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O presidente venezuelano Hugo Chavez, declarou recentemente que o diabólico imperialismo norte-americano está por trás das doenças que tem acometido os chefes de estado de tendência esquerdista na América Latina. Assim como o terremoto do Haiti, tudo não passaria de um plano para desestabilizar as ações dos iluminados que estão levando seus países em direção ao paraíso. Encontrei num texto do jornalista Carlos Pagni no jornal La Nación, uma reflexão que parece mais sensata que a de Hugo Chávez. Veja só:

“O tumor descoberto na presidente Cristina Kirchner atualiza o problema do vínculo entre doença e poder. A questão é preocupante: a doença descobre o que o poder quer esconder. A fragilidade, o limite. Durante a Segunda Guerra Mundial, Stalin, Roosevelt, Churchill, Mussolini e Hitler sofriam, cada um, sua aflição. Na América Latina, Chávez, Lugo, Lula, Dilma, Uribe, e agora Cristina, foram afetados pelo câncer. Nelson Castro escreveu que o poder adoece pelas tensões que gera. Para o psicanalista Elsa Aisemberg, aqueles que não podem simbolizar o sofrimento tramitam um duelo com o corpo. Normalmente são pessoas que valorizam mais o sucesso e o peremptório do que a reflexão. O especialista Alberto Lederman inverte o vínculo: ‘Há uma idealização segundo a qual o poder é um meio para atingir determinados fins. Antes disso, o poder é uma estratégia defensiva para proteger uma vulnerabilidade emocional do mundo do sujeito. Atrás do poder vai quem precisa’.

O poder, então, não é a causa. É o sintoma.”

Viu só? Atrás do poder vai quem precisa dele… E quem precisa dele é quem precisa proteger-se do mundo, quem tem uma grande vulnerabilidade emocional.

Não acredito nos que dizem que a doença é um castigo divino. Não é. A doença é resultado de uma série de escolhas individuais aliadas a condições genéticas e ambientais sobre as quais os indivíduos não tem qualquer controle. Doença é, acima de tudo, questão de sorte.

Segundo a psicossomática, ciência que integra especialidades da psicologia e da medicina, diversas patologias orgânicas como o câncer e os problemas reumatológicos e cardíacos, surgem a partir do excesso de raiva e ódio e daquilo que se convencionou chamar de “mágoa cristalizada”. Mas quando tratamos dos reflexos no organismo estamos apenas arranhando a superfície. Existem reflexos relacionados à dimensão emocional e até mesmo espiritual que, se não causam o câncer propriamente dito, criam as condições para que ele surja e se dissemine. Mas se a doença for mesmo questão de sorte, o que fazer? Resignar-se? Não. Eu sugiro dar uma mãozinha à sorte, fazendo aquilo que todos sabemos que deve ser feito: cuidar da alimentação, reduzir agressões ao corpo, ocupar a mente, etc etc etc. Quando um indivíduo escolhe expor-se a ressentimentos, pressões e mágoas, não está dando uma mãozinha à sorte, mas ao azar. E quem é o poderoso que vive sem mágoas?

Então fico com Carlos Pagni. Nas questões de doenças, o poder não é causa. É sintoma.

Luciano Pires