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Luiz Alberto Machado - Iscas Econômicas -

Em visita recente, admiração que sinto por nosso vizinho ficou acompanhada de uma enorme dose de preocupação com a situação econômica do país, que transmite uma sensação de insegurança e instabilidade, que compartilho com os amigos internautas em seis fotogramas.

Ladeira abaixo

“Não se pode dirigir a economia
se não há estatísticas adequadas,”
Joseph Stiglitz

Antecipando em uma semana o Dia das Mães, presenteei minha mulher com um fim de semana em Buenos Aires, cidade que tanto ela como eu aprendemos a admirar em diversas visitas anteriores.

A admiração pela cidade segue intacta, apesar da enorme quantidade de obras em curso, que dificultam um pouco a locomoção, mas que, quando estiverem concluídas, deverão fazer com que a capital argentina fique ainda mais agradável.

A admiração, no entanto, ficou acompanhada de uma enorme dose de preocupação com a situação econômica do país, que transmite uma sensação de insegurança e instabilidade, que compartilho com os amigos internautas em seis fotogramas.


Já que a ideia era dar um presente à minha esposa, nada como fazê-lo em grande estilo. De surpresa, fiz reserva no Alvear, o mais tradicional hotel de Buenos Aires e contratei um motorista para nos pegar no aeroporto e nos levar até o hotel. Conversando com o referido motorista ao longo do trajeto, soube que ele foi durante boa parte de sua vida um pequeno produtor rural, tendo se mudado com a família para Buenos Aires cerca de dez anos atrás, quando então passou a se dedicar a esse trabalho.

Quando perguntamos a ele sobre a situação do país, ele nos disse que não tinha como provar, mas que seu sentimento – como a de muitos argentinos – é de que as coisas não vão nada bem, sem qualquer perspectiva de melhora no curto prazo.

Perguntamos, então, como estava o prestígio da presidente Cristina Kirchner e quando seriam as próximas eleições presidenciais, ao que ele respondeu que as próximas eleições serão só em 2015, mas que ele não acreditava que o governo chegaria até lá. Minha esposa, surpresa com a resposta, indagou: mas ela não tem grande popularidade?

A resposta foi: “Teve, chegando em torno de 50%; hoje, no entanto, não chega a 20% e não para de cair”. Mesmo aqueles que se beneficiaram com algumas medidas tomadas anteriormente, começam a perceber que os eventuais benefícios foram engolidos pelo agravamento da situação e pelas sucessivas denúncias de corrupção (extraordinariamente descritas pela jornalista Josefina Licitra na revista Piauí), passando a engrossar as hordas dos descontentes.


Entre minhas preferências na capital argentina estão os sapatos da Guido. Bonitos e confortáveis, sou fiel usuário, de tal forma que sua bela loja na rua Quintana é parada obrigatória em todas as minhas visitas à cidade. Lá chegando, experimentei vários modelos e perguntei se levando três pares eu teria algum desconto. O vendedor me informou que só quem poderia tratar esse assunto comigo seria o gerente da loja, mas me antecipou que se eu me dispusesse a pagar “en efectivo” seria muito provável que eu conseguisse. O gerente fez os cálculos e me apresentou a conta: no cartão, 609,71 dólares (3.140 pesos ao câmbio oficial de 5,15 pesos por dólar). Perguntei se haveria algum desconto se utilizasse o travelmoney, um cartão de débito em dólar. Resposta negativa. Perguntei então: e se eu para “en efectivo”, ou seja, em papel moeda em dólares. “Bueno, entonces considerando un cambio de 8,00 pesos y con un descuento adicional de 20% el precio es de 360 dólares”.

Sobre a disparidade entre o câmbio oficial e o paralelo, e diante da iminente chegada do paralelo à casa dos 10,00 pesos por dólar, os argentinos passaram a usar a expressão “Dólar Messi”.

Não foi possível deixar de lembrar um passado não muito distante em que tais coisas aconteciam também por aqui…


Uma das coisas que é possível constatar em conversas com qualquer argentino diz respeito à baixíssima credibilidade dos indicadores oficiais, em especial quando o assunto é a inflação local. Embora as autoridades governamentais afirmem que a inflação está sob controle e divulguem uma taxa determinada, a percepção geral é muito diferente. Segundo o Indec, o índice de preços de março subiu 0,7% e a variação anual foi de 10,6%. Segundo o Índice Congreso, foi de 1,54% e 24,43% respectivamente. Muitos argentinos garantem que mesmo esses números estão subdimensionados.

