s
Lidercast
Corrente pra trás
Corrente pra trás
O que vai a seguir é um capítulo de meu livro ...

Ver mais

O que é um “bom” número de downloads para podcasts?
O que é um “bom” número de downloads para podcasts?
A Omny Studio, plataforma global na qual publico meus ...

Ver mais

O campeão
O campeão
Morreu Zagallo. Morreu o futebol brasileiro que aprendi ...

Ver mais

O potencial dos microinfluenciadores
O potencial dos microinfluenciadores
O potencial das personalidades digitais para as marcas ...

Ver mais

Café Brasil 934  – A Arte de Viver
Café Brasil 934  – A Arte de Viver
Durante o mais recente encontro do meu Mastermind MLA – ...

Ver mais

Café Brasil 933 – A ilusão de transparência
Café Brasil 933 – A ilusão de transparência
A ilusão de transparência é uma armadilha comum em que ...

Ver mais

Café Brasil 932 – Não se renda
Café Brasil 932 – Não se renda
Em "Star Wars: Episódio III - A Vingança dos Sith", ...

Ver mais

Café Brasil 931 – Essa tal felicidade
Café Brasil 931 – Essa tal felicidade
A Declaração de Independência dos Estados Unidos foi um ...

Ver mais

LíderCast 328 – Criss Paiva
LíderCast 328 – Criss Paiva
A convidada de hoje é a Criss Paiva, professora, ...

Ver mais

LíderCast 327 – Pedro Cucco
LíderCast 327 – Pedro Cucco
327 – O convidado de hoje é Pedro Cucco, Diretor na ...

Ver mais

LíderCast 326 – Yuri Trafane
LíderCast 326 – Yuri Trafane
O convidado de hoje é Yuri Trafane, sócio da Ynner ...

Ver mais

LíderCast 325 – Arthur Igreja
LíderCast 325 – Arthur Igreja
O convidado de hoje é Arthur Igreja, autor do ...

Ver mais

Segunda Live do Café Com Leite, com Alessandro Loiola
Segunda Live do Café Com Leite, com Alessandro Loiola
Segunda live do Café Com Leite, com Alessandro Loiola, ...

Ver mais

Live Café Com Leite com Roberto Motta
Live Café Com Leite com Roberto Motta
Live inaugural da série Café Com Leite Na Escola, ...

Ver mais

Café² – Live com Christian Gurtner
Café² – Live com Christian Gurtner
O Café², live eventual que faço com o Christian ...

Ver mais

Café na Panela – Luciana Pires
Café na Panela – Luciana Pires
Episódio piloto do projeto Café na Panela, com Luciana ...

Ver mais

Vida longa ao Real!
Luiz Alberto Machado
Iscas Econômicas
Vida longa ao Real!   “A população percebe que é a obrigação de um governo e é um direito do cidadão a preservação do poder de compra da sua renda. E é um dever e uma obrigação do ...

Ver mais

A Lei de Say e a situação fiscal no Brasil
Luiz Alberto Machado
Iscas Econômicas
A Lei de Say e o preocupante quadro fiscal brasileiro   “Uma das medidas essenciais para tirar o governo da rota do endividamento insustentável é a revisão das vinculações de despesas ...

Ver mais

Protagonismo das economias asiáticas
Luiz Alberto Machado
Iscas Econômicas
Protagonismo das economias asiáticas   “Os eleitores da Índia − muitos deles pobres, com baixa escolaridade e vulneráveis, sendo que um em cada quatro é analfabeto − votaram a favor de ...

Ver mais

Criatividade, destruição criativa e inteligência artificial
Luiz Alberto Machado
Iscas Econômicas
Criatividade, destruição criativa e inteligência artificial   “O capitalismo é, essencialmente, um processo de mudança econômica (endógena). O capitalismo só pode sobreviver na ...

Ver mais

Cafezinho 632 – A quilha moral
Cafezinho 632 – A quilha moral
Sua identidade não vem de suas afiliações, ou de seus ...

Ver mais

Cafezinho 631 – Quem ousa mudar?
Cafezinho 631 – Quem ousa mudar?
O episódio de hoje foi inspirado num comentário que um ...

Ver mais

Cafezinho 630 – Medo da morte
Cafezinho 630 – Medo da morte
Na reunião do meu Mastermind na semana passada, a ...

Ver mais

Cafezinho 629 – O luto político
Cafezinho 629 – O luto político
E aí? Sofrendo de luto político? Luto político é quando ...

Ver mais

LíderCast 241 – Arthur Pinheiro Machado

LíderCast 241 – Arthur Pinheiro Machado

Luciano Pires -

Luciano Pires: Bom dia, boa tarde, boa noite. Bem-vindo, bem-vinda a mais um LíderCast, o PodCast que trata de liderança e empreendedorismo com gente que faz acontecer.

Hoje trazermos Arthur Pinheiro Machado, um engenheiro e empresário inovador, que abraçou o mercado financeiro, para provocar uma revolução, batendo de frente com nada menos, que a Bolsa de Valores. O que acabou lhe trazendo muitos problemas. Arthur foi envolvido em desdobramentos da Operação Lava Jato, acusado de fraudes em fundos de pensão, num processo que provocou, inclusive, sua prisão. E esta é a primeira oportunidade que ele tem de contar a história em detalhes. Eu confesso que fiquei reticente sobre gravar este LíderCast, pois a máquina de moer reputações fez um trabalho excelente com o Arthur. Mas depois de assistir a utilização da justiça como instrumento político para abater adversários, inclusive entre empresários; senti que esta seria uma oportunidade de esclarecimento. Ouça o que ele tem a dizer. E tire suas conclusões. Muito bem. Mais um LíderCast. Hoje, por um acaso, eu estou gravando fora do meu ambiente. Eu estou aqui na Panela Produtora, aproveitando uma oportunidade aqui de fazer uma sequência de gravações. E, como sempre, eu vou contar como é que o meu convidado chegou até aqui. Eu o conheci gravando o episódio número um do 5º Elemento, onde eu fui o convidado. Eu que nasci para ser o 8º Passageiro, que nem eu falo lá. De repente, virei o 5º Elemento. Eu estava ali sentado. O pessoal conversando comigo. Eu o conheci. A gente bateu um papo lá, muito rapidamente. Depois eu falei: ali tem história. Eu começo o programa com três perguntas, que são as únicas que você não pode errar. Depois você chuta à vontade. Essas três, por favor, á… seu nome, a sua idade e o que você faz?

Arthur Pinheiro Machado: Arthur Machado, 46 anos. E hoje, além do 5º Elemento, estou nessa maluquice de ser pré-candidato a deputado federal por São Paulo. Uma aventura.

Luciano Pires: Quando a gente marcou de fazer essa gravação aqui, eu não tinha ideia que você era candidato. Surgiu no meio do caminho. Eu falei: marcou. Quando eu vi, ele estava candidato também. Eu falei: vamos embora. Vamos conversar a respeito. Nasceu onde Arthur?

Arthur Pinheiro Machado: Rio de Janeiro. Eu morei lá durante muitos anos. E depois vim para São Paulo. Porque comecei a ter a vida profissional, que me jogava para São Paulo. E aí, ao invés de ficar lá, conversando com a minha mulher eu falei: a gente está gastando um tempo enorme. Eu mais em São Paulo do que no Rio, como todo bom carioca. Eu falei: vamos morar lá. Até porque, eu gosto muito de São Paulo. Eu não vim por…

Luciano Pires: Família grande?

Arthur Pinheiro Machado: Família grande. Ela vem originalmente de Belém do Pará. Muitos ficaram lá. Meu pai foi para o Rio de Janeiro. Meu pai e minha mãe. Meu pai era fiscal, funcionário público. A minha mãe, dona de casa. Morávamos há muito tempo na zona sul do Rio de Janeiro. Mas a minha família, de maior número, ficou em Belém. Mas é bem grande. Como todo bom paraense.

Luciano Pires: Terra boa. Lá, como é? A Casa das 13 Janelas? 13, 7, 12? Eu não sei quantas são. Mas eu fui lá. Lá eu tive uma experiência muito boa. Porque ali tem um restaurante. E no cardápio dele tem pratos típicos de vários lugares do Brasil. então eu fui comer um feijão verde – que eu comi em Fortaleza – em Belém, porque estava no meio do prato lá. Mas muito legal. Eu fiz um Café Brasil só sobre a cultura do Pará. Pai D’égua Sumano.

Arthur Pinheiro Machado: Pai D’égua. Exatamente. Pai D’égua. Então? Lá se fala muito: égua. Eu gosto muito do pato no tucupi. Sensacional. A farinha amarela, que é muito tradicional lá, é mais durinha e tal. Eu gosto muito.

Luciano Pires: Sim. Eu fui lá fazer uma série de eventos. Eu estava pelo Brasil afora. Eu estava levando comigo o Beto Hora, que é um dos maiores imitadores desse país. O Beto é sensacional. E o evento acontecia de noite. E toda vez que eu vou para um lugar típico, eu faço questão de pegar alguém e falar: me leva para comer uma comida da região aqui? Não tem problema nenhum. E quando eu fui para lá, os caras falaram: eu vou te levar num lugar completamente fora… e levou a gente num boteco, que não tinha nada a ver. Era na periferia, alguma coisa assim. E o cara trouxe para a gente comer muçuã. Depois que eu entendi o que era. E aí trouxe o pato com tucupi. Que nem eu, nem o Beto tínhamos comido. E a característica desse prato é que ele usa a tal da… como é que chama aquela…

Arthur Pinheiro Machado: É a folha da mandioca.

Luciano Pires: Mas é parecida com mandioca. Ela é venenosa.

Arthur Pinheiro Machado: Exato.

Luciano Pires: E ela tem um gosto muito particular. E ela vai adormecendo a língua da gente. E a gente tinha um evento à noite, onde o Beto era o apresentador. E daqui a pouco, estamos lá comendo, os dois. O que está acontecendo com o Beto? Ele: minha língua está crescendo.

Arthur Pinheiro Machado: Ela fica inchada e você fica dormente mesmo. Mas é uma delícia a comida. Espetacular.

Luciano Pires: A gente adorou. Qual era o teu apelido quando era criança?

Arthur Pinheiro Machado: Tuca.

Luciano Pires: Da onde vem Tuca?

Arthur Pinheiro Machado: Apelido. Eu não sei. Eu não tenho ideia. Mas era Tuca.

Luciano Pires: O que o Tuca queria ser quando crescesse?

Arthur Pinheiro Machado: O Tuca – como toda boa criança – foi de tudo. Já quis ser astronauta. Já quis ser militar. Queria realmente ir para o exército, durante muito tempo. Depois eu decidi que eu queria ser lutador de arte marcial. Aí eu fiz caratê mesmo. Eu fui até a faixa marrom.

Luciano Pires: Eu vi uma orelha meio estranha sua aí.

Arthur Pinheiro Machado: Então? A estranha não é por causa do caratê. Eu fui para o jiu-jítsu.

Luciano Pires: Essa orelha é de jiu-jítsu.

Arthur Pinheiro Machado: Mas eu tinha esse sonho de ser astronauta, militar. Nunca pensei que ia ser empresário, por exemplo. Não era a minha cabeça. Não era.

Luciano Pires: Sim. E a tua família não tinha? Não era empresária?

Arthur Pinheiro Machado: Não.

Luciano Pires: O bichinho do empreendedorismo não estava aí?

Arthur Pinheiro Machado: Não. O meu pai era funcionário público. A minha era dona de casa. O meu pai valorizava muito a questão da educação. Então ele realmente falava: leia bastante, etc. Era um cara muito culto, quase que um self-made man, foi se educando. Mas ele falava muito a preocupação com a educação. Mas o empresariado para ele era um bicho de sete cabeças. Tanto que depois, quando eu entrei no mercado financeiro – muito mais para frente – ele ficou assustado. Ele falava assim: cuidado. Você está atuando no mercado financeiro. Eu fui trabalhar. O meu primeiro estágio foi no banco Opportunity, que era do Daniel Dantas. Eu entrei na faculdade em 94, mais ou menos um pouquinho antes de eu me formar, que foi em 97. Eu me formei em 98. Eu entrei no Opportunity, mais ou menos, em 97. E fiquei até 2001. Mas o Daniel tinha acabado de quase ser ministro do Collor. Tinha saído àquela aura dele. E ele falou: cuidado com essa turma. Olha com quem você vai trabalhar. Esse pessoal é perigoso. Então ele tinha uma aversão até a esse lado. Mas o lado privado. Era uma preocupação. O sonho dele era que a gente fosse para o setor público.

