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Artigos Café Brasil
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1964 – O Brasil entre armas e livros

1964 – O Brasil entre armas e livros

Luciano Pires -

Assisti o documentário e aqui vai o que vi e como vi.

Primeiro o antes. Impressionante a reação da imprensa e da militância nas mídias sociais ANTES do lançamento do filme. Sem ver o conteúdo, diversas pessoas atacaram o filme de várias formas, já o taxando de “defensor da ditadura”. A pressão foi tanta que a Rede Cinemark, que não viu nenhum problema em exibir filmes sobre ditadores sangrentos e políticos presos, decidiu não permitir sua exibição. Tudo sem que o conteúdo do filme fosse conhecido. Histeria total, de quem vê seu templo sagrado sendo invadido por “infiéis”.

O filme então foi distribuído gratuitamente pelo Youtube onde conta atualmente com 5 milhões de visualizações. Se fosse cinema, seria a 16a maior bilheteria da história do cinema nacional. A mesma turma que criticou antes de ver coloca essa audiência espetacular na conta dos robôs que inflam a audiência.

Para compreender o filme, vou usar de um antigo método. Verificar o fato, a intenção e o contexto.

1. O fato.

O que é que filme diz?
Foi golpe? Sim. Foi golpe militar? Foi civil em primeiro lugar. Mas ocorreu um segundo golpe, esse sim militar, mais à frente, quando se esperavam eleições diretas e os militares não abriram mão do poder. O filme mostra isso e critica essa decisão.

Houve torturas? Sim. O filme trata desse assunto de forma crítica, fala do absurdo e de como, num regime de exceção, é impossível controlar o que acontece nas pontas dos tentáculos, onde psicopatas com poder praticam atos abomináveis em nome do sistema. Em nenhum momento justifica a tortura, apenas explica. O filme não alivia, não “passa pano”, mostra o que aconteceu e nesse mostrar fala das barbaridades cometidas pelos dois lados. E é aí que irrita a galera da narrativa histórica maniqueísta do “lado do bem contra o lado do mal”. Aliás, o filme até pegou leve com a esquerda, ao não apresentar depoimentos completos do Gabeira, do Eduardo Jorge e de ex-guerrilheiros que estão disponíveis na internet e mostram as intenções daquela turma.

2. A intenção.

De acordo com o filme, o golpe aconteceu para impedir um processo de tomada de poder pela esquerda, motivada, armada e treinada pelas forças do comunismo internacional. Essa é a tese que enlouquece os autores da velha narrativa de que os militares tomaram o poder simplesmente porque odeiam a democracia e queriam mandar na gente. O filme defende que os militares reagiram, acionados e apoiados pela sociedade, pela imprensa, pela igreja, pelos empresários, pelo povo. Não foi uma decisão tomada dentro de um quartel por meia dúzia de generais maus, mas um processo deflagrado a partir de uma atitude civil, quando o Congresso declarou vago o cargo de Presidente da República. E o filme deixa claro que essa atitude foi inconstitucional, pois o Presidente Jango ainda se encontrava dentro do Brasil. Mas não foi atitude dos militares.

3. O contexto.

É aí que o bicho pega. O filme contextualiza o cenário da guerra fria, os movimentos do bloco soviético nas Américas, a revolução cubana, o treinamento de brasileiros para guerrilha, bem antes de 1964. Mostra Jânio condecorando Che Guevara e traz dezenas de documentos e depoimentos do StB, o Serviço de Inteligência criado pelo Partido Comunista da Tchecoslováquia para desempenhar funções de polícia política e polícia secreta após a II Guerra.

Em 2007 o governo Tcheco criou o Instituto para o Estudo dos Regimes Totalitários e abriu os arquivos da StB para o público. Foi lá que o escritor e tradutor Vladimir Petrilák, que participa do documentário, encontrou dezenas de documentos de época, mostrando a atuação de agentes comunistas no Brasil e sua ligação com os militantes e depois terroristas. Esses documentos renderam o livro 1964 – O Elo Perdido. O Brasil nos arquivos secretos do comunismo, de autoria de Petrilák e Mauro “Abranches” Kraenski.

Eu li esse livro em 2017. É uma leitura maçante, repleta de relatórios de agentes secretos, planos de operações, recibos de pagamento para colaboradores brasileiros e outras informações que confirmam que a inteligência da União Soviética usou agentes do StB para ampliar a influência político-ideológica na América Latina, agindo nos círculos acadêmicos e na imprensa brasileira.

Conforme os documentos, a infiltração soviética chegou até mesmo aos gabinetes presidenciais de Juscelino, Jânio e Jango, antes de 1964. Tenho lido diversas críticas dizendo que o filme se apoia em documentos desimportantes desenterrados de uma organização desimportante num pais desimportante. Isso é dor de cotovelo. Ou a velha ostentação da ignorância como prova de que o que se ignora, não aconteceu.

São documentos recentemente descobertos e que certamente precisam de um mergulho mais profundo de historiadores, mas que causam um impacto brutal em quem tem dúvidas sobre a movimentação comunista na América Latina pré 1964.

O documentário conta com depoimentos de Alexandre Borges, Flávio Morgenstern, Olavo de Carvalho, Rafael Nogueira, William Waack, Luiz Felipe Pondé, Mauro Abranches Kraenski, Percival Puggina, Hélio Beltrão, Vladimir Petrilak, Petr Blazek, Luiz Philippe de Orléans e Bragança. Alguns desses nomes representam a linha de frente do que se convencionou chamar de “nova direita” no Brasil e despertam os mais primitivos instintos nos 50 tons de esquerda. É natural a gritaria.

Como cinema, é um documentário um pouco arrastado, com uma trilha sonora pesada e excessiva, que tem lacunas de informações que estão disponíveis no Youtube e que talvez não tenham sido usadas por questões de direitos autorais. Ou por antipatia dos donos dos depoimentos. Usa muitos depoimentos de jovens que estão sendo ironicamente tratados como “historiadores” entre aspas pela academia. Ou como “revisionistas” pela tropa histérica.

A falta de nomes de peso (apenas Olavo, William Waack e Pondé são conhecidos pela presença constante na grande mídia) está sendo usada pelos críticos para passar a impressão de que a produção é feita por uma molecada de fora do ambiente acadêmico onde está a “história de verdade”. Não tenho conhecimento para atacar ou defender esses jovens que fazem os depoimentos, mas a gritaria da academia, vindo de onde vêm, me dá a certeza que eles precisam ser ouvidos.

Dezenas de críticos estão acusando o documentário de tentar reescrever a história, de defender a ditadura, de compactuar com a tortura e todo aquele arsenal que você conhece. Bobagem. O documentário precisa ser assistido por todos os brasileiros. E ninguém precisa acreditar nele. É para ser visto simplesmente como um outro ângulo pelo qual observar os acontecimentos de 1964.

Ele não nega a história. Equilibra.

E equilíbrio é justamente o que falta para o Brasil.

https://www.youtube.com/watch?v=yTenWQHRPIg&t=232s