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A economia criativa no Brasil

A economia criativa no Brasil

Luiz Alberto Machado - Iscas Econômicas -

A economia criativa no Brasil 

Janela de oportunidade

“Os trabalhadores criativos vêm ganhando espaço,

ano após ano, no mercado de trabalho brasileiro”.

Guilherme Mercês

O Grande Recomeço

Em 2010, Richard Florida, um dos grandes gurus da economia criativa, publicou um livro cuja leitura me impressionou positivamente. Seu título, O grande recomeço. Seu instigante subtítulo, As mudanças no estilo de vida e de trabalho que podem levar à prosperidade pós-crise (Elsevier, 2010).

Nesse livro, o autor procura mostrar que a grave crise econômico-financeira que teve início no setor hipotecário dos Estados Unidos, alastrando-se depois para todo o mundo e que foi considerada por muitos analistas a mais grave desde a Grande Depressão da década de 1930, teve impacto devastador em algumas regiões dos Estados Unidos, historicamente ligadas a determinados segmentos tradicionais da indústria de transformação. A decadência dessas regiões – que em muitos casos já estava em curso há décadas – atingiu o clímax, deixando como consequência um cenário marcado pelo abandono, pela desvalorização imobiliária, pelo desemprego e pela falta de perspectiva para a população remanescente.

Poucos anos depois, no entanto, já era possível observar a ocorrência de um fenômeno interessante: o ressurgimento de algumas dessas regiões, com características bastante diferentes, tendo como traço comum a revitalização de antigas áreas industriais degradadas, agora ocupadas por atividades abrangidas pela economia criativa, tais como galerias, ateliers, escritórios de arquitetura e design, bibliotecas, centros culturais etc. Tal recuperação constitui-se num exemplo concreto do que o grande economista Joseph Schumpeter denominou de “destruição criativa”.

Imaginemos um paralelo.

Embora exista uma anedota dizendo que é mais fácil achar uma agulha no palheiro do que consenso entre economistas, observa-se atualmente uma razoável concordância entre boa parte deles no sentido de que as perspectivas no Brasil para 2015 são, no mínimo, preocupantes.

A combinação de baixo crescimento, inflação no teto da meta e elevada taxa de juros com a necessidade de ajustar preços há muito represados, como os de combustível e energia elétrica, apenas para dar dois exemplos, e ainda o desejo de ampliar os programas sociais constitui uma equação de difícil solução. Imaginar, portanto, que 2015 será um ano de plena recuperação, com resultados muito diferentes dos medíocres resultados obtidos nos últimos dois anos não passa de ilusão.

Talvez resida exatamente nesse particular a janela de oportunidade para que a economia criativa assuma um papel de maior relevância no Brasil, a exemplo do que já vem acontecendo em outros países, como o Reino Unido, ou em cidades como Barcelona, Bilbao, Austin e São Francisco, localidades em que a cultura e a criatividade são vistas como protagonistas e não consideradas marginais ou secundárias no plano macroeconômico. Infelizmente, encontramo-nos há anos luz dessa visão. A sensação que ainda se tem é que o termo mais parece uma caricatura, associado ao artesanato e confundido com políticas sociais populistas para populações de baixa renda ou para a inclusão de minorias.

Para que isso ocorra, entretanto, é necessário que haja uma acentuada mudança na mentalidade ainda dominante, como bem observou a professora Lídia Goldenstein em matéria publicada no Valor Econômico (03.12.2014): “Na economia voltamos para o debate antigo da inflação, do déficit externo, das contas públicas. Isso é importante, mas não podemos ficar paralisados. O País precisa conviver com um debate paralelo que toma conta do mundo: o papel transformador da cultura e a constatação de que o design e as artes fomentam a nova mão de obra nas cidades”.

Esse aspecto tem sido enfatizado também pelo gerente de Economia e Estatística do Sistema Firjan (Federação das Indústrias do Rio de Janeiro), Guilherme Mercês, que justifica a concentração dos avanços da economia criativa nos estados de São Paulo e Rio de Janeiro da seguinte forma: “Eu diria que a indústria criativa se desenvolve mais, tem maior protuberância nas economias mais desenvolvidas, que já deixaram de ser indústrias tipicamente clássicas e conseguem agregar valor e criatividade”.

Essa mudança de mentalidade é um desafio enorme, uma vez que prevalecem no Brasil intensos preconceitos entre, de um lado, artistas e designers, e, de outro, economistas e gestores públicos. É preciso uma união de forças para que haja uma renovação de ideias, em que o velho dê lugar ao novo. Caso contrário, como registrou Belchior de forma genial: “Minha dor é perceber/ Que apesar de termos feito tudo/ Tudo o que fizemos/ Ainda somos os mesmos e vivemos/ Ainda somos os mesmos e vivemos/Como nossos pais”.

