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A dubladora

A dubladora

Chiquinho Rodrigues -

Eu e esta minha imensa boca estamos sempre nos metendo em grandes confusões simplesmente porque eu não penso antes de falar.

Te conto:

Tenho uma amiga que tem uma das profissões mais ingratas e menos reconhecidas aqui no Brasil, que é a de dubladora.

Francine Gebara (esse é o nome dela) é uma veterana nesse meio.

Já locutou centenas de spots para comerciais de Rádio e TV e já dublou milhares de filmes em quase todas as produtoras aqui se São Paulo.

Não vou dizer a idade dela por uma questão de cavalheirismo. Mas se formos somar só o tempo que ela gastou dublando choro em cenas de enterro, já deve dar só aí uns 25 anos de carreira (maldade, né?)

A Francine foi sempre meio camaleão!

Isto é: Ela costuma ser influenciada por qualquer tipo de ambiente, pessoas ou modismos que a rodeiam.

Já foi hippie, punk, funk, Hare krishna, budista, fez yoga, frequentou candomblé, mudou a casa toda depois que estudou feng shui, foi kardecista, andava com fotos do Chico Xavier e do Padre Marcelo na carteira, lavou várias vezes as escadas do Bonfim e vivia promovendo excursões até São Tomé das Letras para o povo que queria queimar unzinho e ver discos voadores.

Até aí nada de anormal em se tratando de uma amiga minha.

Mas o problema é que ultimamente ela tem andado com uma mania esquisita de perseguição.

Acabou me procurando porque sabe que conheço uma figura chamada Guadalupe que poderia talvez resolver o problema dela .

A Guadalupe é ainda mais maluca que a Francine!

Ultimamente a Lupe tem espalhado entre nossos amigos que em suas sessões de energias cósmicas e esotéricas (?) ela, além de receber “presenças” de espíritos de gente falecida, consegue receber também “presenças” de gente ainda viva e morando em outros países! (Porra! Era só fazer um interurbano!)

Mas nada é tão simples assim para nenhuma delas.

Minha amiga dubladora não quis me adiantar nada do seu problema e disse que só contaria na presença da Guadalupe.

E lá fomos nós.

Vou te poupar não contando os detalhes do lugar onde mora a Guadalupe. Principalmente da sala onde ela “recebe as presenças”.

A casa possui vários odores. Mas o que impera mesmo é o “cheiro de armação” que tem tudo aquilo.

Feita as apresentações, aceitamos o cafezinho, o suco e nos sentamos na penumbra em volta de uma mesa redonda. (básico,  né?)

Musiquinha new age de fundo… incenso aceso… barulhinho de água na fonte… aquela merda de sempre… e aí Francine Gebara começou a falar:

– Sabe gente, passei a vida toda dublando grandes atrizes. Vivendo a vida e o papel delas nos grandes filmes. Um trabalho árduo em que, além da interpretação transmitida só pela voz, você tem também que se preocupar com a labiática e as onomatopéias…

– Olhe, por favor – interrompeu a Guadalupe – sem palavras de baixo calão aqui neste recinto…

– Bom… – continuou Francine não acusando o golpe – Meu sonho sempre foi fazer um filme ou uma novela onde eu aparecesse de verdade — brilharam os olhos dela – Eu queria ser imagem e voz, uma estrela, uma pessoa por inteiro e meu nome aparecendo pela primeira vez nos créditos: Francine Gebara!

– Lindo sonho esse! – disse eu

– Pois é Chico, ontem acabei fazendo finalmente um teste para um pequeno papel em uma nova novela. O diretor de elenco disse que já me conhecia e que gostava muito da minha voz. Porém eu não tinha a “estampa adequada”– Que nada, mulher! – disse a Lupe – Você está inteiraça!

– Também me sinto assim Guadalupe – disse  minha amiga – mas o cara insinuou que se eu quisesse uma ponta na novela ele poderia descolar uma participação mediante  um “solo na sua flauta nervosa!”

– Que filho-da-puta! – disse a inconformada Lupe.

Francine concordou com a cabeça e continuou a história:

– Então eu dei um soco na cara dele – gesticulou ela – foi uma confusão! O pessoal separou a gente… Os seguranças apareceram pra me colocar pra fora da emissora e foi aí que ele disse uma coisa que mexeu com a minha vida!

– O que foi Francine? – Perguntei eu já com uma puta mijaneira de tanto ouvir o barulhinho de água escorrendo na porra daquela fonte.

– Ele me rogou uma praga, Chico… Disse que eu iria pagar bem caro por todas as vozes que eu roubei dessas atrizes durante todos esses anos!

– E você acreditou nisso, Francine? – perguntei

– Eu não Chico, claro! – me encarou ela – Mas hoje de manhã a Sandra Bullock não me deixou tomar direito o café da manhã!

