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Artigos Café Brasil
Nem tudo se desfaz
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Deduzir ou induzir
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Café Brasil 796 – Maiorias Irrelevantes
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Café Brasil 785 – LíderCast Leandro Bueno
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Café Brasil 775 – LíderCast Henrique Viana – Brasil Paralelo
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Sem treta
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Quadrinhos em alta
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Iscas Econômicas
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Trivium: Capítulo 4 – Tipos e Regras de Divisão Lógica (parte 7)
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Cafezinho 444 – Congestão mental
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#DicaNetFlix Trotsky

#DicaNetFlix Trotsky

Luciano Pires -

#DicaNetFlix Trotsky. Minisérie em oito capítulos. Gênero: terror.

Descreve a evolução do jovem judeu Lev Bronstein, de uma obscura prisão em Odessa em 1898, até tornar-se o todo poderoso Leon Trotsky, um dos arquitetos da revolução russa de 1917 e criador do exército vermelho.

É naquela prisão, durante um jogo de xadrez, que o jovem Bronstein de 19 anos aprende com o diretor da prisão, Nicolai Trotsky, que o povo russo só pode ser controlado pelo medo e que ele deveria desenvolver a capacidade de controlar as massas para obter poder. E, simbolicamente, Bronstein adota o nome de seu carcereiro: Trotsky.

Numa licença artística, os criadores da série inventaram um jornalista de origem canadense que em 1940 se aproxima de Trotsky, exilado no México, para uma série de entrevistas. Por meio de perguntas incômodas, sempre tentando entender a moral por trás do indivíduo que trucidou milhares de pessoas em nome de uma revolução, o jornalista abre caminho para os flash backs que caracterizam a série.

A todo momento eu me lembrava da jovem Clarice Starling conversando com Dr. Annibal Lecter em “O Silêncio dos Inocentes”. Ela saía das conversas abalada, cheia de dúvidas… A mesma tensão, a sensação de que a qualquer momento aquele psicopata vai pular em seu pescoço… é esse o clima de toda a série.

Trotsky é retratado como um sujeito frio, sem emoções, um revolucionário doentio, que não hesita em sacrificar a família, usar o filho criança como escudo, mentir descaradamente para eliminar inimigos e manipular, manipular e manipular as pessoas na direção de seu sonho da revolução comunista mundial. Ele não está focado na Russia, mas no mundo. Seu relacionamento com Lênin, Stalin e outros figurões da época é sempre tenso, prestes a uma explosão e produzindo rios de sangue. E a série mostra momentos conhecidos, como o caso com Frida Khalo, a decisão de assassinar a família do Czar (muito criticada, pois dá a impressão que a decisão foi de Trotsky, o que contraria historiadores que a atribuem a Lênin), a formação do Exército Vermelho e o assassinato no México. Isso não é spoiler, é história.

A série é curta demais para o tema que aborda. Passa por cima de muitos momentos marcantes, não se aprofunda em diversos personagens fascinantes e dá uns saltos na história que mostram a dificuldade do roteiro. Stalin, por exemplo, é representado como o psicopata dos psicopatas. Pouco abre a boca, basta seu olhar para se perceber que o sujeito era um monstro. Ficou meio caricatura. E o processo de construção da inimizade com Trotsky fica obscuro, merecia mais atenção.

Outra coisa fascinante é a forma como Trotsky é cuidadosamente construído para ser um dos líderes, com um mentor, a partir de Paris, com ajuda da imprensa e dinheiro de oligarcas e com um plano muito bem arquitetado. Lembra o processo que construiu um certo personagem no Brasil.

A série é tecnicamente deficiente, seja nos efeitos visuais (o trem tem momentos que parece desenho animado) e no desempenho de diversos atores. O começo é particularmente arrastado, mas vai melhorando para o final. Nota-se que há uma preocupação em trazer os personagens históricos, mas infelizmente os nomes estão em russo e não foram colocadas legendas nesses momentos. Ficamos sem saber quem são ou tentando adivinhar. Mas é curioso ver figuras como Máximo Gorki e Sigmund Freud na tela. Aliás, Freud é responsável por um dos momentos mais saborosos da série, outra “licença artística” criando um fato que jamais ocorreu, mas que é fascinante e ajuda a construir o caráter de Trotsky.

O personagem principal é representado por um dos grandes atores russos da atualidade, Konstantin Khabensky. E ele o faz muito bem, com a psicopatia necessária para o tom que decidiram dar ao filme.

É possível sacar que muitas cenas foram forçadas, que em momentos a tal “liberdade artística” vai longe demais, assumindo até mesmo uma militância. A sequência do assassinato de Trotsky é absurdamente falsa. A única coisa verdadeira ali é uma martelada na cabeça. O resto é viagem dos roteiristas. Aliás, o próprio pôster da série já dá uma ideia do viés de terror. Veja na imagem que ilustra este post. E nós, que olhamos de longe, ficamos sem saber até onde a ficção prejudica a verdade.

Sobre a posição política, bem, basta dizer que os socialistas do mundo estão revoltados com a série, que representa os demônios que causaram o rio de sangue da revolução socialista de 1917. Mostra o sangue frio e a loucura socialista do sacrifício do indivíduo pelo bem da revolução. E os caras matam mesmo. Os socialistas estão gritando que “deturparam Trotsky”, o que é um indicativo de que deve ter sido aquilo mesmo.

Bem, eu não tenho um pingo de simpatia pela esquerda, pelo socialismo ou por aqueles psicopatas assassinos. E senti a mão pesada da série. Me deu vontade de ler uma biografia séria de Trotsky, Lênin e Stalin, para compreender um pouco mais da mente desses homens (ou serão demônios?), que impactaram a história da humanidade e por cujos atos pagamos até hoje.

É uma série de terror. Tem assassinos em série, monstros psicopatas, tortura psicológica, tortura física, mortes explícitas, vítimas indefesas e a ruindade do ser humano, que nos leva a questionar se eram humanos. E a tentar imaginar como é que há até hoje quem defenda essas figuras, esse sistema, essa loucura.

Aqui o trailer:

 

Boa sorte.