s
Iscas Intelectuais
Cafezinho Live
Cafezinho Live
Luciano Pires, criador e apresentador dos podcasts Café ...

Ver mais

Me Engana Que Eu Gosto
Me Engana Que Eu Gosto
Me engana que eu gosto: dois meio brasis jamais somarão ...

Ver mais

Tá chegando o Podcast Café Brasil 700!
Tá chegando o Podcast Café Brasil 700!
Tá chegando a hora do Podcast Café Brasil 700!

Ver mais

Aplicativos IOS e Android para o Café Brasil Premium!
Aplicativos IOS e Android para o Café Brasil Premium!
MUDANÇAS IMPORTANTES NO CAFÉ BRASIL PREMIUM A você que ...

Ver mais

Café Brasil 736 – Coisas Sobre Você
Café Brasil 736 – Coisas Sobre Você
A Bianca Oliveira é jornalista, apresentadora de ...

Ver mais

Café Brasil 735 – Morrer de quê?
Café Brasil 735 – Morrer de quê?
Fala a verdade, quem é que não se pegou pensando sobre ...

Ver mais

Café Brasil 734 – Globalização e Globalismo
Café Brasil 734 – Globalização e Globalismo
Olha, vira e mexe a gente ouve falar em globalização e ...

Ver mais

Café Brasil 733 – Agro Resenha
Café Brasil 733 – Agro Resenha
O agronegócio, que talvez seja o mais espetacular caso ...

Ver mais

Comunicado Café Brasil e Omnystudio
Comunicado Café Brasil e Omnystudio
Nos 14 anos em que produzimos podcasts, esta talvez ...

Ver mais

Comunicado sobre o LíderCast
Comunicado sobre o LíderCast
Em função da pandemia e quarentena, a temporada 16 do ...

Ver mais

LíderCast 204 – Marco Bianchi
LíderCast 204 – Marco Bianchi
Humorista, um dos criadores dos Sobrinhos do Athaíde, ...

Ver mais

LíderCast 203 – Marllon Gnocchi
LíderCast 203 – Marllon Gnocchi
Empreendedor de Vitória, no Espírito Santo, que começa ...

Ver mais

Sem treta
Sem treta
A pessoa diz que gosta, mas não compartilha.

Ver mais

O cachorro de cinco pernas
O cachorro de cinco pernas
Quantas pernas um cachorro tem se você chamar o rabo de ...

Ver mais

Leitura do Cafezinho 304 – (in) Tolerância
Leitura do Cafezinho 304 – (in) Tolerância
A intolerância é muito maior na geração que mais teve ...

Ver mais

Leitura cafezinho 303 – Cérebro médio
Leitura cafezinho 303 – Cérebro médio
Escolha um tema quente, dê sua opinião e em seguida ...

Ver mais

O turismo e a economia
Luiz Alberto Machado
Iscas Econômicas
O turismo e a economia A indústria do turismo passou certamente pelo maior desafio das últimas décadas, mas é forte o bastante para superar. Esteja atento às possibilidades tecnológicas e agregue ...

Ver mais

O boom no turismo regional no mundo pós-pandemia do coronavírus
Michel Torres
Estratégias para diferenciação e melhor aproveitamento da imensa demanda por hotéis e pousadas Um detalhe sobre a pandemia do coronavírus em curso é que as áreas com focos concentrados são ...

Ver mais

Boicote, Coelhinho?
Fernando Lopes
Iscas Politicrônicas
O britânico Charles Cunningham entrou pra História de um jeito muito diferente. Em 1880, foi à Irlanda dirigir os negócios de um grande proprietário de terras local. Acabou entrando em desavenças ...

Ver mais

Aquém do potencial
Luiz Alberto Machado
Iscas Econômicas
Aquém do potencial  “A economia está sujeita a conveniências políticas que a levaram por maus caminhos. Por isso enfatizo tanto a gravidade da situação, na esperança de levar seus responsáveis ao ...