Matéria no La Nación de sábado, 4 de maio, trazia grave uma advertência de Joseph Stiglitz, ganhador do Prêmio Nobel de Economia de 2001 e ex-vice-presidente do Banco Mundial, feita numa conferência sobre liberdade de imprensa realizada na Universidade de Columbia, em Nova York: “No se puede dirigir la economía si no tenés estadísticas adecuadas. Es como conducir un auto sin podómetro. No querés hacer eso”.

Stiglitz, que é um dos economistas preferidos da presidente Cristina Kirchner, foi um dos participantes da conferência sobre Liberdade de Imprensa e democracia na América Latina, que se realizou na Escola de Jornalismo da Universidade de Columbia, no Dia Mundial da Liberdade de Imprensa. Na coletiva que se seguiu à sua palestra, ao ser perguntado sobre a Argentina, Stiglitz disse que a última vez que viu a presidente Cristina Kirchner foi há um ano e meio e que falou muito pouco de inflação. “Ela não está muito interessada em falar disso”, disse com um sorriso.


 

O agravamento da situação econômica tem provocado uma crescente discórdia entre economistas ligados ao governo, sendo possível identificar pelo menos três setores internos que propõem soluções distintas, porém a presidente não se define por nenhum.

Hernán Lorenzino, ministro da Economia e o vice-presidente Amado Boudou, encabeçam a ala mais ortodoxa, defendendo o aumento do corte de subsídios, a flutuação administrada do dólar oficial – sem desvalorizar – e o impedimento de dispensas mediante concessão de auxílio às empresas.

De outro lado, estão os heterodoxos, divididos entre o vice-ministro da Economia, Axel Kicillof, e o secretário de Comércio Interior, Guillermo Moreno.

Enquanto o vice-ministro da Economia, Axel Kicillof, defende maiores intervenções, controle dos lucros das empresas e o desdobramento do mercado cambial, uma medida quase descartada, o secretário de Comércio Interior, Guillermo Moreno, propõe mais intervenção no mercado de câmbio, pressão impositiva sobre setores concentrados e um freio às importações.

Tais indefinições, que em nada contribuem para atenuar as dificuldades, estão levando, como não poderia deixar de acontecer, a um crescente desentendimento na área política. Nessa seara, não bastassem as críticas dos partidos de oposição, a presidente Cristina Kirchner vê com enorme preocupação o distanciamento entre o chamado kirchnerismo puro, que carece de um candidato forte, e o peronismo, que esteve até agora alinhado com o kirchnerismo.


No caderno de Economia e Negócios do domingo, 5 de agosto, a principal manchete do La Nación foi Um sócio em retirada, referindo-se à fuga de investimentos brasileiros, depois de um período relativamente longo em que a Argentina se constituiu numa das principais opções de inversão por parte das empresas brasileiras.

A acumulação de vários anos de inflação elevada e um encarecimento dos custos em dólares, entre outras variáveis, fizeram com que as empresas brasileiras começassem a sair da Argentina.

Muito bem descrito por Alessandro Rebossio, o fenômeno foi assim noticiado:

Los matrimonios siempre tienen sus crisis. Algunos las superan, otros no. El enamoramiento de las empresas brasileñas por activos en la Argentina comenzó cuando éstos se habían abaratado tras la devaluación de 2002. En aquel tempo sólo los empresarios brasileños, más curtidos en colapsos económicos, se atrevían a venir al país, a diferencia de europeos y norteamericanos. Pero ahora comparten con ellos la misma actitud de cautela. […] Pero en 2012 la convivencia se desgató. La acumulación de varios años de alta inflación y un encarecimiento de los costos en dólares, la ampliación del llamado cepo cambiario, con la imposibilidad de que las compañías extranjeras giren a sus casas matrices las utilidades, los honorarios o las regalías por uso de patentes o marcas, la mayor brecha entre el dólar oficial y del contado con liqui (mecanismo legal de entrada y salida de dólares mediante la compraventa de bonos e acciones argentinas que cotizan afuera) cambiaron el humor de los empresarios brasileños sobre la Argentina.