Luciano Pires: Teve algum momento que você começou a pender mais para o lado de exatas, de humanas? Eu vou escolher o que eu vou fazer quando eu me formar. Teve algum momento que…

Arthur Pinheiro Machado: Não. A minha escolha nesse sentido, foi bem pequena. Foi: o que me dá mais dinheiro? Eu gostava muito de humanas. Gostava do lado de Filosofia. Estudo até hoje Filosofia, por conta própria. Mas eu achava o seguinte: eu preciso ganhar dinheiro. E naquela época, quando eu fiz a faculdade, foi em 94. Na verdade, foi no início do governo Fernando Henrique. Ele tinha acabado de fazer a URV. Aquela crise econômica muito grande. Tinha tido um achatamento significativo no salário dos funcionários públicos. O meu pai sentiu muito. Eu senti muito na pele, questão de dinheiro, falta de grana. Porque a perda do poder de compra é real. Então eu falava assim: eu não quero viver assim. Eu senti que tinha uma asfixia muito grande. Então eu falei: vou fazer minha faculdade. Foi em 93 isso, pensando no que me daria mais dinheiro. Eu pensei em 93. Eu queria ir para o ITA/IME da Escola Naval. Eu queria ser militar. Mas daí saiu uma reportagem grande no Globo – na época, eu morava no Rio – com o salário do general até o início da carreira, que era o tenente. Aí eu olhei aquilo e falei: o tenente ganha bem. Vou ser tenente. Mas quando eu olhei o general, eu falei: a diferença não é grande. Eu falei: não dá para mim. E aí eu gostava de Matemática também. Mas eu olhei: entre a carreira de humanas e de exatas, eu falava assim: Engenharia está contratando. Engenharia é bem melhor. Então eu fui fazer Engenharia. Eu passei para a PUC e fiz Engenharia Mecânica. Mas por causa de dinheiro. Depois me arrependi. Me formei em Engenharia, mas nunca trabalhei em Engenharia.

Luciano Pires: Então você se formou. Pegou um certificado de engenheiro na mão e chegou: pai. Está aqui. Isso?

Arthur Pinheiro Machado: Está aqui. Sinta orgulho do seu filho.

Luciano Pires: E vou fazer o que da minha vida?

Arthur Pinheiro Machado: Eu comecei a trabalhar – antes disso – com Engenharia. Na verdade assim: quando eu estava na Engenharia da PUC, eu tive um professor chamado Washington Braga – que está lá até hoje – que assinou meu diploma anos depois. Hoje ele é o chefe da Engenharia, do departamento. E ele falou o seguinte: você é muito bom em termodinâmica. Você devia ir morar fora. Fazer uma graduação sanduíche, pelo menos. Ele foi meu professor de termodinâmica. Ele falou: você vai ser um tremendo engenheiro. E aí eu disse para ele: tudo bem. Eu comecei a fazer esse processo de ir morar fora. Fazer a graduação sanduíche. O que aconteceu? Um amigo meu falou: vamos fazer um estágio? Não vai não. Faz um estágio antes. E naquela época no Rio tinha duas grandes empresas que contratavam engenheiros, que era a Coca Cola e a Shell. É no mesmo prédio, ali na Praia de Botafogo. Aí eu falei: vamos fazer o seguinte? Eu toparia fazer isso se fosse para Coca Cola e a Shell. Eu vou mandar os dois. Eu vou me preparar para, de repente, estudar na Alemanha. Eu comecei a me preparar. Fiz Alemão 1 na PUC. Fiz Alemão 2. Comecei a me preparar. E aí ele falou: esquece isso. O meu pai disse – o pai dele era da Petrobras – que você antes de trabalhar com Engenharia, tem que ver da onde vem o dinheiro para bancar o projeto. Vamos fazer um estágio num banco. Eu falei: não quero fazer estágio em banco. Porque para mim naquela época, banco era ser bancário. Ele falou: vamos fazer o seguinte? Me dá o teu currículo que eu vou levar o meu e o seu em dois bancos que eu conheço, que estão falando aí, banco de investimentos. E você pega o meu currículo e leva na Shell e na Coca Cola.

Luciano Pires: Eu nunca ouvi essa opção de primeiro entender de onde vem o dinheiro, para depois aplicar em Engenharia.

Arthur Pinheiro Machado: Pois é. Essa ideia foi do pai dele. Que é uma ideia boa.

Luciano Pires: Claro.

Arthur Pinheiro Machado: Mas eu fui. Não queria trabalhar em banco. Eu falei: se eu não for para a Alemanha, eu vou trabalhar na Shell. Porque eu queria trabalhar em qualquer coisa Luciano. Eu precisava de dinheiro. Essa é a realidade. Já fazia aquela bolsa do CNPq, de pesquisa científica em Física. Dava ali 1.500 reais na época. O que para mim, pagava minhas farras todas com 19, 20 anos. Fui e entreguei o currículo, na Shell e na Coca Cola. Nunca fui chamado. O Filipe foi para a entrevista na Shell. Ele entregou o meu currículo no Icatu, no Pactual e no Opportunity. Eu fui chamado para duas entrevistas: o Icatu e o Opportunity. Ele não. Fui fazer a entrevista. Entrei totalmente…

Luciano Pires: Defendido…

Arthur Pinheiro Machado: Sem saber nada. Eu falava: não sei e tal. Mas naquela época os bancos estavam contratando. O cara queria engenheiro. Contratando engenheiros. Eu fui. Comecei o meu estágio lá. E ele foi para o estágio na Shell. Virou um grande engenheiro. Depois perdemos contato. E eu segui o caminho do mercado financeiro.

Luciano Pires: E gostou quando meteu a mão ali? Porque deixa eu te falar uma coisa, de fora. Eu não tenho nenhuma proximidade com o mercado financeiro. Eu não tenho nem amigo que está no mercado financeiro. Isso para mim é um bicho de sete cabeças. É uma hidra. É terrível. É horroroso. Aquilo é um negócio que dá até medo de eu chegar perto. E eu fico curioso com gente que bota a mão naquilo e gosta. E passa a trabalhar naquilo. Eu falo: deve ser um negócio horroroso. Evidentemente, se eu me dedicasse, talvez eu passasse a gostar também. Mas eu olho de longe como um quebra-cabeça insolúvel. E você tem da Engenharia e, de repente, está mexendo com dinheiro, no mercado financeiro. O que te encantou ali?

Arthur Pinheiro Machado: Primeiro, em termos do trabalho, o que encantou foi o seguinte: eu começo no mercado financeiro. Como você vem da Engenharia, você tem uma base matemática muito forte. Que era muito melhor, do que a turma da Economia na época. Tanto que a Economia hoje melhorou bem a base matemática. Mas você tinha um positivismo no mercado, muito forte. E os modelos matemáticos, principalmente nos Estados Unidos, estavam se desenvolvendo muito. Controle de risco, várias coisas. E aí o que acontecia? Eu como engenheiro, que tinha aprendido cálculo, consegui ver um resultado prático, além daquele que a gente via na Engenharia. Começou a vir modelos de matemática avançada aplicados à realidade. Então aquilo ali, primeiro: dá prazer de você ver a realidade. Você trabalhar de fato com a modelagem que você aprendeu na faculdade. E de forma muito prática, naquele minuto. Porque você está ali com dinamismo. Isso é muito legal. Muito legal. Agora, também dá a presunção de que você conseguiria controlar o mundo ou entender o mundo, a partir de modelos matemáticos. E agora você é o máster das finanças. A gente estava conversando um pouco mais cedo sobre outras coisas. Você de um exemplo que, talvez, seja o que melhor descreva o que eu vivi naquele período. É aquela ideia da loja de hambúrguer, que vende o hambúrguer, mas que você não vai pelo hambúrguer. Você vai pelo entorno. O mercado financeiro te atrai pelo entorno. A ideia de status. A ideia de que você sabe comprar e vender empresa. Que você mexe com dinheiro. Que você é um cara diferenciado. Ele tem todo um glamour em volta. Quando você vai ver o que é o trabalho efetivo você tem sim, muita modelagem matemática. Você tem ali as operações financeiras em si. Elas são carregadas – algumas – de uma complexidade. Mas também não é toda essa complexidade, no Brasil principalmente. Lá fora não. Lá fora tem. Mas aqui no Brasil não. Mas é uma ilha da fantasia. É uma arapuca.

Luciano Pires: Que época você está? Que ano é esse?

Arthur Pinheiro Machado: Foi o período de 98 até 2002, mais ou menos. Essa época do Opportunity.

Luciano Pires: Com bolha do dotcom no meio. Com a bolha da internet no meio do caminho, com o bug do ano 2000.

Arthur Pinheiro Machado: Argentina, 98. Depois teve crise da Rússia.

Luciano Pires: Rússia em 98.

Arthur Pinheiro Machado: Crise da Rússia também. Teve Argentina, Rússia…

Luciano Pires: Bug do milênio. Tudo ao mesmo tempo ali.

Arthur Pinheiro Machado: E Torres Gêmeas.

Luciano Pires: E Torres Gêmeas. Que doideira bicho. E com Wall Street tomando conta do mundo.

Arthur Pinheiro Machado: Tomando conta. Muito dinheiro. E você ganha bônus altos. Você com 20 anos, ganhar 200 mil reais de bônus. Você fala: é dinheiro pra caramba.

Luciano Pires: Qual era o banco que você estava?

Arthur Pinheiro Machado: No Opportunity.

Luciano Pires: Que era o nome da moda?

Arthur Pinheiro Machado: Do momento. As pessoas se matavam para estar lá e tal. Então você era cobrado. Agora, te dá – eu digo isso como formação humana – eu entendo o Opportunity. Óbvio, você abre um caminho. Abre uma cabeça de ideias. Te apresenta um mundo gigante. E foi muito bom. Foi muito aprender métodos de trabalho, que é o mais importante. É o método de trabalho, de disciplina mental, que tem no mercado financeiro. E talvez eu diga o Opportunity, que é uma casa muito específica, de pessoas brilhantes. Eu acho o Daniel até hoje brilhante, apesar de outras questões. Mas ele tem um método de trabalho, o Dório. Eu trabalhei – nunca diretamente com o Daniel – já diretamente com o Dório. Eu tive bons chefes lá dentro. Método de trabalho, disciplina, que até hoje me inspiram.

Luciano Pires: Quando você entrou, estava começando o Opportunity? Já tinha decolado?

Arthur Pinheiro Machado: Já tinha decolado. Já tinha decolado.

Luciano Pires: Já era o nome?

Arthur Pinheiro Machado: Já tinha decolado. Então você tem uma disciplina muito boa. Agora, como formação humana, ele te tira da realidade. Ele te bota: nós somos especiais. E isso acontece até hoje na Faria Lima. Você vê o cara que acha que é diferente porque ele está no mercado financeiro. Porque ele mexe com dinheiro. Porque ele faz grandes operações. Ele tira – como diz a turma – uma boleta alta. Mas em termos de formação humana e de visão de mundo mais ampla, é muito ruim. A filosofia é ruim.

Luciano Pires: Você está trabalhando num lugar que 1+1 dá 2 sempre. Não há possibilidade de dar 1,8; 2,2; que é como a vida funciona. Eu costumo dizer que os números são insuficientes para descrever a vida da gente. Não dá. Eu gosto de usar o exemplo das Torres Gêmeas. Você fala desse ponto de vista do Opportunity: o que é Torres Gêmeas? Duas Torres, na verdade sete prédios, quatro aviões.

Arthur Pinheiro Machado: Isso aí.

Luciano Pires: E três mil mortos. Encerrou. Agora, vem cá: é só isso? Espera um pouquinho. Isso mudou a maneira de ir e vir no mundo. Isso impactou socialmente o mundo. O dinheiro não mede. Então o dinheiro só é pouco ali para…

Arthur Pinheiro Machado: É. Eu diria até o seguinte, Luciano: não é só descrever o mundo em termos matemáticos ou financeiros. É pior do que isso. É descrever pessoas. Então você tem na prática do dia a dia a ideia de que o cara só é bom se ele tem dinheiro. Se ele é ganhador de dinheiro. A gente usa muito essa expressão: o cara é ganhador de dinheiro. Aí eu brinco: o Marcola também é. A gente esquece disso. Mas você tem uma formação humana que é muito prejudicial. Então ele te bota num mundo muito fechado. É a equipe do banco. É o banco. E nesse ponto não é só o Opportunity. Eu acho que é o mercado financeiro como um todo. Performance. As pessoas são melhores se performarem bem. Se há um desempenho bom. Então você vive a tua vida…

Luciano Pires: Então é meritocracia na essência dela. Não é isso?

Arthur Pinheiro Machado: Aí que está. Porque tem uma falsa promessa nessa história. A ideia de que se você realmente trabalhar. A ideia de que o trabalho duro, etc. é puramente ali a meritocracia. Não é verdade. Todas essas empresas possuem uma carga enorme de política, de politicagem de grupos. Então você pode trabalhar muito. Se você não fizer parte de um grupo ali. Se você não for aceito naquele grupo. Então você tem que trabalhar os dois fatores: o aspecto político e o técnico.

