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Artigos Café Brasil
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Sem treta
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Quadrinhos em alta
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Trivium: Capítulo 4 – Tipos e Regras de Divisão Lógica (parte 7)
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Os velhinhos

Os velhinhos

Luciano Pires -

Final de ano, época de reflexões, de revisão de nossos atos, de calibrar expectativas. Um texto meu antigo cabe bem aqui. Eu o escrevi após ver na televisão uma cena terrível: uma empregada espancando uma anciã indefesa. Nós, com a energia dos 20, 30, 40, 50 anos, não entendemos como alguém pode ficar à mercê de uma agressão, como se fosse um bebê.

Será que é assim que se envelhece?

Minha cabeça foi a mil, voltando 20 anos no tempo. Me vi dentro de um taxi, olhando o cartaz que anunciava “dia 22, Buena Vista Social Club” ao vivo no Auditório Nacional, em frente ao hotel onde eu me hospedava, na cidade do México. O Buena Vista era uma espécie de gafieira em Havana, Cuba, nos anos 50. Respirava música, e grandes nomes do som cubano tocaram lá.

Com a revolução cubana liderada por Fidel Castro o clube acabou e os músicos se dispersaram, a maioria virando pedreiros, engraxates e vivendo de bicos por 40 anos.

No final dos anos 90, Ry Cooder, um músico norte americano, descobriu o som deles. E decidiu reunir os sobreviventes para um CD e um documentário, dirigido pelo prestigiado Win Wenders. A reunião de antigos companheiros, vários deles com mais de 90 anos, é emocionante. E o som por eles produzido, mais emocionante ainda. O CD é imperdível e o documentário é indispensável.

No dia certo, na hora certa, eu estava na fila de entrada. É difícil explicar um auditório para 10 mil pessoas. O maior que eu havia visto tinha sido o Radio City Music Hall, em Nova Iorque, para 6 mil pessoas. O palco, simples. Todos os instrumentos colocados na formação clássica de uma grande banda de jazz, com uns 20 ou 30 músicos. Entrou a banda. O som inebriante, dançante, espetacular. E aos poucos, chegam os integrantes principais. Com 70, 80, 90 anos de idade.

O público delirava a cada acorde, a cada solo.

Lá pelas tantas, todos se retiram, permanecendo apenas Omara Portuondo, com seus 60 e poucos anos, e o pianista. Omara diz o nome da canção que iriam tocar: Besame Mucho.

Eu fiquei decepcionado. Já ouvi essa canção tantas vezes e de tantas maneiras, que aquilo não seria novidade. Ledo engano.

– Besame, besame muuuchooo. Como se fuera esta noche la última vez.

Omara cantava e o pianista detonava em sua mistura de bolero com jazz. Era inacreditável. E aconteceu ali algo que eu só tinha experimentado num show de João Bosco, muitos anos antes. A troca de olhares entre o pianista e a cantora, os movimentos corporais de cada um, a forma como a melodia tomava conta do ambiente… eu tive a nítida impressão que o pianista começou a levitar, como que acompanhando a fluência da música.

Percebia-se no ar que aquelas 10 mil pessoas assistiam a um momento sublime, quando homem, mulher, piano, microfone, palco e público se transformam numa coisa só, uma massa viva que preenche todos os cantos do ambiente. E nos elevam a alma, os sentidos.

Deleite.

Sem ninguém gritando. Sem sangue. Sem palavrões. Sem gente pelada. Sem violência. Só poesia e música produzida por velhinhos, alguns quase centenários, como aquela anciã que apanhava na TV…

Desde então meu CD do Buena Vista Social Club ganhou outro sentido.

Os anciãos cubanos me deram prazer. A anciã brasileira, me deu pena. E me fez refletir sobre a minha velhice. Para que lado estou indo? Como estou me preparando? O que estarei produzindo aos 80, 90 anos? Prazer como os cubanos? Ou dor como a velhinha que apanhava? Não sei.

É essa reflexão que deixo a você como um voto de feliz Natal.

 

Aqui o CD completo:

Aqui Omara Portuondo com Besame Mucho e outro pianista, mas sem repetir a magica que vi na Cidade do México 20 anos atrás: