não é um assunto novo. Estudos extensos sobre Respeito – especialmente o Respeito por Observância e o Respeito por Reverência – já constavam na obra de Confúcio (551-479 a.C.), como pode ser percebido em “Os Analectos”, também conhecido como Diálogos de Confúcio (o livro doutrinal mais importante do confucionismo). Porém, devido às variações nos modos como processamos os quatro Elementos do Respeito, a noção de Respeito é fundamentalmente subjetiva e variável conforme as culturas e as épocas.

Exatamente devido às particularidades dos Elementos que o compõe, o Respeito não pode ser exigido ou conquistado por emprego da força: ele é sempre ofertado, pois um “respeito” exigido não é respeito, mas intimidação. E um “respeito” conquistado com violência tampouco é respeito, mas servidão.

A maioria dos problemas que enfrentamos em situações que envolvem desentendimentos relacionados ao Respeito se origina de ruídos ou falhas na compreensão, na identificação ou na expressão de um ou mais dos Elementos que constituem o Respeito.

Por exemplo: você acredita que deveria receber mais Respeito dos outros, pois oferece sua Observância com grande solicitude por onde quer que passe. Contudo, o fato de você identificar e responder a Objetos de Respeito não significa que as pessoas identifiquem em você um agente digno de Reverência. Ou algumas vezes elas percebem, mas não se sentem motivadas o suficiente para se expressar. Ou sentem-se motivadas, mas não deliberam sobre suas respostas – e lhe dão um feedback que, do seu ponto de vista, é insuficiente para suprir a carência de atenção que lhe atormenta. Em todos estes casos, a “Resposta” tende a ser interpretada como desacato ou desprezo.

Também pode ocorrer de você estar qualificando como dignos de Observância e Reverência alguns objetos que não deveriam receber sua atenção. Neste caso, existe uma avaria no elemento de Deliberação em seu Auto-Respeito, e a falta de reconhecimento pelo seu valor não decorre de você não ter valor, mas do fato de estar dando valor a objetos que não merecem o crédito de sua Motivação e de sua Resposta. Uma deliberação ruim quase sempre resulta em devoção a um objeto que não deveria ter suscitado qualquer motivação.

Estes inconvenientes, muito mais que estados disfuncionais do Respeito, mostram o quanto o espírito humano é recheado de contradições, e o quanto o Respeito parece ser a única coisa que nos impede de mercantilizar definitivamente a existência. Basta observar: quando o Respeito é reduzido ou ausente, as relações interpessoais são desumanizadas; a cortesia, a fraternidade e a cooperação tendem a desaparecer; e a hostilidade, o abuso, a agressão e a manipulação indiscriminada rapidamente ganham espaço. Como resultado, a escassez de Respeito resulta em uma sociedade imersa em falsas esperanças, intolerância, ódio e frustração.

Não restam dúvidas de que o Respeito é imprescindível para o bom funcionamento de qualquer sociedade. Ele é o principal caminho (quiçá o único) para o convívio equilibrado entre os humanos e destes com o mundo à sua volta. Mas, infelizmente, o Respeito não é inato: ele é um processo de aprendizado contínuo que exige doses imensas de tempo, dedicação e disciplina. Infelizmente, uma vez que tempo não significa disciplina ou dedicação, ter mais idade não se traduz necessariamente em compreender melhor o que Respeito é.

Ainda que soe romântico, é correto dizer que o Respeito não pode existir sem amor, admiração e compreensão. Por isso, em um mundo cada vez mais fútil em seus amores, cada vez mais intolerante nas hipocrisias de suas falsas tolerâncias, e cada vez mais incompetente em suas compreensões subjetivas sobre os propósitos da vida, não admira que o Respeito esteja se tornando mais raro a cada dia.

O Relativismo Moral herdado pelo século XXI elegeu muitas mediocridades como objetos; confundiu motivação com necessidade; amputou a deliberação e degenerou a resposta em um espetáculo de hipocondríacos mendigando considerações que nunca mereceram.

Resta saber até que ponto conseguiremos nos afundar neste abismo de leviandades sem perder a capacidade de coexistir com um mínimo de inteligência e sabedoria, e a saída para este impasse certamente será um dos grandes desafios que as próximas gerações terão que enfrentar.

 

___________

*Referência: Dillon, Robin S. “Respect”, The Stanford Encyclopedia of Philosophy (Spring 2018 Edition), Edward N. Zalta (ed.). Acessado em https://plato.stanford.edu/entries/respect/

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