Ainda de acordo com Lídia Goldenstein, que chegou a ser ridicularizada por colegas economistas quando começou a atuar com a área da economia criativa (“Coitada da Lídia, agora mexe com design”), está mais do que na hora de se tomar consciência da relevância que a economia criativa pode ter na economia como um todo e como parte integrante indispensável do planejamento urbano. “Afinal, se a economia faz a cidade girar, é mais do que urgente entender que a arte e a cultura são parte disso”. É preciso uma estratégia, um planejamento que articule aspectos econômicos e urbanísticos e que se caracterize pela continuidade, muito diferente do que se observa em nosso país, ainda prejudicado pela descontinuidade administrativa decorrente da alternância no poder nas três esferas, federal, estadual e municipal. “Estamos no século XXI e não solucionamos os problemas do velho paradigma, acumulados desde o início da industrialização: educação, distribuição de renda, saneamento, moradia, transporte público. Um museu Bilbao em cada lugar não é a solução. A Sala São Paulo e a Pinacoteca, em plena cracolândia, são exemplos de iniciativas isoladas que não tiveram impacto no entorno. Se muitos países tornaram os investimentos em cultura prioritários, não é porque os políticos são bonzinhos, mas porque o seu papel passou a ser estratégico. Precisamos pensar a cultura, a arte, o design e a ciência da computação como grandes negócios, como formadores de mão de obra e de consumidores”.

Uma notícia divulgada no finalzinho de 2014 trouxe uma luz. Contrastando com a esmagadora maioria de dados estatísticos desanimadores publicados por instituições públicas e privadas, a Firjan divulgou um estudo com dados auspiciosos: o nível de emprego na economia criativa cresceu 90% de 2004 a 2013, contra 56% no mercado de trabalho em geral; os salários da indústria criativa chegam a quase três vezes a média brasileira; o setor criativo apresentou crescimento de 69,1% na última década no número de empresas criativas, que somaram 251 mil estabelecimentos, no ano passado; no espaço de dez anos, o PIB total da indústria criativa cresceu 69,8% em termos reais, salientou Guilherme Mercês. Em igual período, o PIB brasileiro aumentou 36,4%.

Esses números são contundentes, pois revelam que apesar de todas as dificuldades já mencionadas, a economia criativa vem apresentando um desempenho bastante satisfatório. Resta torcer para que, com condições mais favoráveis, esse desempenho seja ainda melhor!

 

Iscas para ir mais fundo no assunto

Referências e indicações bibliográficas 

FLORIDA, Richard. A ascensão da classe criativa. Tradução de Ana Luiza Lopes. São Paulo: LP&M, 2011.

_______________ O grande recomeço: as mudanças no estilo de vida e de trabalho que podem levar à prosperidade pós-crise. Tradução de Maria Lucia de Oliveira. Rio de Janeiro: Elsevier, 2010.

GOLDENSTEIN, Lídia. O desafio da economia criativa. Digesto Econômico LXV: 458, maio de 2010.

GONÇALVES FILHO, Antonio. Cultura como alavanca. O Estado de S. Paulo, 5 de dezembro de 2014, p. C 5.

HOWKINS, John. A economia criativa: como ganhar dinheiro com ideias criativas. Tradução de Ariovaldo Griesi. São Paulo: M. Books do Brasil Editora Ltda., 2013.

REIS, Ana Carla Fonseca. Economia da cultura e desenvolvimento sustentável: o caleidoscópio da cultura. Barueri, SP: Manole, 2007.

TAMAMAR, Gisele. Criatividade transformada em lucros. O Estado de S. Paulo, 29 de outubro de 2014, p. X 4.

TREFAUT, Maria da Paz. A cultura na transformação das cidades. Valor Econômico, 3 de dezembro de 2014, p. D 4.

UNITED Nations. Creative Economy: A Feasible Development Option. Creative Economy Report 2010. Geneva/New York: UNCTAD/UNDP, 2010.

Referências e indicações webgráficas 

INDÚSTRIA criativa cresce 90% no Brasil em 10 anos. Disponível em http://g1.globo.com/jornal-da-globo/videos/t/edicoes/v/industria-criativa-cresce-90-no-brasil-em-10-anos/3833920/. 

INDÚSTRIA emprega um quarto dos trabalhadores criativos do Brasil. Disponível em http://www.abcdmaior.com.br/noticia_exibir.php?noticia=63666.

NÙMERO de trabalhadores da indústria criativa cresceu 90% na última década. Disponível em http://www.bonde.com.br/?id_bonde=1-39–138-20141211. 

Referência musical

Como nossos pais. Letra e música de Belchior. Disponível em http://www.vagalume.com.br/belchior/como-nossos-pais.html

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