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RESSENTIMENTOS PASSIVOS


Ouvi Soninha Francine, ex-vj da MTV que hoje é vereadora, explicando a razão de escolher a carreira política. Soninha disse que, preocupada em cumprir um papel social, fazia parte de um grupo que dava aulas de teatro para crianças em favelas. E achava legal. Mas quando as crianças terminavam a atividade e voltavam para casa, continuavam ameaçadas pela pobreza, pela violência e pelo tráfico de drogas. A sensação de que seu trabalho social não rendia fez Soninha ingressar na política. Como vereadora ela teria mais poder e capacidade de influenciar na criação e na revisão das leis e normas que causam impacto na sociedade.
Pois é. Soninha sabe que está se metendo no meio de cobras e que a imagem dos políticos nunca esteve tão por baixo. Mas também sabe que, de fora, o máximo que conseguiria fazer seria expor seus ressentimentos passivos. Ressentimentos passivos.
Você também é mais um (ou uma) dos que preenchem seu tempo com ressentimentos passivos? Conhece gente assim? Pois é. O Brasil tem milhões de brasileiros que gastam sua energia distribuindo ressentimentos passivos. Olham o escândalo na televisão e exclamam “que horror”. Sabem do roubo do político e exclamam “que vergonha”. Vêem a fila de aposentados ao sol e exclamam “que absurdo”. Assistem a quase pornografia no programa dominical de televisão e dizem “que baixaria”. Assustam-se com os ataques dos criminosos e choram ”que medo”. E pronto!
Pois acho que precisamos de uma transição “nestepaíz”. Do ressentimento passivo à participação ativa. A minha transição começou quando li num texto de Érico Veríssimo um trecho delicioso:

…”o menos que um escritor pode fazer, numa  época de atrocidades como a nossa, é acender a sua lâmpada, fazer luz sobre a  realidade de seu mundo, evitando que sobre ele caia a escuridão, propícia aos  ladrões, aos assassinos e aos tiranos. Sim, segurar a lâmpada, a despeito da náusea e  do horror. Se não tivermos uma lâmpada elétrica, acendamos o nosso toco de  vela ou, em último caso, risquemos  fósforos repetidamente, como sinal de  que não desertamos nosso posto.”

E tudo ficou mais fácil quando entendi que não preciso mudar a vida de 180 milhões de brasileiros. Basta começar mudando a vida de um. Veio daí a motivação para lançar meus textos na internet, manter meus sites, escrever e distribuir meus livros, fazer minhas palestras, meus comentários em rádio e tudo que ainda vem por aí. Não sei se provoquei alguma mudança em alguém. Mas acredito que estou cumprindo um papel. Homeopático, pequenino e simples. Pra mim, relevante. Tem gente que escreve me chamando de ególatra, metido e elitista. Para essas pessoas, eu incomodaria menos se permanecesse confortavelmente usufruindo da vida de executivo de uma multinacional, pacatamente curtindo meus ressentimentos passivos. É uma opção. Mas acho que sou parecido com a Soninha, sem a coragem dela. Ela comprou a briga. Virou vereadora, meteu os pés num ambiente recheado de lama. Incomoda-se, ouve abobrinhas, sofre com os conchavos e, se bobear, é ofendida na rua. Mas ela sabe que uma idéia sua bem implantada muda a vida de milhares de brasileiros.
Soninha encontrou um jeito de mudar o mundo, mudando o sistema. De dentro.
Soninha escolheu participar ativamente.
Quem mais tem a coragem dela?