Luciano Pires: Isso tem em qualquer lugar. O dia que cair uma bomba. Descer um meteoro aqui e ficarem duas pessoas no mundo, você vai ter que lidar com política.

Arthur Pinheiro Machado: Vai ter política. Mas eu digo: o mercado financeiro te dá a falsa promessa de que é puramente técnico.

Luciano Pires: Trabalho duro.

Arthur Pinheiro Machado: Trabalho duro. E não é verdade.

Luciano Pires: Mas naquela época, você já tinha aquele interesse por Filosofia. Você já estava estudando Filosofia?

Arthur Pinheiro Machado: Já. Estudava bastante.

Luciano Pires: É uma situação interessante o seu perfil. Porque você sai do mundo da Engenharia. Entra no mundo do mercado financeiro, com um embasamento filosófico. Que é outra parada. Evidentemente que ele vai te ajudar de montão a entender o que está acontecendo ali.

Arthur Pinheiro Machado: Sim.

Luciano Pires: Mas as outras pessoas não têm esse tipo de embasamento. Eu falo meio de cadeira. Porque eu venho do mundo automotivo. Quase 30 anos no mercado de autopeças, como executivo de uma multinacional. Não tem espaço para filósofo lá dentro. Ali era o seguinte: escreveu? Não leu? O pau comeu. Tem que ler o quê? Tem que ler Tom Peters. Tem que ler Peter (Jorker 00:21:35). Não me vem com Kierkegaard aqui, que não cabe aqui dentro. E, de repente, aparece alguém que tem esse embasamento. Isso ajuda?

Arthur Pinheiro Machado: Ajuda muito.

Luciano Pires: Ou te deprime? Ajuda mais ou deprime mais?

Arthur Pinheiro Machado: Não. Ajuda muito. Eu tenho certeza. A Filosofia, inclusive, me ajudou enormemente. Não só dentro do banco. Mas depois, em outras empresas. E até hoje. Só que tem um porém: eu tenho que fazer aqui justiça ao banco. Daniel e Dório, ao contrário do que a gente pensa…

Luciano Pires: O Daniel que você está falando é o Daniel Dantas…

Arthur Pinheiro Machado: Estudam muita Filosofia. Por exemplo, eu entrei no Opportunity, jovem, 20 e poucos anos. E eu não conhecia – apesar de eu gostar de Filosofia – eu nunca tinha dado valor, me dedicado ao Karl Popper. A lógica da pesquisa científica e tal. O primeiro livro que eu li do Popper foi no programa de estágio do Opportunity. Porque o Opportunity queria que você estudasse Filosofia e entendesse que os modelos matemáticos exatamente, não são…

Luciano Pires: Suficientes…

Arthur Pinheiro Machado: Suficientes para descrever a realidade.

Luciano Pires: Legal.

Arthur Pinheiro Machado: E que as análises das pessoas estão erradas. A grande visão do Daniel é dizer o seguinte. Ele não procura – ao contrário do que a grande maioria do mercado financeiro faz – ele não procura achar as respostas certas. Ele entende o seguinte: as pessoas pensam de forma errada. Entendem mal a realidade. O que a gente vai ganhar de dinheiro é quando a realidade se apresenta de um jeito. As pessoas pensam a realidade de forma deformada. E elas, em algum momento, irão julgar de forma equivocada a realidade. E isso vai gerar duas possibilidades: ou elas vão colocar os ativos, os preços das coisas subavaliadas ou sobre avaliadas. Nunca estarão no preço certo. Então, o que ele entende; que a gente começava a estudar Filosofia e a modelagem matemática era: a volatilidade no longo prazo é besteira. Porque ela diminui mesmo. Agora, o que você tem que entender? O que está acontecendo no real. E como as pessoas interpretam mal isso. Então ele nunca buscou na filosofia de investimento, dizer que estava certo. Mas entender por que as pessoas estavam erradas. Essa é uma visão brilhante. Essa filosofia me ajudou muito também. E eu gostei dessa visão de mundo que estava ali.

Luciano Pires: Você tinha papos filosóficos? Você não trabalhou direto com o Daniel?

Arthur Pinheiro Machado: Não. Eu tinha como Dório. Eu trabalhei uma época. Os estagiários também tinham. Ele gostava de discutir Economia, Filosofia. Então tinha isso. Eu carreguei muito disso depois, na minha vida, nas outras empresas. E sempre falo: você quer entender melhor o mundo? Estuda Filosofia.

Luciano Pires: Eu imagino que você deve ter trabalhado muito com o pessoal que trabalhava diretamente com o Daniel Dantas.

Arthur Pinheiro Machado: Sim.

Luciano Pires: E esse pessoal deve ter reportado. Esse tipo de conversa devia haver lá também. O Dantas não era um bilionário focado só no toma lá, dá cá. Pelo que você está me contando aqui.

Arthur Pinheiro Machado: Sim. Não, não.

Luciano Pires: E, no entanto, acontece uma série de problemas com ele na sequência, que são de certa forma, mundanos. São problemas que não podiam acontecer com um cara que tem um entendimento filosófico um pouco mais elevado. Ou deveriam ser melhor controlados. O que houve ali?

Arthur Pinheiro Machado: Eu não convivi diretamente com ele assim, para entender essa dinâmica. Eu acho que o Daniel tinha o Opportunity como um grupo como um todo.

Luciano Pires: Sim.

Arthur Pinheiro Machado: Ele tinha uma visão sim, de muito estudo. Então dificilmente ele entraria numa conversa… ele lia 50 livros sobre o assunto. Se dedicava. Eu aprendi isso também. Ir lá, comprar o livro. Esse é um problema de biotecnologia. Mas ele estava lendo tudo sobre o assunto. Ele era muito disciplinado em não perder tempo. Coisas que eu carrego até hoje. Não perder tempo com o que não é importante. Você vai ver. O pessoal aqui do 5º até brinca comigo. Fala: Arthur, você usa a mesma roupa. Eu não uso a mesma roupa. Mas eu uso camisa preta ou branca. Caça jeans. Um terno azul. Porque eu falo assim: eu vou perder tempo escolhendo camisa combinando roupa? Eu tenho tanta coisa para aprender, que isso é menos importante, Ele levou isso ao extremo de dizer o seguinte: ele não queria nem escolher o prato de comida. Então ele comia sempre a mesma coisa: peixe e tal. Que é mais ou menos o que eu faço. Não tenho paciência para entrar no cardápio do restaurante. Eu gosto de dizer: tem a carne tal, mais ou menos assim? É o que eu gosto. É isso que eu quero. Então você acaba tornando a sua vida um pouco utilitária. Mas é bom. Por um lado é bom.

Luciano Pires: Isso ficou folclórico com o Steve Jobs. O Jobs tinha a mesma roupa. Tudo igual.

Arthur Pinheiro Machado: Eu acho que o Jobs imitou o Daniel, para ser sincero. Eu vi primeiro lá. Não tinha Apple na época. Então eu vi isso com ele, lá. Agora, de fato tinha coisas caricaturais. Ele tinha mesa que não tinha cadeira, que era em pé, mesa alta, para a pessoa ter reunião em pé. Ele tinha essas coisas. Agora, quando você vai para o mundo real existe uma coisa que a gente fala do aspecto mundano, que é a briga política das coisas. E a gente acha que existe a conduta certa e a conduta errada. E a gente vê essa forma. No bastidor das brigas políticas existe o que é útil e o que não é útil. Então, muito do que você faz é certo. Mas o cara vai lá e depois transforma em algo que não é apenas… tem uma parte do sistema. Eu acho que um grande erro do Daniel… ele teve brigas famosas na justiça. Eu acho que o grande erro dele, talvez, tenha sido subestimar a capacidade de fazer o mal do Lula, do PT. E foi o cara que foi o grande adversário dele. E que foi o cara que conseguiu zerar uma série de problemas para ele usando o Estado. Que ele, talvez, tenha subestimado. Ele ganhou de vários adversários. Ele gosta da briga. Ele não está preocupado com a briga. Eu entendo hoje, vendo de fora, que ele vê a briga como um jogo de xadrez. Uma diversão. Talvez, um estímulo intelectual, de uma guerra ali, onde a grana apenas mede o resultado das jogadas. Eu vejo que ele pensa assim. Agora, subestimou um grande inimigo dele.  O que ele fala? Esse cara não vai ganhar de mim. E não sei se ganhou. Mas conseguiu fazer um mal grande.

Luciano Pires: Opa se fez. Você ficou quanto tempo lá?

Arthur Pinheiro Machado: Eu fiquei até 2001. Final de 2001.

Luciano Pires: E você lidou direto com mercado de ações? Com Bolsa? Com isso tudo?

Arthur Pinheiro Machado: Direto.

Luciano Pires: Jogou ali? Fez o jogo da aplicação? Da desaplicação? Ou você estava no bastidor, montando modelos econômicos? O que você estava fazendo ali?

Arthur Pinheiro Machado: Então? Ali eu comecei a montar modelos econômicos. E descobri que tem uma diferença enorme entre você ser o traficante e ser o usuário. E digo o seguinte, que é a primeira lição: se você mexe com a sua corretora, se você é dono de corretora – depois eu virei sócio de corretora – se você está no mercado de ações, de fato, a tua renda é variável. A tua poupança não pode ser variável. Ou a tua renda é fixa, você é um médico, tem um dinheirinho fixo. Aí você pode brincar. Ou então você vai ter um problema. A tua renda é variável e correlacionada. Quando ela cair, porque o mercado foi ruim. Você vai precisar da tua poupança. A tua poupança caiu também. Essa foi a grande lição que eu tive. Principalmente, do uso do instrumento da alavancagem, que é o crédito. De certa forma é um crédito no mercado de ações. Então eu comecei a fazer alguns investimentos. Eu investi. Mas entendi o seguinte: não posso. Porque o meu negócio já é variável. Então eu ganho dinheiro se o mercado de ações for bom. Eu tenho que ter uma proteção, algum investimento mais conservador, porque na hora que a coisa não for bem, eu preciso do caixa. Então eu cheguei a investir. Não dinheiro de fundo, direto. Eu sempre estava na área técnica, montando modelos, etc. No meu pessoal, eu investi. Mas eu aprendi essa grande lição quando eu fiz um termo – que é uma alavancagem na Bolsa, pegar um crédito para pagar lá na frente – ganhei dinheiro no início. Aí segurei, segurei. É o clássico. E a gente fala: vai subir mais um pouco. E aí teve um evento de ruptura. Foi uma catástrofe. Eu fiquei devendo dinheiro. Eu passei um tempão para pagar.

Luciano Pires: Guardadas as proporções, isso aconteceu comigo com a Petrobras. Eu entrei naquele embalo lá. Lembra das ações da Petrobras?

Arthur Pinheiro Machado: Lembro.

Luciano Pires: De usar o fundo de garantia, não sei o quê?

Arthur Pinheiro Machado: Sim, sim.

Luciano Pires: E eu botei. Sem a menor pretensão. Quando abriram eu falei: põe aí. A empresa mandou para nós: quer botar? Eu falei: quero. Assinei um papel lá e deixei. Quando eu fui sair da empresa, lá na frente, que eu fui olhar, eu tinha um caminhão de dinheiro ali, de ações da Petrobras. Eu falei: que legal. Aí eu comecei a fazer o processo de retirada desse dinheiro, que eu ia partir para outra coisa. Esse processo levou 30 dias. E eu perdi 33% do dinheiro em 30 dias, numa loucura dessas, num evento disruptivo, que derrubou. E eu perdi 33% do que eu tinha lá, só na espera burocrática da retirada [inint 00:30:29]. Tem que ter coração para lidar com um negócio desses.

Arthur Pinheiro Machado: É. Tem que ter coração. Tem que ter planejamento. Eu acho que não é de fato para todo mundo. A volatilidade é muito alta, no mercado em geral. E você tem que ter uma visão de muito longo prazo. E verdade é a seguinte: quando você investe numa empresa como sócio minoritário – e eu gosto do mercado de ações. Mas a gente tem que entender isso – diretamente. Você não investe via fundo. Você está ali operando, etc. ou investiu. Você tem na verdade, um ativo, um investimento que não está sob seu controle. É diferente do seu bar ou da sua pequena empresa. Está sob o meu controle. O cara pensa: não. Mesmo na sua empresa tem eventos exógenos, que vão prejudicar e tal. Mas você não tem essa questão da volatilidade diária, da marcação, é mercado, é muito dura. Ela tem um psicológico que é complexo. Entendeu? Estou rico. Estou pobre. Você ter esse desprendimento de dizer: eu vou botar lá e não vou olhar. É muito difícil. Requer uma disciplina psicológica que não é para todos.

