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III Festival internacional da canção

III Festival internacional da canção

Luciano Pires -

O Festival Internacional da Canção foi um concurso de músicas nacionais e estrangeiras, anual, realizado no ginásio do Maracanazinho, no Rio de Janeiro, e transmitido pela TV Rio (primeira edição) e pela TV Globo. A música de abertura era composta por Erlon Chaves e chamava-se Hino do FIC. O apresentador oficial era Hilton Gomes. O prêmio Galo de Ouro foi desenhado por Ziraldo e confeccionado pela joalheria H.Stern.

Criado por Augusto Marzagão, durou de 1966 a 1972 (sete festivais). Cada um tinha duas fases: a nacional, para escolher a melhor canção brasileira, e a internacional, para eleger a melhor canção de todos os países participantes — a concorrente brasileira era a vencedora da fase nacional.

O ano de 1968 foi um dos mais convulsivos do século XX. Os estudantes foram para as ruas em diversas capitais. No Brasil, Rio de Janeiro e São Paulo se transformam em um barril de pólvora.

O assassinato do estudante Edson Luis, no restaurante Calabouço no Rio, leva uma multidão ao enterro. Ao longo do ano, ocorre a famosa passeata dos cem mil, que contou com a presença de Chico Buarque, Gilberto Gil, Caetano e diversas personalidades importantes. Em julho, os atores da peça “Roda Viva”, montada por José Celso Martinez Correia são espancado pelo Comando de Caça aos Comunistas. Alguns setores da ditadura militar, que estava no poder desde 1964, preparavam um endurecimento do regime. No final do ano, um discurso do deputado Márcio Moreira Alves pregando um boicote às comemorações da independência é usado para criar um clima desequilibrado no congresso. Nesse clima, os setores radicais ganham força e conseguem implementar Ato Institucional nº. 5 (AI – 5). Começava um período negro de prisões arbitrárias, torturas, censura prévia, exílio e muita truculência, que duraria mais de uma década.

O III Festival Internacional da Canção (FIC) estava programado para começar em setembro e, neste ano, haveria uma novidade: as eliminatórias seriam disputadas em São Paulo, Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Paraná e Rio Grande do Sul, além do Rio de Janeiro. O ambiente não poderia ser mais explosivo: além da panela de pressão política, o III Festival da Record, no ano anterior, havia acendido um pavio chamado Tropicalismo.

Meses depois, Caetano e Gil seriam presos e exilados e, segundo o maestro Julio Medaglia, um “generalão de setecentas estrelas” surpreendeu Caetano com a seguinte frase: “vocês meninos com mania de querer fazer da realidade uma pasta informe, de unirem os valores, não deixarem os valores permanecerem em pé, vocês estão agindo de uma das formas mais modernas de subversão, talvez a única.”
E foi justamente Caetano quem protagonizou um dos momentos mais fortes desse festival. Inspirado em uma frase pichada em um muro na França que dizia “É proibido proibir”, ele escreveu sua canção e botou a frase como título.

Ao contrário do que acontecera no III Festival da Record em 1967 – quando entrou vaiado por “Alegria, Alegria” e saiu ovacionado – Caetano recebeu aplausos do público paulista que assistia à primeira semifinal. Mas ele não estava ali para desfrutar de um sucesso conquistado no ano anterior e repetir a fórmula que deu certo. Trazia novos elementos provocadores: vestia um colete prateado por cima de uma camisa de plástico, usava colares de fios elétricos; acompanhado pelos Mutantes, atacou minutos de distorções sonoras, ruídos, barulhos instrumentais. Quase ao final, um americano grandalhão, chamado John Dandurand, subiu ao palco e soltou berros e frases desconexas improvisadas ao microfone. Dessa vez, o público não gostou. Mesmo sendo vaiada, “É Proibido Proibir” foi uma das classificadas.

Na segunda semifinal paulista, Gilberto Gil também provocou com “Questão de Ordem”. O livro “Era dos Festivais – Uma Parábola” do historiador e Zuza Homem de Mello, descreve o que ocorreu: “tendo composto uma canção convencional em termos de harmonia e melodia, em ritmo de marchinha, e que provavelmente não despertaria controvérsias, Gil resolveu desconstruí-la, aproximando a interpretação dos maneirismos vocais de Jimi Hendrix, trocando a poesia cantada por um canto esdrúxulo, seguido de gemidos, ganidos e cacofonias”. Gil foi vaiado, tachado por “se entregar à música americana” e, pra piorar, sua música não foi sequer classificada.

Mas o pior ainda estava por vir. Na condição de classificado, Caetano teve que reapresentar sua canção para aquele furiosa plateia de estudantes na final paulista que ia definir as músicas que iam disputar a final nacional no Maracanãzinho. As vaias já apareceram quando seu nome foi anunciado. Caetano provocou ainda mais a plateia com movimentos de quadril que simulavam o ato sexual. As vaias aumentaram e vieram acompanhadas de urros, gritos cheios de ódio e gestos obscenos em direção ao palco.

