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Luciano Pires -

Uma leitora me escreve: “Luciano, sugiro que você esclareça como podemos anular nossos votos para que não seja nem Dilma nem Serra, e que pelo percentual possam ver a indignação de um povo, que só tem a opção do menos pior.”

O comentário da leitora merece uma reflexão que alguns acharão óbvia, mas que pode ser útil. Vamos lá.

Na votação do dia 31 estaremos diante de cinco opções de voto: Dilma, Serra, nulo, branco ou simplesmente não aparecer para votar. Para muita gente as duas primeiras opções exigirão aquilo que a leitora chamou de “escolher o menos pior”.

Já o voto nulo é um voto de protesto: “Não concordo com nada do que está aí, não quero fazer parte desse circo, portanto voto em ninguém”. É uma opção válida, uma opinião que o eleitor dará sobre sua insatisfação com os candidatos e com a política nacional. É o voto da indignação

O voto em branco é diferente. Ele quer dizer: “não sei em quem votar. Fiquei em dúvida e prefiro me abster”. Também é uma opção válida. É o voto da dúvida.

O não comparecimento à votação pode querer dizer que “não vale a pena me deslocar até o local da votação para escolher o menos pior. Vou pra praia”. É o “voto” do desprezo.

Resumo: temos Dilma, Serra, Indignação, Dúvida ou Desprezo.

No primeiro turno tivemos o potencial de comparecimento de 135.804.433 eleitores às urnas. Desse total, 6.124.254 votaram nulo (4,51%); 3.479.340 votaram em branco (2,56%) e 24.610.296 não apareceram para votar (18,12%!).

A soma dos nulos, brancos e abstenções reduziu o potencial de 135 milhões de votos para pouco mais de 101 milhões, que chamamos de “votos válidos”. O candidato que conseguisse mais da metade dos votos válidos teria sido eleito Presidente. Nenhum conseguiu e os dois mais votados foram para o segundo turno.

Agora imaginemos uma situação hipotética. Suponha que a soma dos nulos, brancos e abstenções no segundo turno seja de 135.804.433. Nesse caso os votos válidos serão reduzidos a… 3 (três). E o candidato que obtiver 2 votos será eleito presidente. Não existe essa história que circula de que se tivermos mais de 70% de votos nulos a eleição é anulada. Essa é mais uma lenda que a ignorância perpetua ao longo dos anos.

A opção pela não escolha deixa o eleitor em paz com sua consciência, já que ele sente que não participou do circo. Mas apesar de ser uma opção válida, é egoísta. E o pior, essa sensação de “lavar as mãos” é um engano. Quem opta pelo nulo, branco ou abstenção está ajudando o candidato mais forte ao reduzir a quantidade de votos válidos. Sendo assim, seu “protesto, dúvida ou desprezo” também é uma escolha política, com conseqüências nas eleições. Pensando que não participou, você participou igual…

Portanto, respondendo à leitora: o que você pede é impossível. Apesar dos nulos, brancos ou da praia, será Dilma ou Serra. A reação possível está depois das eleições: transformar a indignação, a dúvida e o desprezo em ações efetivas de cobrança sobre seu vereador, seu deputado, seu senador e sobre o presidente eleito. Não aceitar bovinamente as mentiras, desmascarar a falsidade, ridicularizar os malandros, chamar bandido de bandido e vigarista de vigarista. Defender a lei e deixar claro que punguista eleitoral não tem mais vez.

Coisinhas simples que o brasileiro desaprendeu a fazer.

Bom voto.

Luciano Pires