Luciano Pires: Sim. Até porque, virou modinha. De um tempo para cá virou modinha. Eu vejo. Toda hora aparece para mim lá uma proposta de virar daytrade e ficar milionário em três dias. Como se fosse a coisa mais simples do mundo lidar com esse jogo. Isso é cassino.

Arthur Pinheiro Machado: Então? O mercado de ações, se ele fosse realmente um mercado pulverizado no Brasil, se ele tivesse realmente dinamismo, fosse um mercado grande, ele não teria tanta volatilidade assim. O grande problema é que ele é um clube. Ele é uma armadilha. Hoje a Bolsa de Valores, do jeito que ela é estruturada, ela é uma armadilha. De fato, você acha que está investindo. E não está. Existe outro fenômeno que é problemático, que é o seguinte: teve uma época uma onda no Brasil, que por causa do desemprego qualificado – que eu chamo – que é o cara que é bom, mas não consegue arrumar emprego. Muita gente virou corretor de imóveis. Teve uma onda que inundou as pessoas de corretores de imóveis. A margem caiu. É um negócio mais difícil. Inundou. Meio que criou. Atendeu essa demanda por corretores. E aí o mercado ficou muito ofertado. O mercado de ações, com a figura do agente autônomo de investimento e do curso online, do daytrade, do cara que [inint 00:32:47] dinheiro. As corretoras investiram muito nisso para tentar atrair as pessoas para o mercado. E a questão é que muita gente virou agente autônomo de investimento e resolveu dar curso e dica de investimento, sem de fato estar ali, conhecer o negócio. Virou uma indústria para gerar emprego e comissão. E de onde vem a maior parte da grana, se você olhar o Brasil hoje? Onde as corretoras ganham dinheiro? Onde a turma ganha dinheiro? Não é te ensinando de verdade a investir. É te ensinando a investir, mas te ensinando depois, te dando crédito. Então você começa com um investimento e você fala: ganhei. Mas você botou mil reais. Ganhou 100%. Quanto você ganhou? Ganhei mil reais. Então não vai mudar a tua vida. Agora, o cara vem e fala assim: mas se você botasse mil e tirasse 10 mil? Você fala: opa…

Luciano Pires: Começou a ficar bom.

Arthur Pinheiro Machado: Agora é o meu jogo. Se eu botar 100 e tirar um milhão? Então aquele investimento que era 100 mil virou o quê? A margem, que são os 10% de um milhão. Então vai te…

Luciano Pires: Te instigar…

Arthur Pinheiro Machado: Ele te vende o crédito, o termo. Ele diz: eu te dou o termo. Me bota uma garantia, que eu te dou alavancagem. E hoje ele ganha dinheiro de fato, na taxa de juro ou na corretagem. Porque a corretagem é gerada em cima do crédito como um todo. Então, as corretoras ganham dinheiro hoje de fato, se você for ver na ponta do lápis, nas operações de alavancagem. Quando o cliente está alavancado, com crédito.

Luciano Pires: Isso é demais para a minha cabeça.

Arthur Pinheiro Machado: É o Brasil.

Luciano Pires: Deixa eu te contar a minha experiência com você. Depois eu vou cortar esse pedaço aqui. Mas esse é o momento que se você quiser passar batido você me avisa tá?

Arthur Pinheiro Machado: Não. Vamos embora.

Luciano Pires: Deixa eu te contar a minha experiência com você. A gente veio, gravou o programa. Eu te conheci ali na hora. Aí eu estou lá navegando nos meus grupos do Telegram. E de repente, entra no grupo, um recorte de um vídeo de um dos programas, que tem uma fala tua. Eu não vou me lembrar mais qual foi a fala. Foi um negócio que viralizou. Você está falando alguma coisa da economia brasileira. Uma conversa muito legal, tanto que viralizou. Que legal. Quando eu vi ali eu falei: olha o Arthur aqui. Eu assisti o vídeo. Maravilha. Embaixo entra alguém e fala: vem cá, esse Arthur não é o cara daquela confusão, que estava metido no rolo de não sei o quê? Eu olhei aquilo e falei: o que está acontecendo aqui?

Arthur Pinheiro Machado: Que bomba?

Luciano Pires: Que história é essa? Que bomba é essa? Quer falar a respeito?

Arthur Pinheiro Machado: Com o maior prazer.

Luciano Pires: Vamos lá.

Arthur Pinheiro Machado: Eu até assim, o Brasil devia explorar mais essa história. Eu gosto muito dessa história. Porque a gente olha, às vezes, certas teorias e fala assim: o teatro das tesouras. A gente fala muito sobre isso. Mas ninguém vivenciou isso. E eu digo: eu vivenciei. Eu vi o sistema por dentro. Entendi como o sistema funciona. Porque você fala do teatro das tesouras, você fala: tá bom. Como que é o ataque do sistema? As pessoas não conhecem. Então, muitas vezes, as pessoas não têm ideia do que é o ataque do sistema. Eu posso te explicar como é o ataque do sistema. Então quando surge a confusão aí que gerou a Operação Lava Jato, etc. Eu entrei nela. E eu vou separar por etapas. Primeiro: hoje, olhando de forma retroativa e tal, Luciano, o que eu vejo? Eu sempre digo o seguinte: a Lava Jato foi um fenômeno multidimensional. Muitas vezes muita gente – inclusive a imprensa – rotula como se fosse um fenômeno unidimensional: combate à corrupção. Ela começou assim. Mas depois ela se estendeu em vários vetores. E o que é interessante nessa história é que depois ela vira o que eu chamo de lava jatismo, que é uma corrupção dela. Ela deixou de ser um fim – que é o combate à corrupção – para ser um meio. E qual foi o meio? Por isso que eu te digo que ela é multidimensional, vários vetores. O meu vetor foi quando – eu vou explicar para você por que – empresas que dominam o sistema. Eu digo dominar o sistema de fato. Elas ocuparam o Estado. Então elas patrulharam; capturaram certos órgãos do Brasil. O setor econômico utiliza o Estado para o seu fim. E ela viu a oportunidade de colocar. De fazer um aspecto de destruição do projeto que a gente estava construindo. E pior do que isso, de captura. Vai comprar isso mais barato. É uma oportunidade. Vem um tsunami, o cara olha e fala assim: eu vou empurrar esse cara dentro. E é interessante. Porque você tem uma, que foi o fenômeno midiático. E outra, o fenômeno jurídico. No fenômeno midiático, o que aconteceu? O cara te botou lá. Bota no Jornal Nacional. Te rotulou. Está no site. Virou verdade. Aí o que acontece? Mesmo depois que você sai daquilo ali, três meses depois, o judiciário do Rio de Janeiro disse: o cara não tem nada a ver com a Lava Jato. Não tem que estar aqui. Não tem nada a ver com isso. Essa história não tem nada a ver que está aqui.

Luciano Pires: O estrago já está feito.

Arthur Pinheiro Machado: Já está feito. Então o que acontece? Mas está rotulado. Então você não consegue ter voz para falar sobre isso. E por que não consegue? Porque você vai mostrar o que realmente aconteceu. Para você entender onde começa essa confusão. Eu era sócio da Corretora Ágora. Cuidava de mercados eletrônicos, porque eu entendia de tecnologia. E eu tive a ideia de montar um sistema eletrônico. Um dia eu estava vendo os Estados Unidos e vi que na verdade, a Bolsa americana, não existia uma. Existiam várias. E vários sistemas de negociação. E onde que estava o valor – de uma forma muito simplificada – onde está o valor? É na liquidez. Não é na Bolsa. Não é no prédio. E, principalmente, a Bolsa dos Estados Unidos, a NYSE, tinha perdido mercado. Ela só tinha 20% do mercado americano. E quem tinha o mercado mesmo eram as plataformas eletrônicas. Aí eu olhava para a Ágora e falava assim: a gente tem um varejo aqui. A Ágora naquela época tinha 50% do varejo. A gente tem o varejo. A gente tem a rede. Por que eu estou pagando a Bolsa para eu brigar para trazer o cliente pessoa física? Eu ficar responsável pelo compliance dele? Eu ficar responsável pelo financeiro dele? E se eu tenho a ordem de compra e a ordem de venda, eu caso aqui dentro, dou publicidade ao mercado. Mas a taxa é minha. E para você ver o absurdo, era assim: o Brasil, naquela época, a corretora pagava da taxa total do cliente, 30, 20% ficavam com a corretora, 80% era com a Bolsa. Então eu falei: eu quero o dinheiro da Bolsa. E a Bolsa valia 50 bi. Então eu falava: eu já sou uma Bolsa. Eu só tenho que… então a gente falou: vamos montar uma Bolsa? Eu já tenho aqui. Então a gente começou esse projeto dentro da Ágora. Havia uma série de problemas – não técnicos – jurídicos. E qual é a realidade que hoje eu vejo no Brasil? Foi o primeiro choque. Você vai na CVM e você pensa: vou levar uma ideia para o Brasil, que é sensacional. O Brasil é um país que tem uma Bolsa só. Os Estados Unidos tem 300. Depois eu vou falar um pouquinho do papel da Bolsa e tudo. Mas tem todo esse aspecto. O regulador vai adorar. A primeira reunião que eu fui na CVM, a cara dos caras quando eu falei que ia abrir uma Bolsa, que a gente queria abrir uma bolsa. Foi pânico. Para eu começar a entender que no Brasil, o cara não quer novidade. A ideia que ele quer empreendedorismo? Quer? Ele falou: rapaz, você vai criar um problema para mim. Eu digo que o setor público brasileiro… aí você fala: mas é moderno. Eu estou falando de Banco Central mesmo, CVM. Ele é [inint 00:40:12] o princípio da não interferência. Bota ali. Se não der problema, ninguém mexe. Então a ideia que o cara quer te receber para inovar é zero. Zero. Inclusive, depois que a gente deu essas ideias, eu fiz várias consultas sobre legislação e dúvidas que eu tinha sobre normativa. A CVM esclareceu todas. Mas todas colocando empecilhos e dizendo: sai daqui. Não inventa essa história. A gente falou: mas tem dinheiro na mesa. Eu vou buscar. Eu conheço uma empresa estrangeira, que chamava Marco Polo. Fui lá nos Estados Unidos, em Nova Iorque. Saí da Ágora. A Ágora foi vendida para o Bradesco em 2008. O Bradesco não se interessou muito pelo negócio de negociação eletrônica. Ele queria o varejo. E a realidade foi que aí você começa a entender: mas por que o Bradesco não ia se interessar por um projeto tão grande? Amigo, o mercado financeiro é um clube. E digo mais: a Bolsa de Valores não só é um monopólio que… é uma empresa monopolista, mas que os donos são oligopolistas. São oligopólios. E mais, eles fazem às vezes do Estado. E depois eu conto por quê. Mas enfim, fui nos Estados Unidos. Conversei com gente lá. O cara gostou do projeto. Resolveu investir conosco. Tinha uma estrutura já de tecnologia no Brasil. Trouxemos. E aí a gente começou a conversar. Eles tinham como sócio a Goldman Sachs. Eu conversei com a Goldman. A Goldman falou: a gente tem um enorme interesse no Brasil. O Brasil tem tudo para ter duas, três Bolsas. E isso é um hub de liquidez. Ia arrebentar. Mas é o seguinte: a gente sabe que você vai precisar de um sócio brasileiro. Porque a gente tem um fluxo nos Estados Unidos. Mas precisa do fluxo brasileiro. Aí a gente falou: quem são os caras que a gente pode trazer? E nisso, a gente estava montando o nosso sistema. A Bolsa viria depois. A gente dividiu esse projeto. Entendia que ele era grandioso. Mas ele tinha três etapas. A primeira etapa era montar um sisteminha de negociação. Eu digo sisteminha. Não pense que é pequeno. É o que está aí inclusive, que é a ATG, que funciona muito bem. Mas a gente montou um tremendo algoritmo ali de frente para, primeiro, capturar alguns clientes, fluxo. E depois ir fazendo os passos seguintes. Que nem um prédio. Primeiro bota a base e vou crescendo ele. Mas a gente já estava planejando isso. E aí, de forma muito simples ele falou: isso vai custar muita grana. A gente vai precisar de um sócio brasileiro. Eu rodei todos os caras que você imagina. E esse é o primeiro grande mito que a gente cria. No Brasil, a ideia é de que se você chegar com uma grande ideia, alguém vai ouvir. Na verdade, você tem que entrar para um clube. E dentro do clube, você apresentar uma ideia que está na modinha. Aí o cara, pode ser, que para fazer parte ali, daquela quase auto bajulação que tem no clubinho. A turma segue. Então a ideia que você vai montar uma ideia não existe.

Luciano Pires: Como um franco atirador, você não tem nenhuma capacidade de penetrar. É impenetrável essa…

Arthur Pinheiro Machado: Impenetrável.

