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Henrique Szklo - Iscas Criativas -

Começo este artigo com uma pergunta. E seja honesto (a). Em qualquer situação da sua vida, qualquer uma, assinale o que você prefere sentir:
( ) conforto
( ) desconforto

Se você for uma pessoa mais ou menos normal, vai ter assinalado a primeira resposta. Ou seja, nós, seres humanos, buscamos em nossas vidas elevar o nosso conforto em toda e qualquer circunstância. Mas não se confunda: mesmo quem entende que o desconforto serve como aprendizado, o seu propósito, no final das contas, é sentir-se uma pessoa melhor. E isso é conforto. Mesmo você, sadomasoquista, sente algum tipo de prazer psicológico na dor, portanto tomar uns sopapos é, na real, um momento repleto de conforto.

A criatividade existe para nos oferecer mais conforto

Tudo, absolutamente tudo o que o ser humano criou e que deu certo, ou seja, que foi relevante para um grupo social em sua época e lugar, está relacionado à busca pela ampliação de conforto.

Só para citar alguns exemplos, a roda ajudou a carregar pesos e acelerar o movimento: conforto. Ferramentas ajudaram na caça, na manipulação de materiais e na defesa do grupo: conforto. Cerâmica ajudou no acondicionamento de alimentos e líquidos: conforto.

Roupas, alfabeto, números, línguas, calendário, construções, armas, barcos, fósforos, telefone, televisão, óculos, relógio, carro, ar condicionado, avião, internet e milhões de outros objetos e conceitos que só foram adiante porque produziram e produzem conforto ao ser humano. E quando digo conforto, não é apenas o físico, mas o mental e o espiritual.

Repito: tudo, 100% das ideias bem-sucedidas na história da humanidade estão relacionadas ao aumento de conforto. Pode pensar aí que não vai encontrar nada que contrarie esta afirmação. Mas se encontrar, escreva nos comentários e eu vou lhe mostrar onde está o conforto.

Não há como escapar do desejo por mais e mais conforto

Você quer algo mais confortável do que o controle remoto? Quando era criança, eu fazia o papel de controle remoto lá em casa. “Vai lá e troca de canal!” – vociferava meu pai. E lá ia o pequeno Henrique virar o seletor de uma pequena TV em branco e preto com uma película plástica translúcida afixada à sua tela, colorida como aquelas barras que aparecem antes de começar um vídeo. Acho que era para esnobar a vizinhança dizendo que tínhamos uma TV colorida. Apesar da sensação de sermos pessoas superiores, gente diferenciada – uma clara manifestação de conforto – esta invenção de gosto e utilidade duvidosa, obviamente não durou muito. E foi colorir o nosso lixo.

Imagine como era a vida há dez anos. Vinte. Cinquenta. Cem. Quinhentos. Mil. Nós mesmos, como animais complexos, mudamos muito pouco. O que mudou de verdade foi nosso entorno. As ferramentas que criamos para ampliar nosso conforto. Arrancar um dente antes da invenção da anestesia devia ser uma experiência transcendental. Arrumar uma infecção antes do descobrimento da penicilina idem. O vaso sanitário, neste contexto, tem o seu lugar garantido em nossa lista de confortos prediletos.

Quer fazer sucesso? Ofereça conforto

Todas as pessoas que tentam criar algum produto ou serviço de sucesso, estão, na verdade, procurando mais uma forma de promover conforto às pessoas. Se o conforto não for percebido, qualquer ideia vai morrer rápido. Ou nascer morta.

Está confortável com este texto?

Notou que eu disse “percebido”? Pois é, o conforto não precisa sequer ser real. Basta as pessoas acreditarem que ele está presente. É só você prestar atenção à propaganda e ao marketing que vai compreender. E ao compreender, vai se sentir inteligente e isso vai gerar conforto psicológico. E é essa a intenção deste texto. Promover conforto a você, leitor, para que goste de mim, curta meu trabalho e o compartilhe em todas as suas redes sociais, dando uma caprichada nos elogios. Nada me traria mais conforto.
Queremos conforto, mesmo que precisemos ficar desconfortáveis

O conforto não está associado literalmente à invenção, mas ao propósito que ela enseja. Até o trabalho é um provedor de conforto. Não, eu não estou louco. Trabalhamos com o propósito de ganhar dinheiro para que possamos usufruir das coisas que nos geram conforto. A realização profissional também pode se encaixar neste cenário.

