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Sobre fascismo e a arte de comer picanha

Sobre fascismo e a arte de comer picanha

Luciano Pires -

Após uma sequencia de posts que publiquei no Facebook, onde fui criticado por causa da origem ou dos autores dos comentários que compartilhei, acho que tá na hora de rever um texto que que escrevi em 2013 e que está em meu livro Me Engana Que Eu Gosto.
Escrevi um artigo recente sobre uma onda de escritores de tendência liberal, conservadora, progressista-arrependida e outros que, na contramão do pensamento esquerdista que domina amplos setores da sociedade, vêm trazendo diversidade às discussões. Como era de se esperar, tomei bordoadas, a maioria vinda de gente que não consegue conviver com quem pensa diferente. Nada de novo, portanto.

Além do discurso ensaiado que rotula os não-progressistas de semeadores do ódio, fascistas ou coisa parecida, o adjetivo ““exagerado”” apareceu com frequência. Também não foi a primeira vez. Sempre que menciono um desses autores não-progressistas em meus textos e programas, aparece alguém dizendo que detesta o fulano, que é um idiota e que exagera nos argumentos, xingamentos e quetais.

Mas a coisa não tem uma só mão. Recentemente, depois de publicar uma frase de Mao Tsé Tung em minha página no Facebook, fui duramente criticado por dar espaço a esse monstro. E quando publiquei uma de Adolf Hitler? Vixe…

Bem, aí é que vem a arte de comer picanha.

Para começar, farei uma afirmação politicamente incorreta que escandalizará muita gente. É quase uma confissão de culpa: eu adoro picanha. E foi comendo picanha que aprendi a ler os autores “exagerados”, de direita, de centro, de esquerda, de cima e de baixo.

Quando vou a uma churrascaria e o garçom chega com a picanha, ajudo a pegar o pedaço, coloco no prato e imediatamente corto fora o excesso de gordura, com capricho. Tem gente que jura que é a melhor parte que eu jogo fora, mas não dá, desde criança não suporto gordura na carne. Não desce… Deixo só um pouquinho da gordura mais tostada, mas corto fora 95%, o excesso, e fico com o miolo suculento. Hummmm…

Com os autores que leio, ouço ou vejo, faço a mesma coisa. Pego a picanha que eles oferecem, lambo os beiços e corto fora o excesso de gordura. Relevo os exageros, passo por cima dos xingamentos, contorno os ódios ou qualquer manifestação de intolerância ou fundamentalismo e vou no miolo, no que realmente interessa. Um argumento precioso, um ponto de vista original, uma indicação de autor desconhecido, uma informação escondida, o nome de um livro que abre horizontes, um site ou blog que me leve a descobrir novos conteúdos, um filme, peça de teatro ou música que corra por fora das listas dos dez mais e que são deliciosos… Tudo isso está lá, no meio da picanha gordurosa. Se eu desistir de comer a picanha por causa da gordura perderei acesso a todas essas descobertas, entendeu?

Por isso trafego tranquilamente em meio a autores de todas as inclinações políticas, ideológicas, sexuais, futebolísticas e carnavalescas e quase sempre descubro algo que vale a pena. Até mesmo com certos esquerdistas hidrófobos que leem uma coisa e entendem outra.

Por isso recomendo: antes de dizer “não comi e não gostei” ou “não leio esse idiota”, faça uma experiência: tire o excesso de gordura. Você pode ter uma surpresa deliciosa.

Mas nem sempre dá certo, viu? Tem uns aí que, se tirar a gordura, sobra nada.