Luciano Pires: Você está ouvindo o LíderCast, que faz parte do ecossistema Café Brasil, que você conhece acessando mundocafebrasil.com. São conteúdos originais distribuídos sob forma de podcasts, vídeos, palestras, e-books e com direito a grupos de discussão no Telegram. Torne-se um assinante do Café Brasil Premium através do site ou pelos aplicativos para IOS e Android. Você pratica uma espécie de MLA, Master Life Administration, recebendo conteúdo pertinente, de aplicação prática e imediata, que agrega valor ao seu tempo de vida. Repetindo: mundocafebrasil.com. Eu estava pensando aqui que, talvez, fosse uma questão de legislação e tudo mais. Mas não é?

Arthur Pinheiro Machado: Não é.

Luciano Pires: Não havia uma lei que te impedisse de criar a tua Bolsa ali?

Arthur Pinheiro Machado: Na verdade, o que existe… o que acontece? Esse é o problema do Brasil. A grande pilantragem do Brasil é a seguinte: não tem uma lei que não permita, mas não tem a lei que autoriza. Então ele te bota sempre no limbo jurídico. Em tudo. Então ele não é nem claro que sim nem claro que não. E você fala: talvez ele fala: não sei. Então é um problema. Você fica… você fala assim… é como se você, para tirar a sua carteira de identidade, você precisava do CPF. E o CPF você precisa para tirar a identidade. Você fica num looping jurídico. E não é só jurídico. E é um ponto interessante, que eu falo muito: o Brasil tem pessoas, tem grupos, que dominaram os meios de ação. Então não adianta você ter uma tremenda ideia. Não adianta você ter o mercado. Não adianta você ter até as pessoas. Porque você não vai ter domínio do meio de ação, ou jurídico ou investimento. Eu fico com muita pena, quando eu vejo. Várias pessoas me procuram e falam assim: Arthur, eu queria montar um business plan para apresentar para um banco. Eu tenho vontade de dizer para o cara: esquece amigo. O banco vai te receber. Mas nunca vai fazer. Aquilo ali é uma pantomima, é um teatro. Ele vai ouvir. Tem a área de recebimento de business plan. Não acontece. Porque se você tem um mercado que é tomado pelos meios de ação, o Estado é capturado e tem o oligopólio. O oligopólio faz o que ele quer. Não é você que manda no oligopólio, no investimento. É o oligopólio que determina como vai ser o mercado. Mas naquela época eu não tinha essa visão toda. E aí eu rodei o Brasil, alguns grandes fundos. E vi que não tinha interesse. Eu falei: é estranho. Aí me falaram: vamos fazer o seguinte? Quem são os dois maiores bancos que fazem arbitragem no Brasil entre Brasil e Nova Iorque? Aí tinha o Bank of New York e tinha o Itaú. Vamos nos dois. Luciano, no meio da reunião com o Itaú – o Itaú já era nosso cliente da plataforma, a gente já tinha a plataforma – ele olhou e falou assim: você está louco? Você quer abrir uma Bolsa? Quero e tal. Eu queria falar com você sobre investimento. Acabou a reunião. Aí a gente foi expulso da reunião. Aí eu falei: essa foi a pior reunião da minha vida. O que houve? Conversando com o meu sócio na época, ele falou: esses caras dominam o mercado. O mercado é dele. Você está dizendo que você vai entrar no mercado dele. Vai tirar um pedaço dele. Então você vai abrir o mercado. Você vai começar a libertar o mercado. E ali eu entendi que a gente tinha um adversário pesado. Mas fui à Nova Iorque, conversei lá com o Bank of New York. Ele falou: a gente tem uma filial no Brasil. Apresentou o pessoal da filial do Brasil. E aqui a gente começou a conversar com os caras. O cara falou: eu tenho acesso aos fundos de pensão. Perfeito. Nova Iorque falou: esses são os sócios ideais. Investidor de longo prazo. Tem liquidez. Tem mercado. Vamos embora. Fizemos um valuation, fizemos o nosso papel. Começamos a montar a Bolsa. E montar a ATG. O primeiro investimento nem foi para a Bolsa, foi para montar a própria ATG, que era a plataforma inicial. E assim a gente foi. A Bolsa, quando soube disso. Vazou. A gente foi numa reunião que é um absurdo. A gente foi para uma reunião fechada. A gente e a CVM. Apresentou um projeto chamado Projeto Zico.

Luciano Pires: Zico?

Arthur Pinheiro Machado: Zico. Porque o cara da Bolsa de Nova Iorque, que era nosso sócio também – a história é complexa, mas eu estou sintetizando – aqui. Era nosso sócio. A gente conseguiu trazer a Bolsa de Nova Iorque como sócia. Ele virou e falou assim: eu sou fã do Zico. Eu vou chamar esse projeto de Projeto Zico. O cara louco por futebol e tal. O cara era australiano, chamado Martin Cooper. Aí a gente saiu da CVM, Luciano, aqui em São Paulo. Desci da sala da CVM em São Paulo, toca o telefone. Era uma menina da revista Exame. Eu peguei o telefone: pois não? Eu estou falando com o Arthur Machado? Nós estamos com uma informação que o senhor está abrindo uma Bolsa, que tem um Projeto Zico, que vem com a Bolsa de Nova Iorque. Eu falei: eu acabei de sair da CVM. Só cinco pessoas tinham acesso a isso. Dois sócios da ATG. Seis. O cara da Bolsa de Nova Iorque e o resto eram os caras da CVM. Eu não liguei. Meu sócio estava do meu lado, não ligou.

Luciano Pires: O cara de Nova Iorque muito menos.

Arthur Pinheiro Machado: Você vai apresentar uma coisa para o regulador brasileiro. E o cara liga para a imprensa. Esse é o tamanho da esculhambação que é o Brasil. Entendeu? Ele já queria que a Bolsa soubesse. Então ele queria dizer: eu tenho que avisar para o meu chefe. Mas se eu ligar para o cara lá, vão saber que sou eu. Eu vou botar na imprensa. Botou na imprensa. Tudo bem. E a gente começou a enfrentar uma série de problemas. A Bolsa começou a fazer uma porção de prática anticompetitiva. E a ideia dos caras era a seguinte: eu vou deixar o Arthur sangrar. Porque o dinheiro vai acabar. E nós vamos sangrar ele com regulatório. Eu percebi esse movimento. E eu vi que eu estava sendo empurrado ora para a CVM, ora para o Banco Central. Eu falei: esses caras estão apertando a gente. E notei que estava tendo uma série de regulamentações que a CVM estava mandando para o Congresso Nacional para quê? Para garantir que nós não entraríamos no Brasil. Até tiveram outras Bolsas que tentaram entrar e não conseguiram. Então veja como que é feito o processo: a Bolsa domina a CVM. O Congresso é formado por gente que, honestamente, não conhece nada de mercado, pouquíssimo. Então, o que vem do órgão regulador, o que vem de uma autarquia tipo ANS. CVM é considerado verdade, supra-sumo. Como se a CVM e o Banco Central de fato amassem o Brasil e estivessem defendendo os interesses nacionais. Depois vamos processar aqui. Mas eu vou dizer: não estão. Defendem interesses privados, de grupos privados. Então o cara está lá, ele recebe aquilo e manda para o Congresso Nacional ou sugestões de leis ou portarias ou futuras sugestões. O cara pega aquele projeto e fala: a CVM. Veio da CVM é bom. Se veio é bom. E começa a votar. Eu falei: a gente tem que alertar. Falar com os caras lá. Fomos para lá. Gastamos dinheiro. Contratamos gente. Fomos divulgar que o projeto que os caras estavam falando, que vinha da CVM não era bom. E mostrando, principalmente, uma coisa: que a Bolsa brasileira estava roubando o lugar do Estado. Ou seja, primeiro ela tinha o monopólio. E que ela não era representativa da economia. Primeiro ponto. E por que ela roubava o lugar do Estado? Primeiro: ela tinha autorregulação. Então você tem uma companhia que só você oferece o serviço. Você se autorregula. Agora, entenda o que é autorregulação. Autorregulação deveria ser o mercado se regular. Não. Ela regula os clientes que eram os corretores. E regula a pessoa física, que é cliente da corretora. Então além de ela ter o monopólio de preço, ela regula o cliente. Nem o Stalin tinha um negócio desses. Agora eu vou te dar o grande ponto: não só ela regula o cliente, mas as empresas de capital aberto que estão lá dentro, ela criou um setor de arbitragem, que sai do judiciário. Então a arbitragem é um método de composição ou de hétero composição. Você contrata árbitros que estão dentro da Bolsa. Estão na lista da Bolsa.

Luciano Pires: Tudo dentro de casa? É uma caixa preta aquilo lá?

Arthur Pinheiro Machado: Ela regula. Ela pune. Ela tem poder de polícia. Ela tem poder de controle. Ela pode indicar. Fechar a tua corretora. Ela pode tirar a tua licença de operação de Bolsa. Ela pode decidir conflitos. Tudo fora do aspecto…

Luciano Pires: Jurídico.

Arthur Pinheiro Machado: Jurídico hoje. Jurisdicional do país. Puta business. Ela faz as vezes do Estado. E ela controla economicamente. Agora você fala assim: Arthur, mas qual o problema disso? Além de a Bolsa ter lucro, você tem que pensar que a Bolsa é um clube, que autoriza quem são os bilionários do país. Como é que você tem acesso ao dinheiro estrangeiro, da Goldman Sachs? Ou você pega um avião e vai lá para ser atendido. Vai levar cinco mil anos para ser levado a sério. Ou se você tiver uma empresa boa no Brasil, você bate na porta da Bolsa e fala: posso abrir o meu capital? De repente, ofertar para os investidores? Quem tem a chave para dizer: entra ou não entra? São os caras. Então eles te dão acesso ao dinheiro nacional. Eles te dão acesso ao dinheiro internacional. É o cara que decide quem são os bilionários do país. Agora, ela deveria ser uma instituição desenvolvimentista. Ou seja, ela deveria distribuir recursos para pequenas e médias empresas. Ela é uma instituição extrativista. Se você olhar o que ela faz. Ela pega a poupança dos pequenos investidores, concentra em duas, três corretoras. Tem um monopólio que ela cobra caro. E hoje o Brasil tem 60, 70 empresas no máximo, que têm liquidez. O resto? Devem ter umas 300, talvez, um pouco mais hoje, 300, 400 de capital aberto, somente 300 empresas. Mas 70 têm liquidez, em três corretoras. Então ela não está desenvolvendo o mercado.  Ela está extraindo dinheiro do mercado. É uma empresa rentista. Então é uma corrupção do que deveria ser. Um puta poder político. Eu estava morto ali. Até que eu tive uma ideia brilhante. Que foi o nosso grande problema. A minha ideia brilhante foi a seguinte: isso aí é anticoncorrencial. Vou no Cade. O único lugar que a Bolsa não tinha pensado era o Cade. E por que eu falo do teatro das tesouras? Porque a Bolsa ali estava dominada pelos bancos. E ela era tucana. O CFO na época – eu vou falar, porque ele acabou de falecer, de fato eu respeito aí as questões – era o Eduardo Guardia, que tinha sido do PSDB e estava ali como CFO, que era o diretor financeiro da Bolsa. A Bolsa carimbona tucana. Armínio Fraga, presidente do Conselho de Administração, que tinha sido ministro. Aquilo ali é um clubão amigo. É um clube. O cara com um poder enorme. Não tinha visto o Cade. Entramos no Cade, pegamos uma relatora competente. Ela falou: isso aqui é prática anticoncorrencial. Os caras estão fazendo prática anticoncorrencial para você não entrar. Começou a investigar e apertar, apertar. A gente falou: a gente vai ganhar. Aí ela começou a fazer alguns movimentos de mercado. Foi forçada. Chegou lá e falou: eu quero fazer um acordo.

Luciano Pires: Que ano era isso?

Arthur Pinheiro Machado: Eu acho que era 16, 17. Não. Eu entrei antes no Cade, 2016. 15 ou 16. Mais ou menos 15, 16.

Luciano Pires: Com a Lava Jato a milhão?

