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Luiz Alberto Machado - Iscas Econômicas -

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Iniciei a semana indo ao cinema – coisa rara desde a pandemia – para assistir ao filme O Sequestro do Voo 375, que me havia sido indicado por Andrea Matarazzo. Trata-se de um filme baseado em fatos reais, ocorridos no Brasil em 1988, quando um maranhense desempregado sequestra um avião da Vasp com o objetivo de derrubá-lo no Palácio do Planalto, a fim de matar o então presidente José Sarney por não cumprir suas promessas de promover o crescimento e reduzir o desemprego.

Independentemente da boa qualidade do filme e excelente desempenho dos principais atores, dois fatores me despertaram a atenção: o primeiro diz respeito ao fato de não me lembrar do episódio que, pelo que o próprio filme mostra, foi noticiado por importantes veículos da imprensa; o segundo remete à lembrança do contexto da época, em que o primeiro governo de um presidente civil, depois de 21 anos de governos militares, enfrentava sérias dificuldades por não conseguir retomar o crescimento e, principalmente, eliminar a inflação, em que pese a sucessão de pacotes econômicos adotados exatamente com esse objetivo[1].

Como cidadão e economista que procura acompanhar a trajetória político-econômica do Brasil, é impossível não pensar no contraste dos dois contextos: o daquela época, marcado por uma combinação de insatisfação generalizada com a situação econômica e perceptível frustração com os primeiros passos da chamada Nova República; e o atual, caracterizado por uma série de avanços, ainda que persistam questões até agora não resolvidas como a má distribuição da renda, a deficiente educação e problemas de segurança em diversos pontos do País.

Contudo, as conquistas desse período são inegáveis, a começar pela que considero a principal delas, a estabilidade econômica, propiciada pelo Plano Real. A partir desse momento, os brasileiros passaram a conviver com taxas de inflação civilizadas, próximas às dos países mais desenvolvidos. Os maiores beneficiários foram os menos favorecidos, que são os mais prejudicados pelo imposto inflacionário. Juntamente com a defesa da democracia, a estabilidade passou a se constituir num valor abraçado pela sociedade, de tal forma que não há candidato a qualquer cargo eletivo que defenda abertamente a volta da inflação como meio de acelerar o crescimento econômico. Não é por outra razão que acredito que os 30 anos do Plano Real, a serem comemorados no ano que vem, merecem amplo reconhecimento.

Aos que se surpreendem com o tom positivo deste comentário, relembro alguns fatos que o justificam: chegamos ao final de 2023 com um crescimento econômico que, embora esteja abaixo do nosso potencial, será muito superior ao previsto no final de 2022, quando a taxa de crescimento esperada pelo Boletim Focus para 2023 era de 0,79%[2]; continuamos com uma taxa de inflação bastante razoável para os nossos padrões, próxima à meta estipulada pelo Banco Central, que hoje goza de uma autonomia impensável décadas atrás; a taxa básica de juros – a Selic – vem sendo reduzida sistematicamente, embora permaneça entre as mais altas do mundo; o dólar está abaixo dos R$ 5,00, sinal de fortalecimento da moeda nacional; as reservas internacionais nos garantem uma tranquilidade invejada por muitos outros países; o índice Ibovespa está em seu pico histórico; apesar das marchas e contramarchas, conseguimos aprovar nos últimos governos as reformas trabalhista, previdenciária e tributária, além de melhoras consideráveis no plano político  decorrentes da implantação e aumento gradativo da cláusula de barreira; e, para completar, fomos surpreendidos com a melhora da nota de crédito do Brasil anunciada pela Standard & Poor’s, uma das três maiores agências internacionais de classificação de risco.

A manutenção dessa tendência positiva não permite retrocessos nem relaxamento, o que exige de todos nós especial atenção aos próximos passos de nossos governantes, principalmente no que se refere ao controle dos gastos públicos, que permanecem como um fantasma a ameaçar a estabilidade econômica tão duramente conseguida.

Iscas para ir mais fundo no assunto 

Referências bibliográficas 

O QUINQUÊNIO dos “pacotes”. in Notas: avaliação de projetos de lei. Rio de Janeiro: Instituto Liberal, 1993, pp. 31 – 40.

SCHUETTINGER, Robert Lindsay. Quarenta séculos de controles de preços e salários: o que não se deve fazer no combate à inflação. Tradução de Anna Maria Capovilla. São Paulo: Visão, 1988.

Referência cinematográfica 

O Sequestro do Voo 375

Direção: Marcus Baldini

Roteiro: Lusa Silvestre, Mikael de Albuquerque

Elenco: Jorge Paz, Danilo Grangheia, Roberta Gualda e outros

Gênero: Drama

Distribuidora: Disney

Duração: 100 minutos

Estreia: 7 de dezembro de 2023

[1] De fevereiro de 1986, quando foi implementado o Plano Cruzado I, até fevereiro de 1991, quando foi adotado o Plano Collor II, tivemos uma sucessão de planos heterodoxos para combater a inflação, incluindo o Plano Cruzado II (novembro de 1986), o Plano Bresser (junho de 1987), o Plano Verão (janeiro de 1989) e o Plano Collor I (março de 1990). Nenhum deles conseguiu atingir o objetivo, a não ser por períodos cada vez mais efêmeros. A opção pelo uso de artificialismos como congelamento e/ou tabelamento de preços e salários e o não enfrentamento das causas reais da inflação deixaram uma herança verdadeiramente maldita: passado o efeito temporário das medidas artificiais, a inflação retornava com redobrado vigor.

[2] Boletim Focus de 16 de dezembro de 2022. Disponível em https://www.bcb.gov.br/content/focus/focus/R20221216.pdf.

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