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Pandemia ou misantropia?
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O Papa É Pop?

O Papa É Pop?

Luciano Pires -

“Cultura Popular ou Cultura Pop é a cultura vernacular – isto é, do povo – que existe numa sociedade moderna. O conteúdo da cultura popular é determinado, em grande parte, por quem dissemina o material cultural, como por exemplo o cinema, a televisão e as editoras, bem como os meios de distribuição de notícias.”


Conforme essa definição, que encontrei na internet, Madonna é pop. Michael Jackson é pop. O Big Brother Brasil é pop. Mas para mim, existe o “pop” e o pop. Lembro-me de um filme pop, chamado “Austin Powers”, em que o Mike Miers interpreta um agente secreto engraçadíssimo em busca de seu “mojo”, que havia perdido. “Mojo” seria um charme mágico que o tornava irresistível. “Mojo” era sua capacidade de ser pop, da forma que eu entendo o pop. Veja que interessante: Bill Clinton é pop. George Bush não é. João Paulo II é pop. Bento XVI não é. Steve Jobs, da Apple, é pop. Bill Gates não é. Chacrinha é pop. Faustão não é. Che Guevara é pop. Hugo Chavez não é. John Lennon é pop. Britney Spears não é. Marília Gabriela é pop. Jô Soares não é. Harley Davidson é pop. Honda não é. Fernando Gabeira é pop. Aldo Rabelo não é. Mikhail Gorbachev é pop. Vladimir Putin não é. Mario Covas e Jânio Quadros são pops. Alckmin e Serra não são. Juscelino Kubitscheck é pop. Lula não é… Deu pra sacar onde quero chegar? Pra mim, para alguém “ser pop” tem que ter mais que super visibilidade na mídia. Tem que ter o “mojo”. Mais um quê de irreverência. Tem que dar um frio no estômago da gente. Passar a sensação de que vai “aprontar” alguma. Significa romper com as regras, desobedecer ao bom senso, repudiar o consenso. Criar tendências. Para o bem ou para o mal. O verdadeiro pop é irresistível. No entanto, existem milhares de “pops” falsos por aí, ícones artificialmente criados pela mídia, que não têm aquele charme mágico. Que desaparecem assim que se apagam os refletores. O mesmo vale para entidades. E para temas. Se não tiver o “charme”, não é pop. Em recente evento sobre educação no Chile, terminei minha palestra e passei a uma seção de perguntas e respostas. Um dos questionamentos dizia que o tema de minha palestra  – o impacto da mídia na educação e o papel dos professores como agentes da alfabetização para a mídia – já era tema discutido nas universidades, mas que ninguém dava bola para isso. E eu respondi: “Essa discussão tem que sair do ambiente acadêmico! Tem de se tornar pop”. E a turma fez cara de persiana. Sim. Qualquer tema que mereça ser discutido a ponto de mobilizar a sociedade, tem de ser pop. A discussão sobre violência no Brasil não é pop. A discussão sobre educação no Brasil não é pop. A discussão sobre política no Brasil não é pop. Qual discussão é pop? A superficial, aquela que nos é impingida pela mídia com objetivos claramente comerciais, para conseguir audiência e aumentar o valor do aluguel dessa audiência aos patrocinadores. Por exemplo: a carne rasgada e queimada, a criança trucidada, a bala perdida, a família chacinada… Tudo isso é transformado em pop pela mídia, que reduz a discussão às conseqüências da violência, achando que está produzindo uma discussão pop. Mas é um pop falso. Igual ao “pop” de George Bush ou de Bento XVI: imposto mais pela imponência do cargo e das conseqüências de suas atitudes do que pelo charme mágico que o torna popular.
Muito bem. Bush vem aí. O Papa vem aí. E quase 50 mil brasileiros vão morrer este ano, vítimas da violência urbana. Esses três temas vão preencher páginas e páginas de revistas e jornais. Vão ocupar horas e horas de rádio e televisão. Vão atrapalhar o trânsito. Vão prender nossa atenção. E você, embalado pelo barulho e animado pelo rebanho, terá a sensação de ter participado de um momento pop! Mas não se engane. Depois que você xingar ou aplaudir o Bush, depois que você rezar ou ignorar o Papa, depois que você assinar o abaixo-assinado ou participar da passeata “pela paz”, pergunte: “o que é que ficou diferente?”
E é aí que está… Só o verdadeiro pop inspira mudanças em nossa vida.