Arthur Pinheiro Machado: A milhão. Mas até aí… o problema não é meu. Mas aí eu vou te falar que são duas coisas paralelas. A Bolsa lá tocando, tucanona, 2014, 15. Bolsa tucana. A mil por hora. E a gente enfrentando a Cade. E começamos a ganhar do cara no Cade. A gente sentiu: a gente vai ganhar. Ela começou a buscar uma composição. O Cade tomou uma medida que foi boa para a gente, mas eu discordo. Ela falou o seguinte: só vou deixar você fazer o que você quer – ela queria comprar a Cetip na época – se você sentar com a ATG e fizer uma composição de abertura de mercado. E decidiu que isso tinha que ser feito via uma arbitragem. Aí a Bolsa assinou. Vamos começar a arbitragem. Beleza. Quebrou o monopólio. Começamos a mostrar assim: quebrei o monopólio. Eu, garoto classe média baixa do Rio de Janeiro. Quebrei o monopólio da Bolsa. Achei que ia sair ileso dessa brincadeira. Um monopólio de 40, 50 bi na época, que hoje vale 100. Começamos. Estava indo bem. E a gente lá. A Bolsa começou a usar o poder político. O Valor me entrevistava: Arthur, você é o cara. De repente, começou a bater em mim, o Valor. E eu fui procurar a mesma jornalista que falava que eu era o cara. Ela falou: ordem da turma aqui de cima, dos editores. Eu agora vou bater. Não me conte como uma aliada. Eu falei: tá bom. Vamos embora. E aí tentamos marcar com o pessoal de cima. Esquece. E a Bolsa patrocinando o Valor Econômico, com página do presidente da Bolsa como o Homem do Ano e tal, aquela parada. Eu falei: esquece. E ele falou para mim: Arthur… uma reunião que eu tive com o Edemir na época, que era o presidente. Ele falou: eu tenho aqui um bi de caixa amigo. Eu vou gastar 200 para acabar com você. Eu falei: tá bom. Vamos embora. Eu acho que até um pouco na época de… eu não imaginaria que o cara estivesse falando tão sério assim. Mas eles estavam lá, tocando a vida dos caras. Em paralelo, você teve um movimento político no Brasil que foi complexo. Um dos nossos sócios era fundo de pensão. E você teve um aparelhamento violentíssimo do Estado pelo PT. E o grande cara do PT no primeiro e no segundo mandato da Dilma chama Carlos Gabas. Esse cara, eu creio que de fato vi. Ele fez uma coisa genial Luciano, para o mal. Ele falou: para que eu vou ficar cobrando Ufir de operação? Eu vou tomar conta da polícia. Eu vou fazer uma milícia de esquerda dentro do Brasil. Eu vou ocupar os cargos de controle e fiscalização. Então você tinha uma coisa que chamava Secretaria de Previdência Complementar. Ele foi o cara que transformou numa autarquia chamada Previc. Pegou a turma da Receita Federal, petista. Jogou dentro da Previc. E começou a ir em cima dos investimentos dos fundos de pensão. E quem não fizesse acordo com o cara tinha fiscalização e tinha pancadaria. E ele não estava nem interessado se era do partido ou não. Teve gente do próprio PT que apanhou da Previc. Teve gente que sumiu o dinheiro e nunca deu nada. Quando chegou, a gente tinha investimento de dois fundos de pensão no Brasil. um deles era o Postalis. O que os caras do Postali falam? Espera aí. Eu não sou mau não. Eu tenho um puta investimento aqui, que é a ATG, que é sócia da Bolsa de Nova Iorque. Então, o que o Gabas queria? Primeiro: tirar os caras. Dominar ali. Botar a turma do PT em cima daquele fundo. Como ele não conseguiu, porque a gente estava de anteparo com um bom investimento. O que ele fez? Vou para cima dos caras. Começou a abrir investigação em cima da gente. Encheu a paciência. Mandou um advogado. Mandou um cara. Encontra-se isso no nosso processo abertamente. Mas o Ministério Público nunca se importou com isso. Porque óbvio, mexe com o chefe do cara. Então mandou o cara lá pedir dinheiro: se você não pagar aqui, a gente vai para cima de você. Eu falei: eu não tenho. Nem que eu queira amigo. Eu tenho como sócio a Bolsa de Nova Iorque. Eu não tenho como fazer isso. E os caras começaram então a montar do lado da Previc, uma operação com o Ministério Público. A primeira operação que ele tentou fazer não deu nada. Porque era um procurador honesto. Que investigou a gente. Investigou, investigou e falou: não tem nada aqui.

Luciano Pires: Mas com base em que, essa investigação? Tinha uma denúncia? Tinha uma matéria de jornal? Tinha um tweet?

Arthur Pinheiro Machado: Não. Eles começam a criar. O que acontece? É um mix. Você vê o que acontece hoje no Brasil?

Luciano Pires: Sim.

Arthur Pinheiro Machado: O cara primeiro solta uma notícia de jornal, que o cara pede. Aí a notícia de jornal é…

Luciano Pires: É tweetada…

Arthur Pinheiro Machado: Distorcida.

Luciano Pires: Sim.

Arthur Pinheiro Machado: Com base na notícia de jornal, ele cria um inquérito. Aí ele começa a investigação.

Luciano Pires: Essa investigação se transforma numa nova notícia, que diz que tem alguma coisa errada sendo investigada.

Arthur Pinheiro Machado: Isso. Logo…

Luciano Pires: O investigado já é considerado…

Arthur Pinheiro Machado: Já culpado…

Luciano Pires: Já sujou o cara…

Arthur Pinheiro Machado: E vai te batendo na mídia.

Luciano Pires: Sim.

Arthur Pinheiro Machado: Mas ele vai criando o fato jurídico. O que acontece? A primeira coisa que é criada no Brasil não é a investigação dos fatos. É a narrativa. Então ele precisa dizer para você que há alguma coisa errada. Então ele cria a narrativa. A primeira narrativa – se você for olhar – que foi nossa era dizer o seguinte: que o Postalis tinha um sócio oculto. Que ele era um sócio oculto no negócio da Bolsa. Isso foi feita a primeira matéria pelo Estado de São Paulo. Eu sou procurado pelo Davi.  Freelancer. Eu acho que é freelancer. Eu esqueci o nome dele agora. Eu chamo freelancer. Talvez seja implicância minha. Mas fui procurado pelo Davi. Um dia ele chega e fala assim: eu recebi uma informação aqui que o Postalis é sócio oculto do seu negócio. Eu falei: não é. Não, os diretores são. Eu falei: não. Você está louco. Aí ele chega com uma ata de reunião, dizendo o seguinte: está aqui a ata de reunião. O cara está aqui. Eu falei: amigo olha só… na época tem uma legislação que diz que todos os indicados para o Conselho de Administração têm que ter pelo menos, uma ação. Isso é lei. Ele tem que ter uma ação. Mas é em caráter de empréstimo. Aí ele: deixa eu ver a lei. Mostramos a lei. Deixa eu ver o livro. Mostramos o livro. Ele falou: não tem matéria. Umas quatro semanas depois o meu assessor de imprensa me ligou e falou: o Davi vai lançar a matéria porque mandaram lançar. E aí só mudaram a narrativa. Falaram que como estava num FIP, que é um fundo de investimento em ações, esse FIP, como tinha um cotista, o cotista não estava dizendo quem era. Então era um sócio oculto. Então primeiro se criou a narrativa. E a partir de narrativas de que a empresa tinha um valor futuro, então ela não valia nada. Se criou a narrativa. Aí se buscam fatos para tentar comprovar uma narrativa prévia. Então você não analisa fatos. Você seleciona pedaços, fragmentos.

Luciano Pires: Cherry picking.

Arthur Pinheiro Machado: Foi isso que foi feito.

Luciano Pires: Quando você fala dessa coisa de ser o sócio oculto. Alguém que quisesse descobrir se tinha ou não, teria meios de chegar. Estava claro. Estava publicado.

Arthur Pinheiro Machado: Estava publicado. Postalis você é sócio? Está lá no balanço dele: eu investi tantos milhões no fundo e tal. Mas são narrativas. Até que um dia, de novo, o procurador diz que não tem nada. Fica um tempão. Isso vai rodando. Vai rodando. E aí não ia dar em nada. Eles abrem então um inquérito no Rio de Janeiro, baseado num depoimento de um ex-sócio que a gente tinha; que tinha outros negócios. Aí ele vira e fala assim – ele sim estava enrolado na Lava Jato, ele tinha problemas nas empresas dele – isso aqui tudo na verdade é do Arthur. E isso aqui é pagamento de propina. E é isso aqui. E foi para político. E aí baseado única e exclusivamente na opinião de um e depois de outro delator, que são dois caras. Ele vai lá e faz uma operação gigante e está lá a gente no Jornal Nacional, o cacete a quatro. Vai em cana. Aquela pancadaria, maremoto, etc. Duas empresas quebraram. Pessoas foram mandadas embora. Porque tem bloqueio de caixa e tal. O processo específico da Lava Jato me lembrou muito um livro que você comentou sobre a violação da mente. Se lembra?

Luciano Pires: Sim, sim.

Arthur Pinheiro Machado: Eu vi. Porque você tem as três coisas lá dentro. Você tem isolar o alvo. Você tem a retirada da esperança. E você tem a pressão constante. E aí é o seguinte, o cara vai lá e fala: meu amigo, isso tudo pode acabar com você. Basta você confirmar isso aqui ou envolver outra pessoa. E aí eu disse várias vezes para o procurador. Eu estive com eles no Rio. Eu falei: eu não vou envolver uma pessoa. Não vou dizer. Porque isso não aconteceu. Eu não vou destruir famílias assim. E o cara te ameaça: você vai ficar aqui para sempre. Olha o que está acontecendo em Curitiba. E eu falava: tudo bem. Eu tenho fé em Deus e vou nessa. E fui. E realmente, Deus agiu. O pessoal bota a culpa no Supremo. Mas já na 2ª Instância, com meses, o cara falou: não tem nada a ver. Jogou o processo para Brasília. E hoje ele está suspenso – acredite – sabe por falta de quê? Por falta de prova. Não tem crime. Isso depois de quase três anos de embate…

Luciano Pires: Com você na mídia. Com teu nome para lá e para cá.

Arthur Pinheiro Machado: Isso. Processo midiático.

Luciano Pires: A situação disso hoje é que…

Arthur Pinheiro Machado: Sócio assaltando a gente. Que o outro sócio vê que você está com problema. Mete a mão no teu dinheiro. Não te paga. E assim vai.

Luciano Pires: Então hoje você é um investigado ainda? Ou está tudo suspenso?

Arthur Pinheiro Machado: Não. O que acontece? O Ministério Público no Brasil criou uma forma que eles chamam de mega processos. Então, o que ele faz? Ele primeiro abre um processo. Te mete mil páginas de acusação. Mil. Não dá para ler. É indefensável. E é um processo que acontece assim. Imagina Luciano: você tem um e-mail, que podia mostrar para você, que você está certo. Mas o que eles fazem? Eles não te investigam e te perguntam: você consegue me explicar isso aqui? Não. Ele investiga em segredo. Aí ele faz uma busca e apreensão. No mesmo dia ele te bota no jornal e te bota em cana. O que aconteceu com o seu computador? Foi apreendido. Cadê as provas que você pode mostrar que você é inocente? Estão na Polícia Federal. Você pede; você não tem acesso. Porque estão em análise. Então ele tira o teu meio de defesa. Bloqueia teu dinheiro, cartão de crédito. Você não tem dinheiro para comprar papel higiênico em casa, amigo. E ninguém te empresta, porque você é um investigado. Então o cara faz o processo de Moscou, 1938. Ele faz esse. Aí você fala: acusei o golpe. Foi um trator. Acusei o golpe. O que ele faz? Ele abre outro. Ele abre outro. Ele abre outro. Então ele vai fazendo o que na Itália, em várias jurisdições se fala – que não é regulado ainda no Brasil – são os mega processos. Porque lá o Ministério Público tem a máquina, tem a caneta. Não é o órgão como um todo. Eu entendo que são pessoas que foram capturadas por grupos econômicos. E eles então ficam focados fazendo três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove denúncias. Até que você fala: eu não estou aguentando mais isso. Mas como que para isso? Cada denúncia tem 500 páginas. Então você vai enfrentando. Se você não tiver o mínimo de possibilidade de defesa, você sucumbe a isso.

Luciano Pires: É uma estratégia que a gente tem visto ela sendo usada aí. Porque eu me lembro uma época que o pessoal estava… os partidos eram orientados para que as suas células regionais entrassem com um processo sobre um alvo qualquer em várias regiões.

Arthur Pinheiro Machado: Isso.

Luciano Pires: E aí você era obrigado a ficar viajando Brasil afora só para responder em juízo sobre alguma investigação que estava rolando.

Arthur Pinheiro Machado: Isso aí.

Luciano Pires: Aquilo te quebra.

Arthur Pinheiro Machado: Sim.

Luciano Pires: Aquilo quebra você.

Arthur Pinheiro Machado: Mas é interessante até. Isso quebra. É um custo gigante de advogado. É um custo emocional enorme. Porque cada processo desses, no caso do Direito Penal, gera uma busca e apreensão. Então já entraram na minha casa algumas vezes. A minha filha teve arma apontada na cara, uma menina de oito anos. Até hoje a minha família sofre muito com esse processo. A gente ainda tem traumas, de não conseguir dormir bem. É violento. Então esse é um ponto. Mas o que aconteceu, na verdade? Não foi só o PT. Talvez esse seja o grande ponto. PT com Gabas iniciou o processo.