Outro exemplo: o salto alto. Apesar de algumas mulheres (ou quem mais esteja disposto a usá-lo) de fato sentirem-se confortáveis com esse artefato, a maioria sofre, mas mantém-se fiel e altiva. O motivo mais óbvio é que o salto alto deixa a pessoa se sentindo mais alta, mais elegante e, portanto, com a auto-estima elevada. Conforto.

O que move o homem é o desejo de não se mover um dia

A tecnologia está alimentando essa obsessão por conforto de forma tão acelerada que logo logo não sairemos do lugar nem para ir buscar o prêmio da Mega da Virada. Não precisaremos mais de nossos corpos. Seremos cérebros em redomas de vidro vivendo uma vida totalmente virtual.

A tecnologia alimenta nossas contradições

Tenho um carro muito moderno. Altíssima tecnologia. Aciono seu motor à distância. Ele me conhece e abre as portas quando me aproximo. Acho que conhece meu cheiro, não sei. Sento e ele, simpaticamente, afivela o cinto de segurança. Se está chovendo, ele aciona o limpador. Se está escuro, acende os faróis. Não preciso tirar as mãos do volante para nada. Ele conversa comigo e tem um bom papo. Chega a me dar bons conselhos. O volante é tão macio que parece que está solto no ar, girando no vazio. Tem um sistema anti-colisão. Mesmo que eu me distraia, não há como causar nenhum tipo de acidente. Mas, se por uma infelicidade isso acontecer, 220 airbags envolverão carinhosamente todo meu corpo.

Uso essa maravilha da engenharia para ir todo dia à academia. Para quê? Para quase me matar de tanto fazer força e estimular meu corpo fisicamente. Saio morto e com o corpo doido. Depois volto para meu carro e não movo um músculo sequer até chegar em casa. Apenas os do rosto, responsáveis por construir meu largo sorriso.

A academia de ginástica é uma invenção recente. Antigamente não havia necessidade. Existia uma maneira muito mais barata e prática de trabalhar nossos músculos: chamava-se Brasília. Cada conversão era um esforço fenomenal, estimulando o Músculo Radial Externo e o Longo Supinador. O câmbio era duro e impreciso, trabalhando com eficiência o Deltoide e o Trapézio. As janelas estavam sempre emperradas, ideais para mexer com o Bíceps e o Peitoral. O freio parecia o do Fred Flintstone, tamanho o esforço para travar as rodas, dando uma excelente forma ao Tibial Anterior e Extensor Longo do Hálux . E quando alguém para quem você dava carona deixava o vidro aberto? Uma beleza de trabalho no Tríceps e no Oblíquo Externo. Dirigir uma Brasília era a perfeita representação da expressão “puxar ferro”. Era só encher o tanque e mandar ver.

O conforto ainda vai nos matar

O cobertor da natureza é sempre curto. A exponencial evolução tecnológica, patrocinada pela sanha desenfreada do homem em busca do conforto, está criando um perigoso desequilíbrio. Nosso corpo não foi feito para ser tão poupado de esforços. E quanto mais conforto adquirirmos, mais problemas ele terá para se adaptar. É como um vulcão. O excesso de energia acumulada em seu interior gera uma imensa pressão até que a cratera não resista e se rompa. No nosso organismo, a erupção se manifesta por meio de doenças das mais diversas, resultado do aumento de colesterol, da pressão sanguínea, do açúcar e etc. E todas são potencialmente fatais. Só existem duas maneiras de resolver isso: comendo proporcionalmente menos ou dissipando esta energia excedente por meio de exercícios físicos. Numa academia ou ao volante de uma Brasília.

 

Visite meu site: Escola Nômade para Mentes Criativas

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