Ver mais

Cafezinho 320 – IV Sarau Café Brasil
Cafezinho 320 – IV Sarau Café Brasil
Um convite para o IV Sarau Café Brasil

Ver mais

Cafezinho 319 – A cizânia
Cafezinho 319 – A cizânia
Fique de olho nos Tullius Detritus que infestam sua vida.

Ver mais

Cafezinho 317 – Declaração de Princípios
Cafezinho 317 – Declaração de Princípios
Quando decidi que lançaria meu primeiro curso on-line, ...

Ver mais

Cafezinho 316 – Não somos estúpidos
Cafezinho 316 – Não somos estúpidos
Não, não é para mergulhar no otimismo cego, que é tão ...

Ver mais

Pandemia, ciência e democracia

Pandemia, ciência e democracia

Gustavo Bertoche - É preciso lançar pontes. -

Num momento de crise, como a situação de pandemia em que vivemos, muitos desejam uma orientação a respeito de como devem agir, mas não sabem em que confiar.

Nesse contexto, leio aqui e ali pessoas inteligentes nos exortando a “seguir a ciência”. Que elas me desculpem, mas eu não sigo o que eu não sei o que é.

* * *

Foi o Rubem Alves quem, no livro Filosofia da Ciência, escreveu que “o cientista virou um mito” e que “todo mito é perigoso”. De fato: a idéia de um cientista puro e universal, ou melhor: de uma ciência objetivamente desinteressada, imune à política e ao mercado, é mitológica. O ethos científico – que, como descrito por Merton, corresponde aos valores do universalismo, da coletividade, do desinteresse e do ceticismo organizado – é uma meta mais ou menos inatingível. É imensa a bibliografia sobre a utilização das estruturas e pesquisas acadêmicas com a finalidade da obtenção de vantagens para empresas e para agentes políticos. “Confiar na ciência” corresponde, com muita freqüência, a confiar simplesmente no interesse econômico empresarial e no interesse ideológico de movimentos políticos.

É também mitológica a idéia de uma ciência unitária e uniforme. O tipo de existência da ciência não é como o de um partido político, em que se pode apontar inequivocamente qual é a sua posição oficial, qual é o seu presidente, quais são as suas teses orientadoras. A ciência existe como um conceito abstrato relativamente indeterminado – como são os conceitos de “Ocidente”, de “religião”, de “povo” – que se ramifica em muitas regiões simbólicas.

Como mostraram Bachelard, Kuhn, Feyerabend e muitos outros depois deles, a idéia de uma posição unitária da ciência sobre qualquer assunto não passa de uma idealização, de uma sinédoque, de uma personificação. “A ciência” não afirma nada; “a ciência” não sustenta posição nenhuma. Quem afirma, quem sustenta as suas posições, são “os cientistas”. E eles não afirmam nada em uníssono, eles não pensam em bloco: não existe unanimidade em campo algum da ciência. Em todos os ramos da investigação científica – na física, na biologia, na sociologia, na psiquiatria, na economia, na climatologia, na epidemiologia… – há os cientistas que adotam a posição padrão naquela época e naquele lugar, e há os que nadam contra a corrente. Quando tomamos a voz de um cientista como a voz da própria ciência, simplesmente adentramos o domínio poético do pensamento metonímico: tomamos uma voz concreta e particular como se fosse a posição de todos os cientistas de todas as regiões científicas. Nada nos impede de usar figuras de linguagem – desde que não as tomemos como expressões diretas do real, e desde que elas não nos sirvam de orientadoras das ações políticas concretas.

* * *

Há uma grande disparidade entre as posições dos cientistas porque, como Popper mostrou, a ciência é incapaz de provar qualquer coisa: uma teoria científica não é uma descrição exata da realidade, mas uma hipótese a ser testada, aperfeiçoada e, eventualmente, abandonada. O trabalho do cientista não é o de “confirmar” uma teoria, mas o de tentar derrubá-la. Em outras palavras: a ciência não nos oferece “a verdade”, mas descrições mais ou menos provisórias que funcionam até certo ponto e que nos permitem operar, de algum modo, no mundo.