– COMO É QUE É!? – em coro eu e a Guadalupe.

– Eu quis pedir mais umas torradas para minha empregada, mas só consegui dizer algumas falas em inglês da Sandra Bullock naquele horrível “Miss Simpatia” que dublei — disse Francine – e com a voz dela!

– O que é que você andou fumando, mulher? – Perguntou Guadalupe desconfiada.

– Tô te falando,  menina – continuou Francine – logo depois quando eu estava em frente ao espelho escovando os dentes, tentei chamar minha filha mas a voz que saiu foi da Nicole Kidman dizendo uma frase em inglês do seu personagem em “Os Outros”.

Achei que minha amiga tivesse pirado de vez.

Ela continuou:

– É um defeito intermitente, Chico, dá apenas quando está a fim. Não tenho o menor controle sobre isso. Quando peguei meu carro e fui agradecer o manobrista, a Cameron Dias balbuciou algumas frases em inglês do “Quem vai ficar com Mary”

– E o que eu posso fazer pra te ajudar? – inquiriu Guadalupe.

– Sei lá… No começo achei que isso fosse mesmo um feitiço que aquele diretor filho da puta tinha colocado em mim – falou Francine – mas agora acho que isso não tem nada a ver com ele e elas estão querendo me dizer alguma coisa.

– Isso merece uma sessão – disse a Guadalupe

Pronto! —  pensei eu com as pernas apertadinhas de tanta vontade de fazer xixi – Lá vai a Guadalupe esfolar a minha amiga dubladora.

– Vamos todos dar as mãos – disse a Lupe.

Demos as mãos e aí, depois de alguns minutos, começou a coisa mais estranha que eu já presenciei.

Depois daquele ritual que a gente já conhece nessas ocasiões, a Guadalupe começou a detectar umas “presenças” e aí a loucura começou…

A Lupe “recebia” e falava em inglês e a Francine traduzia  já dublado…

Ouvi pela boca da Guadalupe uma fala da Angelina Jolie em “Lara Croft” e logo na seqüência a Francine, como se estivesse em uma seção de dublagem, dizendo a seguinte frase dublada:

– Onde estamos?

Jennifer Lopez em “A Cela” saindo pela Lupe e despejado pela Francine:

– O que todas estamos fazendo aqui?

E o processo foi se repetindo…

A personagem de Jodie Foster em “Plano de Vôo” disse:

– Odiamos quando somos mal dubladas!

– É sim! – disse Erin Brockovich de Júlia Roberts – é uma bosta quando colocam vozes inadequadas em nossos personagens.

– Passamos horas tentando a tomada perfeita – ronronou Michelle Pefeiffer

– E aí vem a droga de um diretor de dublagem – disse Helen Hunt em “Melhor Impossível” – e arregimenta a porcaria de uma dubladora com voz horrível pra dublar a gente.

– xxxx! – Disse Madonna em todos os seus filmes.

– O que vocês querem de mim? – perguntou Francine, saindo do transe e sem dublar ninguém – porque não me deixam em paz? É alguma mensagem que estão querendo me passar? Me digam por favor! Nunca quis roubar a voz de ninguém… Só quero poder trabalhar!

Aí foi uma confusão de vozes, quando se podiam ouvir frases soltas de uma Salma Hayek… Ashley Judd… Kim Bassinger… Christina Apllegate… Jennifer Aniston… e muitas outras que foram sumindo até ficar uma só!

A voz que ficou era de uma mulher madura, serena e sensual.

Foi difícil de início reconhecer a dona dessa voz. Principalmente porque ela saía através da boca da Guadalupe e estava sendo falada em português com sotaque inglês..

Mas depois de algumas frases, deu para perceber.

Era a voz da Marilyn Monroe, que dizia:

– Francine querida. Olha… Só sendo uma atriz mesmo pra se saber o quanto é frustrante ver um filme seu dublado em uma língua estranha e com uma voz inadequada para aquele personagem que foi criado por você com tanto carinho.

(Francine ouvindo e babando…)

– Mas isso nada tem a ver com você, minha amiga – continuou a Marilyn para a Francine – pois nós todas estamos muito felizes por termos sido contempladas com essa dádiva! Ser dublada por uma voz tão linda como a sua é privilégio de poucas. E ter um talento como o seu a nosso favor, um orgulho incomparável!

(A baba da Francine já quase no umbigo…)

– Ontem ficamos morrendo de ódio quando vimos a atitude daquele canalha para com você. Esqueça essa história de ser atriz e continue sendo a dubladora maravilhosa que você é. Estamos aqui só para lhe dizer isso e já estamos indo.

– E embora seu nome nunca apareça nos créditos finais dos filmes em que você atua dublando, ele estará grafado para sempre em nossos corações, nossa querida Francine Gebara.

– Chico! – disse Francine – acho que vou chorar…

– E eu… dar uma mijada!

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