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A cultura do “estrupo”

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Luciano Pires -

“Estrupo”… Quando eu era garoto esse tema era tão tabu que as pessoas nem mesmo conseguiam falar de forma correta: estupro. Mas esse termo nem era muito utilizado. A turma falava coisas como “a pessoa foi currada”, o que para mim transmitia ainda mais violência que aquela palavra que enrolava a língua e que volta às manchetes, na esteira do acontecimento no Rio de Janeiro. Se você chegou agora de Plutão, eu lembro: explodiu nas mídias sociais e depois na imprensa a notícia de que uma garota de 16 anos de idade foi estuprada por 33 homens no Rio de Janeiro.

Bem, a história ainda precisa ser melhor apurada, mas as mídias sociais já deram o veredito: no Brasil temos uma cultura do estupro! O que quer dizer que de alguma forma aceitamos, convivemos e até encorajamos a violência contra a mulher. Por parte dos homens.

Fui ao Google e fiz uma busca simples. Na primeira página encontrei as histórias a seguir, que não escolhi, simplesmente copiei e colei aqui:

Rio Claro, agosto de 2010. A polícia salva Alexandre Tertuliano e outro homem acusados de envolvimento em abuso sexual de um bebê, de linchamento por populares. A mãe da criança, também acusada pelos agressores, havia sido espancada pouco antes. Alexandre morreu em razão dos ferimentos.

Sobral, maio de 2013. Francisco Sampaio é agredido por vizinhos, acusado de tentativa de estupro de uma menor. Levado para o hospital, morre em razão dos ferimentos.

Criciúma, fevereiro de 2014. Um homem de 29 anos foi linchado por pelo menos cinco agressores após ofender uma menina de dez anos e convidá-la para a prática sexual

Navegantes, dezembro de 2014. Alcebiades Candeias, 63 anos, morreu a pauladas e pedradas, linchado por populares, suspeito de abusar de crianças na região

São Paulo, setembro de 2015. Uma estudante de 18 anos estava indo para a faculdade quando, perto do Tatuapé, um funcionário da CPTM, de 54 anos, começou a se esfregar nela e ejaculou em sua roupa. O trem estava lotado e a jovem gritou: “Socorro. Apertem o botão de segurança, olhem o que ele fez em mim”. Outras passageiras a ajudaram a se afastar do acusado enquanto homens que estavam no vagão começaram a xingar e a bater no suspeito

Votorantim, fevereiro de 2016. O pedreiro Geraldo Oliveira, suspeito de estuprar um garoto de 8 anos, é capturado e linchado por populares. Só não morreu pois a polícia apareceu

Florianópolis, abril de 2016. Um homem que se masturbava na janela de casa enquanto olhava crianças que passavam na rua é agredido por populares, que o jogam desacordado na frente de um hospital.

Cenas como essas acontecem todo dia, em todo país. A população, quando descobre um estuprador real ou potencial, parte para cima e, se a polícia não chegar, lincha. Se existe alguma cultura relacionada ao estupro no Brasil, é a cultura de linchar os estupradores.

Quando começa essa conversa de “cultura do estupro”, mais uma vez busca-se tirar a culpa do indivíduo e colocá-la em entidades inimputáveis, no caso, na sociedade, nas leis, na televisão, nos filmes, na propaganda… Ou nas famílias. E assim, dissipam-se as responsabilidades e logo virão os especialistas para dizer que não podemos tomar decisões no calor da emoção e que a culpa não é do estuprador, mas minha. E ao mesmo tempo, em nome de uma certa diversidade, artistas que compõem músicas que transformam as mulheres em objetos de consumo, são exibidos como heróis da resistência nas mesmas mídias que me acusam de ter a cultura do estupro.

Essa é a cultura da hipocrisia. E da impunidade. Essa é a cultura da dissonância cognitiva que expliquei aqui: http://bit.ly/1Z66A57

O caso do Rio de Janeiro diz respeito à falta de civilidade, da harmonia das relações humanas entre cidadãos a partir de códigos de ética e de regras de conduta e de respeito mútuo. Os envolvidos não são simplesmente 33 homens mal educados pelas mamães e papais abusando de uma mulher. São 33 perigosos traficantes, armados, drogados, do tipo que envolve a vítima com 5 pneus, joga gasolina em cima e toca fogo. Esses bárbaros não abusam de mulheres, mas de qualquer ser humano que atrapalhe seus planos. Esses caras matam gente! Experimente cobrar civilidade deles…

Como qualquer pessoa que assassinar, estuprar ou simplesmente agredir outra pessoa, precisam ser presos, julgados e condenados, sem firulas legais, sem a impunidade que o dinheiro pode comprar, sem papo de “vítimas da sociedade”, sem conversinhas ideológicas de transferência de culpa, sem a justiça progressista que os coloque na rua em alguns meses. E quer saber mais? Para um crime hediondo como esse, até aprecio a proposta de castração química do Bolsonaro… Mas pensando bem, nem será preciso. Se forem presos, já sabem o que os espera na prisão. No Brasil, até os bandidos têm a cultura de linchar estuprador.

Uma pesquisa do IPEA em 2014 mostrou que 70% dos brasileiros discordam da afirmação de que “mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas”, o que significa que 30% admitem essa possibilidade. Se existir alguma cultura do estupro, está na cabeça dessa minoria, que precisa ser veementemente combatida por nós, a maioria que, quando não permanece indiferente ou calada, diz “estrupo”.

Eu, assim como meu filho, meus sobrinhos e meus amigos, quero o fim da impunidade, não admito, não convivo e muito menos estimulo a violência contra a mulher. E, como a maioria dos brasileiros, se tivesse que escolher, escolheria a cultura de linchar o estuprador à cultura do estupro.

É a civilidade que me mantém no meio.