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Luciano Pires -


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Estréia nos Estados Unidos um filme chamado “Turistas” que conta as desventuras de um grupo de jovens estadunidenses que decide passar as férias no Rio de Janeiro. Depois de uma noite de mulatas e caipirinhas, acordam numa praia, sem dinheiro. Caíram no golpe “boa noite Cinderela”. São torturados; os seqüestradores retiram e vendem os órgãos de alguns no mercado negro de transplantes. O filme é de terror e o trailer começa com uma frase que diz “Num país onde vale tudo, tudo pode acontecer”.

Fiquei indignado.

E recebi e-mails de pessoas indignadas propondo boicote ao filme, que denigre a imagem do Brasil no exterior.
Pois o governo devia reagir, iniciando uma campanha mundial para valorizar a imagem do Brasil lá fora. Usando o cinema. Igual aos estadunidenses, que distribuem seus heróis pelo mundo desde que o cinema nasceu. Montaríamos um festival e convidaríamos os formadores de opinião para assistir aos melhores filmes brasileiros de todos os tempos.
Começa com uma obra prima de 1950, “O Cangaceiro”, de Lima Barreto. Em preto e branco, mostrando pela primeira vez ao mundo uma imagem do Brasil que ninguém conhecia: o nordeste dos cangaceiros, da seca, da miséria e da violência. Em seguida “O Pagador de Promessas”, de 1962, de Anselmo Duarte e Dias Gomes, emocionante. O Brasil do nordeste, da miséria, do fanatismo religioso e da violência. Depois Glauber Rocha, nos anos 1960. “Terra Em Transe”. “Deus e o Diabo na Terra do Sol”. “O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro”. Com ângulos inovadores e narrativa diferente, o nordeste, a miséria e a violência dos cangaceiros. E tem também “Macunaíma” de Joaquim Pedro de Andrade, de 1969. Que loucura! A miséria e o esculacho brasileiros.
Depois daríamos um salto no tempo, pois nenhuma pornochanchada seria digna de exibição lá fora. Faria mal à nossa imagem.
Vamos de Hector Babenco em 1977, com “Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia”. A história de um bandido que termina seus dias assassinado na prisão. Depois, também de Hector Babenco em 1981, “Pixote”. Uma obra prima, mostrando as crianças com a vida comprometida pela violência e pelo tráfico. E que tal “Prá Frente Brasil”, de Roberto Farias, de 1983? Os anos da ditadura, da repressão, da tortura e do medo? Ah, tem também “Central do Brasil”, de Walter Salles, de 1998. Que filme lindo. A solidão e a tristeza dos miseráveis com todas as suas cores, numa atuação maravilhosa de Fernanda Montenegro que quase ganha o Oscar de melhor atriz! E então, “Orfeu”, de Cacá Diegues, 1999. A imagem de abertura é linda: o Rio de Janeiro visto do alto, com a estátua do Cristo Redentor em primeiro plano. A imagem sai do Cristo e cai direto dentro de uma favela, no meio de um tiroteio. No clímax da seqüência, uma bala perdida mata a mãe diante da filha pequena.
Ah… não poderia faltar… “Cidade de Deus”, de 2002. Fernando Meirelles levando o Brasil à corrida do Oscar! Obra maravilhosa, com atuações marcantes e um roteiro delicioso. O tráfico de drogas e a violência tomando conta de uma grande favela. Dez! Em seguida, de 2003, “Carandiru”, de Hector Babenco. A seqüência do massacre dos 111 detentos é de tirar o fôlego! E para encerrar, “Os Dois Filhos de Francisco”, de 2005, dirigido por Breno Silveira. Um filme delicioso que conta a história de pobreza e sofrimento de uma família do interior do Brasil. Quando os filhos atingem o sucesso, como dupla sertaneja, e vão ficar ricos, o filme acaba…
Que tal? Com esse festival, teríamos um panorama do Brasil, pela visão de brasileiros, em meio século de produção cinematográfica, com obras primas que pertencem à história do cinema mundial. E os gringos teriam então uma imagem correta e verdadeira do Brasil. E não fariam mais besteiras como esse filme “Turistas”, que tem mais é de ser boicotado mesmo.