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A criatividade é a manifestação do divino no ser humano

Henrique Szklo - Iscas Criativas -

A trajetória da nossa espécie desde que se desconectou do resto do reino animal só pode ser classificada como extraordinária. Tudo graças à capacidade admirável desenvolvida durante milênios de observar o ambiente, antecipar necessidades e solucionar problemas complexos.

Basta comparar como era a vida há 5/10 mil anos com a que vivemos hoje para concluir que devemos estar mesmo muito orgulhosos de nós mesmos. Podemos também comparar nosso modo de vida com o de nossos parentes irracionais para evidenciar o abismo que se criou entre nós. Quando eventualmente tivermos desaparecido, fenômeno comum à maioria das espécies, arqueólogos extraterrestres certamente se encantarão com nossa engenhosidade e imaginação.

Crio, logo existo

Mas nada disso aconteceu ao acaso. Existe um componente que exerce um papel determinante nesse processo evolutivo formidável: a criatividade. E enquanto continuarmos a existir, pode ter certeza que será ela a principal ferramenta que nos manterá a salvo da extinção.

A criatividade está em todas as manifestações que de alguma maneira trouxeram conforto e beleza às nossas vidas: artes, arquitetura, tecnologia, saúde, filosofia, gastronomia, ciência, humor, moda, enfim, são infinitos os exemplos de nossa capacidade criativa. Somos tão engenhosos que criamos até a solução para tudo aquilo que não conseguimos explicar: as religiões e seus deuses. Que bichinho danado é o ser humano.

Porém, se observarmos individualmente o homo Sapiens pelo aspecto moral, aí a história dá um salto triplo carpado nos mergulhando em amarga decepção. E o orgulho se esvai. O indivíduo homem é um poço sem fundo de defeitos, fraquezas, capaz das maiores iniquidades.

É bom deixar claro que os acontecimentos lamentáveis não são monopólio dos indivíduos. Quando falo de orgulho, me refiro à nossa espécie, já que ao longo de nossa história, incontáveis grupos sociais carregam pesadas manchas em seus currículos.

Os homens são todos iguais

Não estou dizendo que os indivíduos não tenham qualidades, mas ainda estamos muito longe de honrarmos o conceito de civilização. Não se engane: não estamos assim tão distantes de nosso passado animalesco. O ser humano não é evoluído, mas envernizado. Se pensarmos nos 10 mandamentos, por exemplo, criados há mais de cinco mil anos, veremos que o que ali se tentava controlar no espírito humano, mantem-se incontrolável até os dias de hoje.

Os 7 pecados capitais, criados na idade média, nada mais são do que um catálogo de atributos universais da condição humana, que também se mantém firme e forte até hoje. Sem contar o egoísmo, que pra mim é o oitavo, a fome de poder, o nono e a hipocrisia, o décimo. Peraí: tem também a ambição excessiva, o oportunismo, o engano, o ciúme, a arrogância, os vícios, a a desonestidade, covardia, o racismo e preconceitos em geral… bem, acho melhor não continuar senão ficaremos todos deprimidos. Mas acho que já deu para pegar o espírito geral, não?

O verniz é a condição básica para que possamos viver em um ambiente de civilidade e pretensa harmonia. Pode ter certeza de que se amanhã ocorrer uma crise em que as instituições se evaporem, em pouquíssimo tempo abraçaremos a barbárie. Animais que ainda somos, colocaremos em primeiríssimo lugar a nossa sobrevivência e a dos nossos, ignorando por completo a dignidade, a integridade e até mesmo a vida alheia. Nos libertaremos das amarras impostas pela sociedade e faremos tudo aquilo que  nosso lado negro deseja fazer. É a necessidade de viver em grupo que faz com que nos comportemos de forma diferente daquela que nossa alma selvagem tanto gostaria.

E agora, quem irá nos defender?

Para mitigar nossa culpa por sermos tão imperfeitos, desenvolvemos o mecanismo canhestro de criar heróis, elegendo aqueles que realizam grandes feitos. Uma gambiarra emocional que só serve para alimentar o autoengano, até porque nem o Superhomem sobreviveria a um escrutínio detalhado de sua vida privada. Eu, pessoalmente, não confio em quem usa a cueca em cima da calça.

Insistimos em um erro básico que é medir a qualidade de um ser humano por seu trabalho, por suas ideias. Ser criativo e ser uma boa pessoa não têm nada a ver uma coisa com a outra. Um canalha pode perfeitamente criar algo que transforme a vida das pessoas para melhor. Até porque, o que importa não é a intenção, só o resultado prático. O canalha passa, mas a ideia fica. A criatividade transcende o criativo.

