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Artigos Café Brasil
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Bandidos Na TV

Bandidos Na TV

Luciano Pires -

Assisti Bandidos Na Tv, nova série na NetFlix, que conta a história do apresentador e político de Manaus Wallace Souza, mas que vai muito além disso.

Se eu puder resumir: a série está no nível de Wild Wild Country. Antes que venha a gritaria dos puristas, evidentemente a produção brasileira tem menos recursos, mas tá tudo lá: farta documentação combinada com representações, personagens reais dando depoimentos, imagens cruas de arquivo… e a sensação que nos provoca de “como é que eu nunca soube disso?”.

Os criadores e produtores estão de parabéns. Eu comecei a assistir sem expectativas e não consegui largar…

Bandidos Na TV está baseada na história de Wallace Souza, apresentador de um daqueles programas policiais sangrentos transmitidos na hora do almoço, que foi ao ar pela primeira vez no ano 2000 na TV Rio Negro, de Manaus. O programa tornou-se sucesso absoluto e Wallace logo se transformou numa espécie de defensor da população contra a violência dos bandidos, especialmente traficantes. O sucesso foi tanto que lhe garantiu três eleições para Deputado Estadual, sempre com a maior votação no estado.

E em 2008, tudo mudou quando um ex-policial militar conhecido como Moa, ao ser preso com armas e cocaína, denunciou a existência de uma organização criminosa para o tráfico de drogas que seria chefiada por Wallace e seu filho mais velho, Raphael Souza. E que eles usavam os crimes para aumentar a audiência do programa.

O que se vê a partir daí, e com a mesma intensidade nos sete episódios, é um vaivém insano. Numa hora Wallace é bandido, segundos depois é inocente, depois vira bandido outra vez, e aí inocente de novo… a série apresenta a cada segundo um personagem, um fato, uma prova, um detalhe que muda completamente a história. Confesso que nunca assisti nada igual que não fosse no mundo da ficção.

Há imagens inacreditáveis de crimes, depoimentos e instantes que nos levam a imaginar que um viajante do tempo voltou lá atrás para capturar instantes que seriam fundamentais para o documentário.

O documentário é muito bem feito, com recursos dramáticos como a música, imagens aéreas, olhares distantes, tudo muito bem alinhado. Até mesmo a péssima imagem de câmeras de segurança ou da internet, servem para dar mais dramaticidade aos crimes reais. O documentário nos levar para dento do programa Canal Livre, dá pra sentir a loucura que era aquilo. Ao mesmo tempo, nos transporta para o mundo do crime, do sangue frio dos que executam os adversários por vingança ou estratégia… até nos jogar dentro de umas das maiores chacinas da história deste país, quando uma facção criminosa liquida com outra dentro de um presídio em Manaus, com requintes nunca vistos de violência.

Vá preparado que as imagens são chocantes.

Outro ponto interessante é a forma como a imprensa é retratada. Um dos segmentos mais impactantes da série é quando uma jornalista investigativa que participa da narrativa, descreve o momento em que é confrontada pelo filho mais novo de Wallace e se obriga a refletir sobre o poder da imprensa sobre a vida das pessoas.

O diretor da série, Daniel Bogado, diz que “Na época do caso, a família sentiu que a imprensa focou bastante na força-tarefa, mas nunca deram a chance para que os parentes contassem seu lado da história. Por isso, durante a série, o público é convidado a ouvir e ver os dois lados”. E isso o documentário faz com maestria.

Terminei o último capítulo com lágrimas nos olhos e um gosto amargo na boca, depois de ser transportado por uma montanha russa de emoções.

Se Wallace era bandido ou mocinho? Assista e tire suas conclusões, se você conseguir.

Cara, isso tudo aconteceu aqui no Brasil, foi fartamente documentado, repercutiu pelo mundo todo… como é que eu não sabia dessa história?