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Amigos, esta epidemia não é a primeira pela qual a humanidade passa – e, a bem da verdade, nem particularmente mortal ela é. Houve muitas outras epidemias mais agressivas – como a Praga de Justiniano, em 541-542, que matou 40% da população de Constantinopla; a Peste Negra entre 1346 e 1353, que devastou a Europa, a África e a Ásia e causou entre 75 e 200 milhões de mortes, num tempo em que havia na Europa cerca de 80 milhões de habitantes; a Gripe Espanhola de 1918, que tinha uma taxa de mortalidade entre 10% e 20%, matando 25 milhões nas priimeiras 25 semanas; a pandemia de gripe de 1968, que só em Hong Kong levou cerca de 15% da população à morte; e a própria AIDS, que em 2004 matou cerca de 3,1 milhões de pessoas, e desde 1981 já causou cerca de 36 milhões de óbitos. A taxa de mortalidade do Covid-19, que está entre 0,5% e 1,0% do total de infectados (https://www.nature.com/articles/d41586-020-01738-2), é, de fato, inferior à de várias outras pandemias.

A maior novidade da atual pandemia não está na sua taxa de mortalidade, mas nos protocolos de ação que foram estabelecidos por muitos governos. Após as guerras mundiais, a economia, a sociedade e a cultura têm se tornado cada vez mais globais. A experiência do isolamento de 2020 – entre os países e entre os indivíduos –, com a conseqüente queda abrupta tanto do comércio internacional quanto do interno, é uma experiência nova.

Uma experiência nova, mas que, a partir de agora, provavelmente se repetirá de tempos em tempos, dado que as epidemias periódicas são inevitáveis. O protocolo padrão foi estabelecido: no futuro, diante do risco de alguma pandemia, a maior parte dos governos decretará o lockdown mais ou menos prolongado – três meses, seis meses, um ano ou dois, como saber?

* * *

Alguns têm a esperança de solucionar as crises sociais, políticas e econômicas por meio de vacinas. Há dois problemas com essa esperança. A primeira é da natureza do método científico: em seu desenvolvimento, um medicamento como uma vacina precisa percorrer uma série de estágios mais ou menos demorados, com publicação aberta de cada passo, revisão dos pares, replicação dos testes por laboratórios independentes, análises cuidadosas dos resultados. A escala de tempo em que isso acontece não é medida em semanas ou meses, mas em anos.

Quando vemos vários laboratórios, em diversos países, perseguindo com sofreguidão o protagonismo do lançamento de uma vacina eficaz, podemos ter uma certeza: os protocolos de desenvolvimento do medicamento estão sendo solenemente ignorados. Os primeiros laboratórios que produzirem a vacina, ainda durante o surto epidêmico, certamente terão um lucro extraordinário; na corrida pelo seu lançamento, esse lucro está colocado acima da segurança das populações.

O segundo problema é que a vacina para um vírus não será eficaz em relação ao vírus da próxima pandemia. Pularemos de pandemia em pandemia e de vacina em vacina, sempre atrasados, sempre com o lockdown decretado pelos governos nacionais.

* * *

E como fica a educação em tempos de sucessão de lockdowns?

Uma certeza: em algum momento os governos flexibilizarão, de modo definitivo, a exigência da presença do aluno em classe. Diante da conjuntura, esse quadro parece inevitável.

Isso significa, cada vez mais, a possibilidade de uma educação não-escolar de algum tipo. Seja o estabelecimento de “escolas” completamente online, ou a queda da exigência da presença em classe, com a simples exigência da realização de uma avaliação ao fim dos ciclos para a certificação das etapas (ensino fundamental, ensino médio), ou mesmo a desregulamentação das atividades de ensino. E talvez isso tudo coexistindo, por algum tempo, com escolas total ou parcialmente presenciais.

Como professor, ex-proprietário de escola e pai de um garoto de 9 anos, vejo nesse cenário uma oportuindade e um risco.

A oportunidade está na abertura para novas maneiras de educar. Concordo com A. S. Neill, Célestin Freinet, Ivan Illich, Pierre Bourdieu e John Taylor Gatto: a escola, tal como existe, reproduz o que há de pior na sociedade, e o seu currículo oculto é composto, em grande parte, de cinismo, mentira e fraude. A desescolarização, em suas diversas vertentes, pode ser um caminho para tornarmos as nossas crianças – e os futuros adultos e cidadãos – mais saudáveis e capazes.

Ademais, o acesso universal à internet tem o potencial de contribuir para a equalização da oportunidade de ganhos culturais: é possível aprender uma língua de graça, sem sair de casa; pode-se estudar muito sobre praticamente qualquer assunto, sem custos, no Youtube ou em outros canais do mesmo tipo; há milhões de livros baratos ou gratuitos sobre uma infinidade de temas. Um jovem da periferia, que no passado era impossibitado até de comprar livros, hoje pode manter uma biblioteca em seu celular e freqüentar excelentes cursos do MIT ou da Cambridge University. Nos últimos anos, a alta educação tornou-se disponível para uma quantidade muito maior de pessoas.

Por outro lado, existe um risco no processo de desescolarização: o risco do abandono das crianças mais pobres, as crianças em situação de risco social. Para essas crianças, a escola, por mais defeitos que possua, é um refúgio: é onde ela pode se alimentar, se relacionar com adultos e crianças de cabeça mais ou menos saudável, ser vista e reconhecida. A escola é, sobretudo, o local onde o olhar fiscalizador da sociedade alcança a criança e, por extensão, a sua família: o esquema panóptico da escola – que é um poder sutil que abarca inclusive o ambiente doméstico dos alunos – funciona, até certo ponto, como uma proteção contra toda espécie de abuso que a criança possa vir a sofrer.