Luciano Pires: O Gabas que você está falando é o mesmo do Consórcio Nordeste, dos respiradores? E que está metido em outra…

Arthur Pinheiro Machado: Ele mesmo. Os caras…

Luciano Pires: Tem as costas quentes. Inacreditável.

Arthur Pinheiro Machado: E você vê que o Ministério Público não mexe nele.

Luciano Pires: Não.

Arthur Pinheiro Machado: Ele aparelhou. Eu não vou dizer a instituição como um todo. Porque seria leviano. Entendo até que tem bons procuradores sim. Mas ele aparelhou o Ministério Público no Brasil. E esse é o problema do PT. Se as pessoas pensam na questão da corrupção, isso é uma ponta no iceberg. O problema é o nível de aparelhamento que se fez dentro das instituições a ponto de você acreditar que o Estado está realmente trabalhando para o Brasil e não trabalhando para um partido. Então nesse caso, o que você vê? Você vê um aparelhamento ali do PT. Mas a gente conseguiu segurar na justiça, antes da operação. O ponto que eu digo que foi o grande pacto nazi-soviético na minha vida, de falar assim: eu não sei por que isso aconteceu. Eu acho que um dia Deus vai me explicar. Mas que foi o pacto nazi-soviético. Porque você tinha o PT aqui. Aí Dilma caiu. Aí quando a Dilma caiu, eu falei: esses caras vão embora. Graças ao bom Deus. Mas o que vem do outro lado? Aí vem o Temer. O Temer pega o Meirelles. Ministro. O Meirelles consolida no Brasil um grande czarismo. Ele pega tudo que é cheiro de economia e bota debaixo dele. Pega a Previc, que estava no Ministério da Previdência. Acaba. Faz uma reforma. Bota tudo debaixo dele. O ministro da Economia hoje é um grande czar. Manda mais que o presidente da República. Ele tem a Economia do Brasil na mão. Mas não é só a Economia. São as empresas, o setor financeiro, são as autarquias, são as áreas de controle, são as áreas legislativas. Ele tem um poder exacerbado. E aí ele traz como secretário executivo da Fazenda o ex-diretor financeiro da B3, da Bolsa, que é o Eduardo Guardia. Bota o cara lá, secretário executivo da Fazenda.

Luciano Pires: O cara que você devia ter incomodado…

Arthur Pinheiro Machado: Eu quebrei o monopólio. Inclusive ele tentou dentro do Cade atuar para acalmar o processo. Porque ainda por cima, eles tinham uma briga histórica ainda no Brasil, que o Cade, ele é metade do Ministério da Justiça e metade da Economia. Só que o Ministério da Justiça ainda tem a maioria dos cargos. E ele tentou mudar isso de todas as maneiras. Porque ele viu a importância do Cade para fazer política antitruste no Brasil. Quando ele assume ali, ele vira executivo, aí que a temperatura aumenta. Por quê? Ao contrário do que a gente pensa. Esse é o verdadeiro teatro das tesouras na prática. O Guardia não tirou os petistas do governo. Essa é uma mentira. Os caras estão lá até agora. Até o Bolsonaro sofreu para tirar os caras. Os caras se agarram daquele jeito ali com umas garras que você não tira o cara dali entendeu? E ele aparelhou a Previc. E se você for tentar mexer o cara usa a ideia da técnica, usa a imprensa ou cria um processo com o Ministério Público. O Guedes sofreu isso, quase uma busca e apreensão do Ministério Público, com fundos de pensão. Porque tentou mexer naquele vespeiro. O cara falou: se você mexer aqui, amigo, eu vou botar em você. E tentou. E tem uma confusão de um processo aí, que ele está envolvido, por causa da origem claramente política, de gente do PT que está agarrada ali. Só que quando o Guardia vira secretário executivo da Fazenda, ele começa a usar os petistas como aliados. Ele falou: a gente não gosta do cara desde a época do Gabas. E o PSDB, do outro lado falou: eu não gosto do Arthur desde a época da Bolsa. É o meu pacto nazi-soviético. Mas eu fui ainda assim brigando com esses caras, com esse sistema, de um jeito… é brigar com os Estados Unidos com um canivete. Mas a gente estava ganhando. Esse é o problema. É que nem o Vietnã. O cara achou que ia destruir a gente. A gente estava ganhando. Aí vem o tiro fatal. Essa operação que começa como um todo, que foi a Operação Rizoma, ela só acontece depois… estava sendo investigado lá. Não tinha fato comprobatório. Não tinha nada. Mas existiu a fagulha política. Qual foi ela? Quando o Meirelles sai para ser candidato a presidente da República, em 2018, o Guardia assume e vira Ministro da Fazenda ou da Economia, atual. Aí amigo, o cara tem a caneta, tem a equipe, tem tudo. Aí o cara estoura a operação. E a forma como o sistema do teatro das tesouras operou mesmo. É o PT aliado ao PSDB com interesses comuns. Usando órgãos reguladores, com poder de polícia contra o indivíduo. E aí você a fragilidade do sistema jurídico brasileiro. Você fala assim: não tem o que me proteja irmão. A grande realidade é a seguinte – minha visão hoje – as autarquias brasileiras são capturadas. Parte dos órgãos acusadores do Ministério Público é capturado. 2ª Instância, aí você começa a ter um ar. 2ª, 3ª e 4ª Instância do judiciário. Você ainda tem a tentativa de ter algum direito. Mas é pancada. Porque nem todos. Existem correntes de pensamento. Existem hoje juízes que estão ideologicamente enviesados. Então você não tem o direito de defesa no Brasil.

Luciano Pires: Nós voltamos para o começo da nossa conversa aqui. A gente voltou para aquele clubinho. Se você não estiver no clubinho. Não vai. Não tem por onde ir.

Arthur Pinheiro Machado: Não tem.

Luciano Pires: E na situação que está hoje aí, você está questionando: até onde eu podia chegar?

Arthur Pinheiro Machado: No STF.

Luciano Pires: Lá a justiça será feita?

Arthur Pinheiro Machado: Sim.

Luciano Pires: E nós estamos questionando isso agora. Não sendo feita lá, eu corro para onde?

Arthur Pinheiro Machado: Eu acho que parte do judiciário no início… você tem assim, você tem uma divisão clara do judiciário. Teve gente que falou assim: a gente não é político. Não tem que se meter nisso. A gente tem que ter o Direito puro e simples. E olhar as coisas como são. Mas teve um movimento de massa. Eu acho que o grande problema é assim Luciano. Por que parte do judiciário cedeu a certos movimentos como o lava jatismo? E por que parte enfrentou? Não entendo que foi por causa da corrupção ou da manutenção do sistema. Essa desculpa é pequena. Eu separo esse evento em dois. Primeiro: o judiciário se assustou no Brasil com uma polarização que hoje dizem que é política. Mas ela não é política. Polarização política sempre teve. Teve no Rio de Janeiro Brizola, Moreira Franco. Aqui em São Paulo, Maluf…

Luciano Pires: De certa forma, ela é até necessária. Ela é produtiva. Ela cria… vamos explicar o Brasil. Você pega o futebol. Você quer coisa mais polarizada do que futebol? Eu costumo dizer: o Corinthians só é o que é, porque tem o Palmeiras. Se eliminar o Palmeiras, o Corinthians fica pobre. Ele empobrece. Então, polarização em si não é ruim.

Arthur Pinheiro Machado: Não é.

Luciano Pires: O fato de ela existir está aí. Faz parte do processo.

Arthur Pinheiro Machado: Sempre teve. Não é essa polarização que assustou a política e o judiciário no Brasil. Foi uma polarização diferente, que foi a polarização mundial que se deu entre povo que não reconhece mais as instituições. A grande briga que você viu no Trump. A grande briga que você viu no Brasil. É de uma parte da população que não se vê representada pelo Estado. E está contra o Estado. E esse movimento que assusta o cara. Porque você fala: isso é uma revolução francesa. Os caras brigarem aí embaixo se é PT, PSDB? Se é Bolsonaro, se é Lula? Para o cara não está nem aí. Mas quando você tem um movimento de povo dizendo: o establishment ou as instituições não são mais representativas do meu dia a dia. E, portanto, você perdeu aquela confiança prévia, que é necessária à instituição, aí ela…

Luciano Pires: Aí você elege um cara fora do clubinho.

Arthur Pinheiro Machado: Elegeu um cara fora do clubinho.

Luciano Pires: Lá nos Estados Unidos e outro aqui.

Arthur Pinheiro Machado: É. Aí o clubinho se assustou. Aí tem uma divisão. Aí uns juízes falam assim: vamos entregar a cabeça de uns caras aqui. Não importa se esse cara é inocente, se esse cara é culpado. Porque eu tenho que preservar o sistema. Alguns cederam. E botaram a bandeira da corrupção. Não. A gente precisa limpar o Brasil e tal. E simplesmente pegaram a Constituição brasileira e rasgaram em termos de defesa. Erro nosso da direita: nós aplaudimos isso. O fim do direito de defesa. E hoje nós enfrentamos isso. Ecos desse movimento. E a gente fala: e o devido processo legal? O devido processo legal, que muitas vezes nós dissemos: não cumpra-se. O importante é eliminar o inimigo. Isso hoje é utilizado contra a gente. E é onde muitos se amparam. Então, a importância de você ter uma Constituição que seja respeitada é para isso. É para você cara, na hora que você está batendo ter regra. E na hora que você está apanhando ter regra também.

Luciano Pires: Sim. Claro.

Arthur Pinheiro Machado: Mas o problema para mim foi esse. Alguns juízes se assustaram e falaram assim: entrega a cabeça de quem for. Só que o cara viu o seguinte: o cara não está preocupado com quantidade de ovelha que eu vou entregar no sacrifício. Eles querem um pastor. Então se eu entregar 100, ele vou dizer: me dá mais 100. Me dá mais 100. Aí vai falar: vamos cancelar a morte das ovelhas. E é um problema. Porque uma parte desse judiciário… e eu disse no início, que é um movimento multidimensional. Não separou o joio do trigo. Eu comecei a ter o meu processo vitorioso quatro meses depois do negócio. Há quatro anos e meio atrás. E outros não. Mas aí começou a ter: anula tudo. Então você tem um problema grave de entender realmente o que é o joio do trigo. O que é cada caso. Aí virou tudo um rótulo. Um grande pacote. Mas parte do judiciário se assustou. E parte do judiciário virou e falou assim: não. A gente não é político. A gente está aqui para preservar certos direitos. A gente está olhando para um país. E eu preciso de fundamentos jurídicos que sejam atemporais. O devido processo legal é um deles. O direito à defesa é um deles. Então eu entendo que foi uma própria divisão ideológica, que ainda está mal resolvida no Brasil. Há uma desordem legal ainda. Dependendo do juiz, dependendo da… e eu não estou falando do Supremo não. O Supremo paga essa conta. Mas eu estou falando aqui. Se você cair no TRF 1 é uma coisa, no TREF 2 é outra, no TRF 4 é outra. Se você cair na Vara tal, do juiz tal é uma coisa. Na Vara do outro. Então a instabilidade jurídica é da 1ª Instância. Então você tem juízes que deveriam ser de fato, vocacionados. É muito importante. Mas você tem em paralelo também, uma preocupação, um problema nosso, que é a captura de certos órgãos de Estado, por grupos econômicos do clubinho. Então, o clubinho ainda manda no Brasil. Ele manda em alguns lugares do Ministério Público. Ele manda em autarquias.

Luciano Pires: Ele manda no Ministério da Saúde, da Educação. Eu já conversei com várias pessoas aqui no LíderCast que mostraram. Você entra numa estrutura dessas, cheio de vontade de mudar. Você tromba numa parede lá. E se você piscar, o trem te atropela. Ele te expele. Você falou lá no começo: ninguém quer inovação. Os caras não querem inovar coisa nenhuma. Eles querem proteger a máquina do jeito que ela está lá. Ela está inchada? Que continue inchada. Ela é ineficiente? Que continue assim. Porque tem um monte de gente ganhando com isso.

Arthur Pinheiro Machado: É. O mercado brasileiro é um mercado rentista. Ele não produz. Ele é rentista. Ele tem uma série de instituições que são extrativistas. Só retiram. O Ministério Público em parte, ele é extrativista. Ele não está preocupado em proteger a ideia de direito difuso. Nada cara. Quando você tem na pandemia o fique em casa. O cara falou: eu vou fechar a cidade. Então ele não está preocupado com você. Ele está preocupado com ele como instituição. Os órgãos de Estado hoje estão preocupados com a sua própria manutenção. Não estão preocupados com o individuo. Quem defendeu a nossa liberdade de ir e vir e de expressão? Ninguém. Aquela ideia que tem alguém que te defenda, amigo. Foi meio que cada um por si.