Pode ter certeza de que se amanhã ocorrer uma crise em que as instituições se evaporem, em pouquíssimo tempo abraçaremos a barbárie.

De perto ninguém é normal

Quer alguns exemplos? Um dos maiores e mais festejados humoristas estadunidenses, Bill Cosby, revelou-se um estuprador em série. Richard Wagner supostamente era nazista, Lewis Carroll e Chaplin foram acusados de pedofilia, Picasso era misógino, Disney era X-9 e Steve Jobs era um carrasco intratável. A genial banda de rock Led Zeppelin era especialista em plágio, dos mais descarados que se possa imaginar. Basta conhecer um pouco os bastidores de Hollywood, desde os primórdios, para saber que os mais baixos, degenerados e pervertidos instintos humanos foram, em certa medida, o motor dessa indústria de sonhos e fantasia. Todo mundo guarda esqueletos no armário. Quem inventou o armário, portanto, deve sentir-se envergonhado em sua cova.

Não ver para não crer

Muitas vezes, mesmo conhecendo a sujeira, ninguém dá a mínima para as perversidades por detrás de ideias auspiciosas, principalmente aquelas que nos agradem particularmente. Empresas que criam calçados inovadores, vestuário moderno e produtos tecnológicos exploram a mão-de-obra de trabalhadores de países pobres de maneira covarde e indecente. Eu posso deixar de ver um filme, ler um livro, admirar um comediante, mas aquela calça maravilhosa tem que estar no meu closet. Meu celular tem 237 câmeras, mas nenhuma está apontada para quem o fabricou. Qual o preço, então, para se ter acesso às maravilhas da sociedade moderna? Celebrar a falta de empatia, talvez? As ideias são incríveis, mas sua história, nem sempre. O homem demonstra não ser grande coisa também como consumidor de produtos criativos.

Criatividade não sabe o que é maniqueísmo

Mas a criatividade é universal. É democrática, também no mal sentido da palavra. O homem tem se mostrado pródigo em criar coisas detestáveis, como instrumentos de tortura, venenos para guerra química, armamentos em geral. Mas se formos avaliar de maneira fria, apenas observando essas ideias como solução de problemas, a engenhosidade é inequívoca. Parabéns aos envolvidos. Acredito que alguns dos criadores da bomba atômica, por exemplo, nem eram más pessoas. Estavam tão preocupados em descobrir novas fronteiras tecnológicas que acabaram por bloquear qualquer contato com a consciência em razão da óbvia obscenidade de sua criação. Não importa se por idealismo ou se por puro ego.

Qual o preço, então, para se ter acesso às maravilhas da sociedade moderna? Celebrar a falta de empatia, talvez?

Por outro lado, graças ao estudo da mãe de todas as bombas, podemos usufruir de invenções que auxiliam nossa vida cotidiana. Uma delas é o teflon, por exemplo, que foi resultado dessa pesquisa. É claro que milhares de japoneses morreram sob seu cogumelo, mas em compensação, hoje podemos fritar um ovo sem que ele grude na frigideira.

E tem mais essa pra gente engolir: as guerras são, inequivocamente, as maiores aceleradoras de inovação de nossa história. Graças a elas, temos hoje o leite condensado, margarina, forno de micro-ondas, chocolate M&Ms, computador, internet, nylon, caneta esferográfica, aerossol, saquinho de chá, zíper, absorvente e muito, muito mais. Sem contar a evolução da saúde, finanças e logística.

(…) as guerras são, inequivocamente, as maiores aceleradoras de inovação de nossa história

Será então que nossos defeitos são o necessário combustível para a criatividade? Que para sermos criativos precisamos ser imperfeitos? Que a imperfeição, portanto, é nossa maior qualidade? Talvez, talvez, talvez.

O que salva a humanidade da danação eterna é a nossa criatividade

O certo é que a criatividade que nos transformou de animais irracionais em animais inventores. É uma forma de expressão humana que transcende a qualidade de indivíduos e grupos. A criatividade é a manifestação do divino no ser humano. Tanto que a maior virtude de Deus foi ter sido “o Criador”. Seu gesto mais representativo foi ter criado tudo o que existe. E isso não é pouco. Você pode não acreditar em Deus, mas não há como não acreditar na criatividade. Por isso, quando eu tenho um problema difícil de resolver, rezo para São Magaiver.

 

Artigo postado originalmente no meu blog em maio de 2020

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