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Luciano Pires -

Cara, a Confraria Café Brasil está se me surpreendendo a cada dia, pelo nível e a dinâmica das discussões. Semana passada o tema #terceirização pegou fogo, com opiniões de todos os matizes por lá. E eu não fiquei de fora, dando meu testemunho.

Eu me envolvi enormemente com a questão da terceirização ao longo dos anos 1990 e começo dos 2000. Estava dentro de uma indústria de autopeças que lutava para que as montadoras terceirizassem para nós diversas atividades (e conseguimos), ao mesmo tempo em que buscávamos terceirizar uma série de atividades que não eram consideradas nosso “core business”. E fizemos isso de monte, inclusive passando funcionários que eram CLT para as empresas terceirizadas.

Nesse processo, assisti de tudo. Eu era o Diretor de Marketing da empresa e terceirizei diversas atividades, do trabalho de promoção de vendas a serviços logísticos, sempre buscando a equação “ampliar os serviços x reduzir nossas despesas fixas”. Mas havia um mandamento rígido: jamais terceirizar algo para alguém pior que nós. Só haveria sentido na terceirização se ela representasse, sem aumento substancial de custos, melhoria nos serviços.

Poucos dias atrás participei de um churrasco com nossa “turma da antiga”, reunindo pessoas que eu não via há mais de 10 anos.  Eu era a “patente mais alta” no churrasco, que aconteceu na sede da empresa de dois ex-funcionários, o Carlão e o Guerra. Os dois eram promotores de vendas e foram terceirizados na minha época, demitidos por mim para montar uma empresa que foi contratada para fazer o mesmo trabalho que faziam na empresa, coordenando as operações de promoção de vendas pelo Brasil.

Detalhe: o estímulo para que tomassem essa atitude não veio do espírito empreendedor deles, mas da minha certeza de que seria uma estruturação melhor para todos. Eles aceitaram o risco e foram em frente. Hoje a empresa deles atende diversos clientes do segmento automotivo, não atende mais a empresa em que trabalhávamos, emprega cerca de 30 pessoas e eles nem querem pensar em voltar a ser CLT. Durante o churrasco falamos sobre um outro colega, o Danilo, que também demiti 20 anos atrás, combinando que ele montaria uma empresa de motoboys para nos atender. Hoje ele é dono de uma das maiores empresas de motoboys de São Paulo, com mais de 300 “cachorrões”, está muito bem e nem quer falar em voltar a ser CLT.

Vi histórias como essas às dezenas, que só aconteceram a partir do estímulo da terceirização. E veja, eles não eram funcionários de alto escalão, eram promotores de vendas.

Também pratiquei o contrário: pelo menos cinco funcionários em minha área vieram de empresas terceirizadas, onde desempenharam tão bem seu papel que, quando os contratos terminaram por causa do final de projetos, fui buscá-los para trabalhar conosco. Foi a terceirização que lhes deu a chance de apresentar seu trabalho e encontrar uma oportunidade dentro de uma multinacional.

Onde quero chegar?

A terceirização é uma excelente saída, de eficiência comprovada por mim, pessoalmente, em inúmeras ocasiões. Ela abre oportunidades para que coisas aconteçam; dá chance às pessoas de obter trabalhos aos quais não teriam acesso; ajuda a melhorar a qualidade de processos; dissemina melhores práticas pelo mercado e espalha o vírus do empreendedorismo pela sociedade.

Pois é. Mas no meio desse monte de virtudes tem um filho da puta que vai explorar outras pessoas, que vai jogar sujo, que não pagará direitos, como existe em qualquer lugar, inclusive naqueles onde a CLT prevalece.

O que é preciso ser feito? Que se acabe a impunidade, que a lei seja cumprida, que se esse projeto de lei que aí está é mal redigido, abrindo brechas para os bandidos que sempre são a minoria, que coloquemos o foco sobre ele, o projeto, e não na demonização do processo de terceirização, quarteirização ou o que seja.

Pelo que vi ao longo dos mais de trinta anos de minha trajetória profissional, a terceirização deu muito certo na teoria e na prática. Pergunte pro Carlão, pro Guerra, pro Danilo, pro Mauro, pra Dirce, pra Carla, pro Manoel, pro Cassio e para tantos outros que conheço de perto.

É preciso evoluir nas questões trabalhistas e a terceirização é um caminho antigo, já experimentado e de eficiência comprovada, mas que nossos brontossauros, lentos, pesados e espaçosos, teimam em contestar, como sempre legislando pela exceção e exigindo um Estado equivalente ao Indominus Rex.

E assim continuamos empurrando o problema. Até o dia que o asteróide chegar.