O fim da escola tradicional pode tornar insuportavelmente dura a vida de muitas crianças. Aliás, certamente isso está ocorrendo com milhares de crianças e adolescentes neste exato momento em que as escolas estão com as portas cerradas: elas estão abandonadas do ponto de vista familiar, afetivo, intelectual. O fim próximo da escola significará a ampliação do abismo que impede que essas crianças se apropriem dos bens culturais da elite intelectual e econômica.

* * *

Ao ler isso, alguns professores retrucarão que o seu papel não é o de proteger os alunos, mas o de “ensinar a matéria”. Amigos, os professores que assim pensam não são educadores, mas instrutores. Na verdade, não somente é papel do educador dirigir o olhar carinhoso a cada aluno, como esse é o seu papel principal. Isso é mais importante do que cumprir o currículo. Aliás, é somente por esse cuidado amoroso que o professor se torna indispensável. O instrutor, aquele que se limita a ensinar o conteúdo, pode – e com vantagens! – ser substituído por um complexo de mídias: livros, vídeos, atividades virtuais, games. Entendam, amigos: quando um professor afirma não ser de sua responsabilidade a acolhida e a proteção do seu aluno, proclama ao mesmo tempo a sua própria irrelevância e dispensabilidade.

* * *

Certamente o fim da escolarização do modo que a conhecemos, com prédios escolares, turmas cheias e atividades presenciais seria interessante para os governos de orientação neoliberal – que gastariam menos dinheiro com salários, custos de instalações físicas, merenda etc. Mas seria ainda mais interessante para as grandes corporações, que podem investir na formulação de ambientes voltados à instrução à distância em todos os níveis. Esses ambientes, vendidos tanto aos governos quanto aos indivíduos, não somente dariam às corporações um enorme lucro financeiro, como também tornariam possível que elas ajustassem o aprendizado das novas gerações às suas necessidades – por exemplo: que adaptassem o currículo a uma mentalidade política específica, à ordenação do potencial das crianças e adolescentes às suas exigências no mundo do trabalho, ou à internalização, desde a idade mais jovem, da compulsão ao consumo ininterrupto.

* * *

Sim, amigos: o estabelecimento da cultura do lockdown a cada punhado de anos, a partir da definição dos protocolos de ação política na pandemia de 2020, significará, aos poucos, o fim das escolas e universidades como as conhecemos.

E o fim das escolas e universidades como instituições com prédios físicos, salas de aula, comparecimentos presenciais, poderá conduzir a um novo modelo de educação superior – uma educação mais livre, e também mais democrática. Afinal, se as salas de aula nas universidades serão virtuais, com poucos cursos demandando atividades de laboratório (que, por sua natureza, precisam ser presenciais), então não haverá sentido numa seleção prévia dos candidatos aos cursos superiores: todos os interessados poderão ser admitidos, e as provas eliminatórias e classificatórias acontecerão no interior dos próprios cursos. Será o fim do vestibular, prova que tem sido uma das maiores responsáveis pelo estado lastimável da nossa escola – e, sem exagero, da nossa própria civilização.

Todavia, há um aspecto negativo nisso tudo: se não houver escolas e universidades presenciais, não existirá trabalho para a imensa maioria dos professores. Estamos assistindo ao início do fim da carreira tradicional do magistério. Quase todos os professores acabarão por ser substituídos por ferramentas informatizadas, mídias cuidadosamente produzidas, jogos educativos – e por tutores, que não precisam ter a formação, e o salário, de um professor regente.

De fato, amigos, quanto maior o tempo de fechamento das escolas nesta e nas próximas pandemias, mais rápido chegará esse futuro. Os professores que, neste momento, exigem que as aulas presenciais permaneçam suspensas são agentes involuntários do interesse dos governos neoliberais e das grandes corporações – e, sem que percebam, aceleram o fim da sua classe profissional. Devido a um erro estratégico gravíssimo, os sindicatos dos professores adotaram a ideologia que interessa aos seus adversários econômicos, e ativamente constroem um futuro em que a sociedade será levada a julgar desnecessárias as próprias escolas. Eles somente perceberão como foram manipulados quando a própria sociedade for informada pelos órgãos de imprensa que, para a maioria das crianças e dos adolescentes, a escola é dispendiosa, ineficiente – e desnecessária.

* * *

Enfim, amigos: vivemos numa nova era, a era do isolamento. A ágora, a praça pública, será cada vez mais virtual. As grandes corporações terão cada vez mais domínio sobre todos os aspectos da nossa vida. E a educação sofrerá uma profunda transformação: a escola deixará de ser o lugar por excelência da paidéia, e cederá esse lugar à rede, que pode ser acessada a partir de qualquer aparelho celular. Em vez de ir à escola, o jovem levará a escola no bolso.

A dialética da história é curiosa: a era do isolamento é também a era em que tudo será cada vez mais interligado. Ao trabalharmos de casa, seremos cada vez mais vigiados. As escolas entrarão em extinção, em parte por culpa dos próprios professores, mas a educação – a paidéia – não se extinguirá junto, e talvez floresça de uma maneira completamente nova.

Cada grande pandemia trouxe consigo mudanças profundas na sociedade. A pandemia de 2020 não é diferente: há novos horizontes, com novas oportunidades e novos riscos. Mas é preciso olhar adiante, olhar para a história que neste momento está sendo escrita, para enxergar o caminho por onde estamos sendo guiados.

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