Uma parte da plateia virou de costas para a apresentação e, como resposta, Os Mutantes viraram de costas para o público. A hostilidade chegou em um nível insuportável e Caetano, furioso, disparou um célebre discurso aos berros:

“Mas é isso que é a juventude que diz que quer tomar o poder? Vocês têm coragem de aplaudir este ano uma música que vocês não teriam coragem de aplaudir no ano passado; são a mesma juventude que vai sempre, sempre, matar amanhã o velhote inimigo que morreu ontem! Vocês não estão entendendo nada, nada, nada, absolutamente nada. Hoje não tem Fernando Pessoa! Eu hoje vim dizer aqui que quem teve coragem de assumir a estrutura do festival, não com o medo que sr. Chico de Assis pediu, mas com a coragem, quem teve essa coragem de assumir essa estrutura e fazê-la explodir foi Gilberto Gil e fui eu. Vocês estão por fora! Vocês não dão pra entender. Mas que juventude é essa, que juventude é essa? Vocês jamais conterão ninguém! Vocês são iguais sabe a quem? São iguais sabe a quem? – tem som no microfone? – Àqueles que foram ao Roda Viva e espancaram os atores. Vocês não diferem em nada deles, vocês não diferem em nada! E por falar nisso, viva Cacilda Becker! Viva Cacilda Becker! Eu tinha me comprometido em dar esse “viva” aqui, não tem nada a ver com vocês. O problema é o seguinte: vocês estão querendo policiar a música brasileira.
O Maranhão (“Maranhão” era o apelido do compositor Francisco Fuzzetti) apresentou esse ano uma música com arranjo de charleston, sabem o que foi? Foi a “Gabriela” do ano passado que ele não teve coragem de, no ano passado, apresentar, por ser americana. Mas eu e Gil abrimos o caminho, o que é que vocês querem? Eu vim aqui pra acabar com isso. Eu quero dizer ao júri: me desclassifique! Eu não tenho nada a ver com isso! Nada a ver com isso! Gilberto Gil! Gilberto Gil está comigo pra acabarmos com o festival e com toda a imbecilidade que reina no Brasil. Acabar com isso tudo de uma vez! Nós só entramos em festival pra isso, não é Gil? Não fingimos que desconhecemos o que seja festival, não. Ninguém nunca me ouviu falar assim. Sabe como é? Nós, eu e ele, tivemos a coragem de entrar em todas as estruturas e sair de todas. E vocês? E vocês? Se vocês em política forem como são em estética, estamos feitos! Me desclassifiquem junto com Gil! Junto com ele, tá entendendo? O júri é muito simpático mas é incompetente. Deus está solto! [Aqui, Caetano canta trecho de “É proibido Proibir”] Fora do tom, sem melodia. Como é juri? Não aceitaram? Desqualificaram a melodia de Gilberto Gil e ficaram por fora! Juro que o Gil fundiu a cuca de vocês. Chega!”

Quarenta anos depois do III FIC, Caetano comenta seu discurso: “fico tomado emocionalmente quando eu considero que o melhor na minha causa está sendo ameaçado de uma maneira injusta, vulgar ou grosseira. Algo de precioso pode estar sendo agredido e eu me sinto instado a reagir. Aí eu reajo com muita fúria. É assim. Mas eu perco e na hora eu lucidamente penso: eu tenho o direito de perder o controle e ficar agressivo ao máximo. E eu tenho uma agressividade verbal muito gande quando isso acontece. Fora isso, não. Fora isso eu sou muito afável. O próprio João Gilberto uma vez disse assim: ‘a música brasileira se atrasa muito porque Caetano é bonzinho demais”.

Mesmo com todos esses incríveis acontecimentos, o júri surpreendeu a todos e decidiu classificar a música para a final no Maracanãzinho. Caetano havia dito, depois do inflamado discurso, que nunca mais participaria de um festival. Após alguns dias de expectativa, manteve a promessa e abriu mão de sua participação. Declarou que estava mais interessado na repercussão de “Divino, Maravilhoso” (Caetano Veloso / Gilberto Gil), que foi defendida por Gal Costa no festival da Record no mesmo ano, e na produção de seu novo disco. Mas, na verdade, pouco se podia acrescentar à “Proibido Proibir” após o clímax na final paulista.

E foi dessa mesma final paulista que surgiria uma das músicas mais intensas contra a ditadura. Millôr Fernandes a classificou como “a nossa marselhesa”. Não era pra menos. Com apenas dois acordes e acompanhado apenas de seu violão, Geraldo Vandré acertava em cheio em versos como “Há soldados armados, amados ou não / Quase todos perdidos com armas na mão / Nos quartéis lhes ensinam uma triste lição / De morrer pela pátria e viver sem razão / Vem, vamos embora, que esperar não é saber / Quem sabe, faz a hora, não espera acontecer”. Até hoje, “Pra Não Dizer que Não Falei de Flores” (Geraldo Vandré) pode ser ouvida em manifestações políticas pelo Brasil.

A canção foi classificada e Vandré iria defendê-la diante de um Maracanãzinho lotado. O evento teria transmissão ao vivo para todo o país. “Pra Não Dizer que Não Falei de Flores” estava na boca de todos e era defendida apaixonadamente. Era um pavio aceso contra a ditadura militar. A direção da TV Globo foi pressionada: os coronéis impuseram que Vandré não poderia ganhar. Walter Clark, diretor da Globo, optou por correr o risco e não levou o recado aos jurados. O pavio continuava queimando…

http://va.mu/FlSm – A era dos festivais – 1968

http://pt.wikipedia.org/wiki/Festival_Internacional_da_Canção

http://va.mu/FlSx – Festival Internacional da canção – Memória Globo

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