 


 

 

Como não poderia deixar de ser, o agravamento da situação tem reflexos em diversos segmentos da economia. Para não se estender muito, limito-me a apenas dois deles, o imobiliário e o turístico. No primeiro, houve uma queda de 41,3% em Buenos Aires no primeiro trimestre. Trata-se de uma das consequências da proibição de compra de dólares, que é a moeda com a qual se comercializam há quase 40 anos as propriedades de classes médias e altas em toda a Argentina. Isto explica o enorme número de placas de vende-se e aluga-se em imóveis nas redondezas da tradicional região de La Recoleta. No segundo, houve uma redução da chegada de turistas por via aérea da ordem de 12,4% em janeiro e 14,9% em fevereiro. A saída de argentinos ao exterior pela mesma via cresceu 5,3% em janeiro e se estancou em fevereiro (-0,6). De acordo com Alejandro Rebossio, “estes dados mostram que os cidadãos locais consideram que a taxa de câmbio oficial deixa mais baratos os bens e serviços do exterior em relação aos próprios”.

Eu poderia acrescentar outros fotogramas para expandir esta visão panorâmica do grave quadro enfrentado pela Argentina, entre os quais merece destaque a constante ameaça à liberdade de imprensa. Creio, no entanto, que dadas as características destasIscas Intelectuais, os seis fotogramas aqui registrados já são suficientes.

Apesar de todos esses problemas, andar pelas ruas de Buenos Aires continua permitindo ao bom observador constatar, nos pequenos detalhes, o orgulho característico do povo argentino. Alguns sinais disso são os outdoors espalhados por toda parte com o ídolo Lionel Messi, as bandeiras da Argentina e do Vaticano exibidas nas janelas de inúmeros prédios e as capas de todas as revistas semanais exibidas nas bancas de jornal com as fotos da coroação da rainha Máxima, recém-ocorrida na Holanda.

Diante disso, não resisti a um comentário com minha mulher: “Eles têm o Papa, o Messi e agora a rainha Máxima… Mas também têm a Cristina. E, para azar deles, os três primeiros vivem fora da Argentina!”


Iscas para ir mais fundo no assunto

AGUINIS, Marcos. ¡Pobre patria mía!: Panfleto. 9ª ed. Buenos Aires: Sudameris, 2009.

______________ O atroz encanto de ser argentino. São Paulo: Editora Bei, 2002.

GONÇALVES, José Botafogo e PEÑA, Félix (Coordenadores). Brasil e Argentina 2015: construindo uma visão compartilhada. Buenos Aires: Consejo Argentino para las Relaciones Internacionales (CARI)/Centro Brasileiro de Relações Internacionais (CEBRI)/Konrad-Adenauer-Stiftung, 2005.

LICITRA, Josefina. O povoado dos KirchnerPiauí, 7 de abril de 2013.

REBOSSIO, Alejandro. Un socio en retiradaLa Nación, 5 de mayo de 2013, Economía pp. 1-2.

REVISTA de Economia & Relações Internacionais. Edição especial com os textos das duas primeiras edições do Fórum Permanente de Diálogo Argentino-Brasileiro organizado pela Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP) e pelo Consejo Argentino para las Relaciones Internacionales (CARI). São Paulo, FAAP, volume 5, edição especial, 2006.

RUIZ, Rafael Malthus. Stiglitz advirtió sobre los riesgos de no tener estadísticas adecuadas.La Nación, 4 de mayo de 2013, Política, p. 16.

Referências e indicações webgráficas

REBOSSIO, Alejandro. Glossário para entender (um pouco) a política argentina. Infolatam. Buenos Aires, 22 de abril de 2013. Disponível emhttp://www.infolatam.com.br/2013/05/03/glossario-para-entender-um-pouco-a-politica-argentina

_______________ Quinze indicadores de como a economia argentina está. Infolatam. Buenos Aires, 7 de maio de 2013. Disponível emhttp://www.infolatam.com.br/2013/05/07/quinze-indicadores-de-como-a-economia-argentina-esta

 

 

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