De fato, é na incompletude, na mobilidade, no criticismo da atividade científica que reside o seu valor. Se um cientista se torna um dogmático, então já abandonou o campo da ciência e adentrou o campo da ideologia.

* * *

Neste momento devo interromper brevemente a argumentação: é certo que alguém está a ponto de me acusar de de “terraplanista”. É preciso dizer que nunca houve terraplanismo nem entre os cientistas, nem entre os filósofos, nem entre os teólogos; como mostra Jeffrey Butron Russel em Inventing the Flat Earth, a concepção de que os medievais acreditavam na “Terra plana” não passou de uma “fake news” divulgada por intelectuais cientificistas no século XIX com a finalidade de ridicularizar a religião. Ninguém pode levar a idéia da “Terra plana” a sério, nem achar que o outro é, sinceramente, um terraplanista. Tenho certeza: todo terraplanista só pode ser um gozador, um trolador, exatamente como aqueles que seguem a religião “maradonista” na Argentina.

No fundo, o que alguém quer dizer quando acusa o outro de terraplanista é que o outro é um opositor da pesquisa científica. Não é o meu caso. Não somente não me oponho ao trabalho dos cientistas, como o defendo e o julgo fundamental para a sociedade e para a humanidade. Sustento inclusive que todos os governos deveriam investir boa parte do seu orçamento na pesquisa e no ensino científico, sem nenhuma obrigação do pesquisador para com resultados imediatos em função da economia ou do bem-estar público.

Essa minha posição não é contraditória com a constatação de que as ciências são perspassadas por interesses econômicos e políticos; ora, esses interesses são inevitáveis, e devem nos prevenir contra a confiança cega nas conclusões dos cientistas, mas não podem nos levar a defender o cerceamento da sua liberdade de investigação.

* * *

Eu não posso “seguir o que diz a ciência” porque “o que diz a ciência” simplesmente não existe. Existem cientistas e suas equipes, campos científicos, escolas de pensamento, laboratórios e experimentos; existem debates, controvérsias, fraudes; existem descobertas acidentais e existem construções teórico-experimentais complexas e meticulosas. Mas não existe “a resposta científica”, simples e unívoca, para um problema real do mundo humano.

Por essa razão, quando me recomendam que, diante da pandemia, é preciso “seguir o que diz a ciência”, eu fico sem saber o que me está sendo recomendado. De fato, suspeito que esse pensamento prosopopéico signifique, afinal, “seguir uma determinada ideologia” – e que o imperativo: “siga a ciência!” não seja senão mais um slogan, vazio como todos são.

“Seguir a ciência”? Obrigado, mas não estou pronto para acompanhar as suas preferências ideológicas e os seus mitos: eu permaneço seguindo a minha razão – que, a propósito, deve acidentalmente concordar com o que algum cientista, em algum lugar no mundo, está sustentando neste exato momento.

* * *

Ademais, a sociedade humana é complexa demais para que as decisões políticas que dizem respeito a todos sejam tomadas por doutores em biologia, em medicina ou em qualquer ciência. O conhecimento muito profundo sobre um vírus não confere a ninguém profundidade no conhecimento sobre as dificuldades da vida social, econômica, política e espiritual do ser humano. A opinião de um cientista sobre essas dificuldades, quando não dizem respeito à sua especialidade, não vale mais do que a opinião de qualquer outro cidadão.

Por isso, permaneço defendendo que as decisões que afetam a toda a comunidade sejam tomadas pela própria comunidade, após um debate amplo que inclua a palavra de muitos cientistas – um debate em que a razão comunicativa nos aproxime do compromisso possível para que, nos responsabilizando pelo nosso futuro, encontremos o caminho que nos parece o mais adequado.

Entendo que vivemos em um tempo em que os indivíduos, perdidos e inseguros, desejam que um líder lhes diga o que fazer e que puna exemplarmente os que o questionem. Mas o desejo da tutela é a marca da menoridade.

Ver Todos os artigos de Gustavo Bertoche