Luciano Pires: E isso é muito estranho. Porque você acabou de falar aí. Tem uma parte do judiciário que se amedrontou e foi entregar cabeças. A outra parte falou: nós não somos políticos. Essa parte que falou: nós não somos políticos. A gente quer a coisa do jeito que ela tem que ser. Ela se cala. Ela não fala. Você não tem uma voz ali, que aparece em público e vai dizer: para com essa merda, que está tudo errado. Aliás, não há nenhum nome que eu me lembre. Você volta um tempo atrás e começa uma bagunça como essa que está tendo no Brasil. Ia levantar um Ulysses Guimarães e ia falar: vem cá. Eu não estou nem julgando o Ulysses Guimarães. Eu estou pegando um nome, o peso do nome. Ia levantar um Tancredo Neves e ia falar: vem cá, que vergonha é essa? Pode parar. Um Mário Covas, para chegar mais perto: para. Vamos parar com esse negócio aí. Para com essa bagunça. Não tem mais um nome assim. E aquele que aparece e tenta falar é destruído imediatamente. A gente viu o que aconteceu com reputações, em todos os níveis: técnico, médico. Um cara com 50 anos, com diploma no mundo inteiro. Youtuber metendo a boca em Prêmio Nobel. Então vira uma bagunça generalizada em nome de atender uma narrativa.

Arthur Pinheiro Machado: Mas aí tem um ponto que eu acho que é muito importante Luciano, que é o seguinte: o que estava nascendo naquela época, que hoje está maduro? De fato, é o globalismo. Você tem empresas hoje que tomam o lugar do Estado. Então, o que acontece? Você não tem um Ulysses Guimarães, porque o Estado foi capturado, até os políticos. E aí tem outro fenômeno também, que assusta. Antigamente, o cara falava: calma, porque a briga era na base de baixo. Não era briga entre povo e instituições. As pessoas acreditavam nas instituições. Hoje elas foram capturadas por esse globalismo. Então ele olha e fala assim: o povo não manda mais nas instituições. Você não sente representatividade. Então os clubinhos dominaram. Então o cara olha e fala assim: qual é o nível de estabilidade que se tem hoje, que o judiciário ainda vê a política? É porque ninguém está conseguindo ainda apaziguar essa tensão que existe entre o povo contra as instituições que existem, dominadas pelos clubes. Agora, o clube hoje ainda manda? Manda. Manda na imprensa? Manda. Eu tive várias vitórias. Eu tive momentos de profunda tristeza, de desespero. Eu chorei muito. É muito difícil você ser falsamente acusado. É muito difícil você ver tua reputação sendo jogada no lixo, quando você quer mudar o país. Você é empreendedor. A minha mulher falava: se você tivesse nascido nos Estados Unidos e tivesse feito nos Estados Unidos. Você era bilionário. Aqui não é isso. Mas o que é difícil nessa história, ainda por cima, do domínio das empresas é porque mesmo com as suas vitórias, não importa. Como é feita a censura hoje? Você não é proibido de falar. Você só não é escutado.          Então o algoritmo não te distribui. A imprensa deixa você falar. Mas ela não te dá repercussão. Você ganha. O cara bota: o cara ganhou ali. Mas foi o juiz que abriu mão do processo. Não é verdade. Você ganhou.

Luciano Pires: E tem outra coisa que eu diria que é a mais insidiosa de todas, que não tem um general fardado apontando o dedo para você e dizendo: é você. São seus pares. É teu vizinho. É teu primo. É teu colega. É o cara que está entrando na tua rede social. Essa é a turma que está te perseguindo hoje em dia. É uma censura na base da sociedade.

Arthur Pinheiro Machado: É lateral. Mas influenciada pelo quê? Por uma psicologia de massa. Pelo globalismo. Pelo clubinho. O cara acredita na Bolsa. O cara acredita na narrativa do Globo. Eu até acho engraçado. Tinha um amigo meu, que falava da sua vida, dizendo o seguinte: Arthur, eu não acredito na imprensa. Eu não acredito na Globo. Aí quando saiu o meu negócio o cara falou: mas saiu na Globo. Ou você acredita ou você não acredita.

Luciano Pires: Você olha essa loucura toda. Você olha essa bagunça, esse ambiente extremamente complexo. Em vez de se recolher e viver tua vida lá nas Ilhas Seychelles, no seu iate. Você decide que vai entrar aí dentro para arrumar encrenca. Você decide sair candidato a deputado estadual.

Arthur Pinheiro Machado: Federal.

Luciano Pires: Desculpa. Federal.

Arthur Pinheiro Machado: Pior ainda.

Luciano Pires: Pior ainda. Porque meu Deus. O que é isso? Isso é um chamado? O que é? É uma tentativa de você ir lá ajudar a alterar essa situação? Você vai entrar no ofidiário. Se você for um coelho você já era. Você vai morrer na hora que te jogarem lá. Se você for rato, coelho. Você vai morrer. Porque é um ofidiário. Só tem um jeito de sair vivo de lá, que é ser cobra. Não te assusta esse ambiente? Essa rinha que você vai entrar?

Arthur Pinheiro Machado: Não me assusta. Pelo contrário. Me empolga. A minha mulher me acha completamente louco. Ela fala: isso é uma loucura. Você não viu que brigar com a Bolsa, com o clube não é legal? E não é. Realmente não é. E acho até, acredito que muitos dos nossos pares da direita, deputados, eles nunca brigaram de verdade não por falta de boa vontade. É porque eles não conhecem o sistema. Então ele fica ali no Youtube. Ele fica tentando achar briga. Mas ele está socando no ar vazio. Brigando no vazio. Mas o que eu vejo é o seguinte: quando eu comecei a minha carreira no mercado financeiro, teve um momento que eu disse: eu podia me conformar com aquele estilo de coisas. E ser o cara Faria Lima, de pulôver, patinete e estaria bem lá. E ali e até de onde eu vim, que foi de uma classe média baixa. O meu pai era funcionário público. Eu falei: não. Eu realmente quero. E isso não é papo de político. Não é para fazer… eu olho para trás e eu digo o seguinte: o meu caminho não foi fácil. Não é para dar uma de PT. Nem de: ah, vida difícil. Não. Muita gente tem uma vida muito difícil. Mas eu olho e falo assim: não foi fácil. Tive que me virar. Tive que estudar. O meu pai morreu cedo. Eu tinha 21 anos. Eu olho para o caminho que eu andei Luciano e gera uma trilha. Não era uma estrada. Hoje a trilha está fechada. Eu olho para o Arthur lá de trás, do Rio de Janeiro que ia para o Impacto, estudar na Tijuca para turminha de Escola Naval, de buzum. Pegando o 413 Usina e tal. Eu olhava aquilo e falava: qual é a real desse garoto hoje? Será que eu teria alguma chance? Zero. Porque os meios de ação são dominados. Eu vejo isso por um conhecimento que eu tive. Eu devo muito à Filosofia. Eu devo ao Olavo, o cara que falava: meu filho, você não tem os meios de ação na mão. Os meios de ação estão dominados. E estão mesmo. Aí eu olho hoje e falo: o que eu vou fazer na minha vida? Eu vou ser um egoísta. Eu vou dizer: tá bom. Eu vou pegar o resto que me deu de grana aqui. Vou ganhar na justiça. Vou ficar quietinho, no 5º Elemento, falando sobre Filosofia e alertando as pessoas. Ou vou deixar o Brasil na mão dessa turma? E eu sei o que os caras fizeram para mim. Eu vou dizer Luciano com muita franqueza. Não é só uma questão de ser apaixonado pelo Brasil. Nada disso. Eu também sou apaixonado pelo Brasil. Eu também sou apaixonado por São Paulo. Eu amo essa cidade. Não é só isso. Esses caras me fizeram muito mal. Eu sei o que eles podem fazer. Eles fizeram mal mesmo. E aí eu vou dizer para eles: eu vou encarar. Mas ao me fazer mal, eles me prepararam. Eu sei enfrentar os caras. Eu consegui ganhar deles vitórias importantes. Muitas pessoas me deram como morto. Muitas pessoas ainda falam: o cara da Lava Jato. Mas depois vão investigar e falam: que legal o que você fez. Têm muitas pessoas que ainda falam: o colégio quebrou. Não fui eu que quebrei o colégio que eu tinha. Eu tinha 12 mil alunos. Ele foi quebrado pelo Estado brasileiro, que não assume a sua responsabilidade. E eu digo o seguinte: se eu puder. Eu não sei qual é a minha missão. Eu não sei o que Deus quer para mim. Eu sou cristão. Eu sou evangélico. Então eu digo: Deus tem o propósito na vida de alguém. Eu não sei qual é o meu. Mas eu peço orientação todo dia a Deus, para que ele me encaminhe. E aquilo que Ele quiser que eu faça, eu farei. Como já fui missionário. Como já evangelizei. Mas eu digo o seguinte: hoje o que me dá vontade, aquela testosterona vibrante é enfrentar esses caras de novo no sistema. É dizer: o Estado brasileiro não vai fazer mais isso com alguém. Você ter uma puta ideia. Você trabalhar pra caramba. Você construir um negócio que ninguém fez. Que vale muito. E o cara usar o Estado. Te botar de ladrão. E passar a mão na tua grana. Isso quem fez foi o Estado brasileiro. Não foi o Marcola. O Estado e os monopólios ligados ao Estado cometem crimes muito piores do que a gente vê no PCC.

Luciano Pires: Até porque, o Marcola tem coração.

Arthur Pinheiro Machado: Pelo menos, ele tem algum senso de justiça.

Luciano Pires: Ele tem coração. Ele transpira. Ele deve sentir o baque. E esse organismo gigantesco não tem nada disso. Ele não tem nada. Ele é uma máquina.

Arthur Pinheiro Machado: Então a minha vontade é enfrentar esses caras.

Luciano Pires: A tua proposta é que a gente coloque uma fuinha dentro do ofidiário?

Arthur Pinheiro Machado: Isso mesmo.

Luciano Pires: Esse caça a cobra.

Arthur Pinheiro Machado: Isso aí.

Luciano Pires: É isso aí?

Arthur Pinheiro Machado: Se eu pudesse definir eu falava o seguinte: eu quero ser o vírus do sistema. Eu prefiro fuinha.

Luciano Pires: Uma fuinha dentro do ofidiário.

Arthur Pinheiro Machado: Uma fuinha dentro do ofidiário.

Luciano Pires: Que loucura. Que história. Eu fiquei quieto aqui. Normalmente eu falo bastante no programa. Mas hoje eu fiquei quieto. Porque é uma história muito… eu não fazia ideia. Eu não tinha a menor ideia. Nem sabia direito do que se tratava. O que me estimulou a falar com você foi aquele post que aconteceu ali. Logo veio alguém que realmente não conhece a história, que botou alguma notícia de jornal na época lá.

Arthur Pinheiro Machado: Isso é comum. Sempre tem um cara que puxa a imprensa de 2017 e não quer saber o resto.

Luciano Pires: Sim. E que é complicado. Porque toda a história… a gente conhece mil histórias assim. Depois que levanta a lebre e bota um rótulo em você. Você não apaga mais. Isso é tatuagem. Para tirar? É impossível tirar. Você tem uma tatuagem aí que… é lamentável. Mas os caras prepararam a fuinha. Então que se cuidem.

Arthur Pinheiro Machado: Isso aí. Vamos lá.

Luciano Pires: Arthur, a gente encontra você no 5º Elemento.

Arthur Pinheiro Machado: Isso aí.

Luciano Pires: Tem algum outro lugar? Uma rede social?

Arthur Pinheiro Machado: Tem o Instagram @arthur1050sp. Porque é meu número.

Luciano Pires: É tudo junto? @arthur1050sp. Vamos ver. Eu não sei o que vai acontecer. Eu nem sei se esse programa pode ir ao ar antes da eleição ainda. Eu vou agora averiguar. Se puder nós vamos mandar bala aqui. Baita história. Obrigado pelo papo aqui.

Arthur Pinheiro Machado: Obrigado a você pela oportunidade.

Luciano Pires: Imagina. Eu acho que tem muito para fazer aí. Tem muito que acontecer. Continue. Esse embasamento filosófico teu vai dar trabalho para muita gente.

Arthur Pinheiro Machado: Tomara. Que eles sofram.

Luciano Pires: Grande abraço.

Arthur Pinheiro Machado: Brigadão. Um abraço.

Luciano Pires: Muito bem. Termina aqui mais um LíderCast. A transcrição deste programa você encontra no lidercast.com.br.

Locutor: Você ouviu LíderCast com Luciano Pires. Mais uma isca intelectual do Café Brasil. Acompanhe os programas pelo portalcafebrasil.com.br.