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Cérebros Roídos

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Luciano Pires -

Quando em 2001 decidi começar uma cruzada pessoal contra a miséria intelectual que assola o Brasil eu sabia que a briga seria dura, mas que valeria a pena. De lá para cá sabe o que aconteceu?
Tornei-me colunista de programas de rádio. Lancei meu livro Brasileiros Pocotó. Realizei minhas palestras centenas de vezes no Brasil e no exterior. Fiz eventos de lançamento de livros em várias universidades. Criei o programa de rádio Café Brasil que está em 27 rádios pelo país. Lancei seis Melôs que foram assistidas por centenas de milhares de pessoas no Youtube. Ampliei meu cadastro de “assinantes” do site para mais de 125 mil nomes. Viajei para o Aconcágua e o Pólo Norte. Lancei o podcast Café Brasil que já tem mais de 100 mil downloads/mês. Tornei-me colunista de dezenas de jornais, revistas e sites. Lancei meu novo livro NÓIS. Ufa! Uma trabalheira danada que recebeu pouquíssima repercussão na grande mídia. O barulho todo veio pela internet.

Mas agora a coisa mudou! Fui entrevistado na televisão, para matéria que foi ao ar no Jornal da Cultura! Vieram me entrevistar em meu escritório! Um jornalista e dois técnicos! Vixe!
Quando ligaram interessados na entrevista, fiquei excitado! Será que finalmente eu poderia tratar de meu trabalho de combate ao emburrecimento nacional? Falar das implicações políticas de nossas decisões do dia a dia? Chamar a atenção para o vácuo de cidadania que vivenciamos neste início de século? Comentar sobre a queda de conteúdo no sistema educacional? Discorrer sobre as raízes da corrupção em nossos pequenos atos diários? Discursar sobre a necessidade de enriquecer nosso repertório para refinar nossa capacidade de tomada de decisão? Argumentar sobre a importância de não ser um bovino resignado que simplesmente destila ressentimentos passivos? Conclamar o telespectador a conectar-se a outras pessoas interessadas em melhorar o estado das coisas? Provocar a todos pedindo que resistissem caso percebessem que o Brasil está ficando burro?
Não.
Essas questões não estão nas pautas. Eles estavam interessados por causa de meu artigo “Sobre unhas” em que eu comento que estou superando o hábito de roer unhas desde que comecei aprender a tocar viola caipira.

Questões ligadas à cidadania são chatas, interessam a uma minoria que, provavelmente, nem assiste televisão. Para a televisão precisamos de coisas leves, como o hábito de roer unhas, por exemplo. Isso sim cabe em rede nacional e horário nobre.
Extrapolando meu simplório exemplo para as grandes questões nacionais, lembro-me do mestre Rubem Alves dizendo: “Os homens da mídia vivem repetindo que o dever dos jornais e da televisão é dar a ‘notícia’. Mas ‘notícias’, há milhares delas espalhadas pelo mundo. O que me espanta é o critério que se usa para pinçar as notícias que serão servidas aos leitores como comida. Se o povo só se alimentar de comidas pútridas, ele passará a gostar do pútrido. E, ao final, também ficará pútrido.””

É claro que não existe nada de “pútrido” numa solução para o hábito de roer unhas. Talvez minha história ajude outras pessoas que também sofrem com o problema, o que é muito legal.

Mas mais urgente que o roer de unhas é o roer do cérebro. É ele que está sendo destruído sem que percebamos. E o problema é que o estrago do cérebro não é visível como nas unhas. Não dói como as unhas.

E na República das Banalidades o que não é visto e nem dói, não interessa.