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O que dá pro gasto

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Luciano Pires -

Passei as festas de final de ano numa chácara junto a trinta parentes e amigos. Dividido em três terços, o grupo tinha gente na faixa dos 20, 25 e 50 anos de idade. Para ter música durante as festas, montei um equipamento de som. Testei, ficou bem legal, com um sonzão. E me preparei para a curtição, sem imaginar que criaria um conflito.

 

Cada grupo apareceu com seus CDs e Ipods. Um queria Bossa Nova ou Jorge Benjor. Outro queria Beyoncé, Lady Gaga e funk. E o outro queria Queens of The Stone Age com lampejos de Jimmy Hendrix. E quando um grupo assumia o controle, o outro se rebelava. Pais tentaram impor autoridade sobre os filhos e foram ridicularizados. Filhos tentaram impor a vontade e foram infernizados. Por pouco não desliguei aquela merda toda e ficamos só com o som do vento e dos pássaros. Mas como era festa, tinha que ter música.

 

Foi necessária uma reunião de consenso, quando ficou acertado que os interessados teriam direito de “pilotar” o equipamento durante uma hora. E um grupo não se queixaria do som do outro. Assim foi. Passei o réveillon ao som dos anos setenta e oitenta. Não era o que eu queria, mas foi divertido. E antes Village People do que o Créu, certo?

 

Ainda sob o impacto das horas intermináveis ao som de artistas descartáveis, ouvi de uma conhecida que costuma frequentar a casa de amigos –  um dos quais foi cantor da noite paulistana – um relato interessante. O tal amigo cantor é um virtuose ao violão e as reuniões sempre acabavam numa roda musical. Mas as crianças cresceram. Agora, quando a roda se forma, o músico vai tocando clássicos da MPB enquanto os jovens reclamam das “músicas de velho”. Até que vencem e assumem controle do violão:

 

– Quando Deus te desenhou, ele estava namorando…

 

Horrorizada, minha conhecida disse:

 

– Cara, meu amigo é músico profissional. Toca pra caramba. Do violão dele saem harmonias sofisticadas e ele é um excelente cantor. Aí os moleques começam a tocar aquelas musiquinhas modernas.

 

Minha amiga contava aquilo entristecida. E eu fiquei desconsolado ao concluir que isso é normal, que esse é o conflito de gerações e que quando eu era moleque também tive problemas com meus pais por causa de “músicas de velhos e músicas de jovens”. Naquela época quem pegava o violão era eu:

 

– Preta, preta, pretinha…

 

Mas há uma diferença, que surgiu claramente quando minha amiga disse:

 

– Os moleques parece que só sabem três acordes. Mal feitos. Tocam mal e cantam mal músicas ruins. Barulho. Eu até tento ficar, mas não dá.

 

Reparou? Tocam mal e cantam mal músicas ruins, o que é diferente de cantar mal e tocar mal músicas boas. Pra molecada aquilo dá pro gasto. E a sofisticação do músico e das músicas é deixada de lado em troca dos três acordes, letrinhas básicas e melodias iguais.

 

Olha só, do jeito que as coisas andam essa mega-super-ultra simplificação, fazendo com que tudo seja mais fácil, rápido e dinâmico, não é uma coisa ruim. É uma necessidade. O problema é quando nos conformamos com “o que dá pro gasto”.

 

Mas quer saber? Pode piorar.

 

Minha cunhada comprou um videokê.

 

 

 

Luciano Pires