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A ignorância como motor do conhecimento e da ciência

Luiz Alberto Machado - Iscas Econômicas -

A ignorância como motor do conhecimento e da ciência

“Para quem busca o conhecimento, surpresas são achados valiosos. A descoberta de um fato surpreendente leva à procura de novos fatos e suscita a formulação de hipóteses e teorias que possam elucidá-lo. A mente científica trabalha com um radar ligado ao Anômalo e ao inesperado. A surpresa é o estopim da pesquisa – uma janela entreaberta para o desconhecido. Diante dela, o pensamento amanhece e desperta do sono dogmático.”

Eduardo Giannetti da Fonseca

Lendo a versão preliminar do livro Criatividade a sério[1], fiquei tão curioso com uma das referências bibliográficas citadas pelo autor Felipe Zamana que fui imediatamente adquiri-la.  Trata-se do livro Ignorância, que tem por subtítulo “Como ela impulsiona a ciência”, de autoria de Stuart Firestein, professor e presidente do Departamento de Ciências Biológicas da Universidade Columbia, em Nova York.

De acordo como o Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa, a palavra ignorância é um substantivo feminino que possui cinco significados: (i) qualidade ou condição de quem é ignorante; (ii) estado daquele a quem falta conhecimento, saber ou instrução; (iii) ausência de conhecimento em relação a um domínio específico (Exemplo: Confesso minha total ignorância em Matemática); (iv) condição de quem é ingênuo ou crédulo; simplicidade, singeleza; e (v) falta de delicadeza ou gentileza; estupidez, grosseria, incivilidade (Expressões que se utilizam deste último significado são apelar para a ignorância ou partir para a ignorância).

Stuart Firestein refere-se, no livro, à ausência de conhecimento, condição que pode ser associada aos três primeiros significados. Para ele, portanto, o motor da ciência, que leva ao aumento contínuo e incessante do conhecimento humano não é a tentativa de comprovar o que já se sabe, mas sim a capacidade de navegar pelo desconhecido:

Cientistas não se concentram naquilo que sabem – que é a um só tempo considerável e minúsculo –, e sim no que não sabem. O grande fato é que a ciência trafega na ignorância, a cultiva e é impulsionada por ela. Ficar flanando no desconhecido é uma aventura; fazer isso como meio de vida é algo maior que a maioria dos cientistas considera um privilégio.

Tal visão, com a qual concordo plenamente, me fez recordar de uma das disciplinas mais odiadas pelos estudantes de graduação: Metodologia Científica (também chamada em algumas instituições de Filosofia da Ciência). Ainda imaturos para compreenderem a importância da disciplina, que incompreensivelmente é ministrada nos primeiros anos dos cursos na maioria das vezes, os estudantes costumam menosprezá-la, fazendo apenas o necessário para obterem a nota mínima de aprovação.

Confesso que não foi diferente no meu caso. Enquanto estudante, jamais entendi a razão de “perder tempo com um assunto tão chato”. Minha visão mudou – e como – na longa jornada dedicada à atividade acadêmica, quer como professor, quer como pesquisador ou gestor.

A partir dessa nova compreensão, passei a dar valor cada vez maior aos conteúdos da disciplina, cujos livros-texto ou manuais costumam iniciar com noções gerais sobre o conhecimento (relação que se estabelece entre o sujeito que conhece e o objeto conhecido, na qual o sujeito cognoscente se apropria, de certo modo, do objeto conhecido), seus níveis (empírico, científico, filosófico e teológico) e sobre o problema da verdade.

Amado Luiz Cervo e Pedro Alcino Bervian, por exemplo, referem-se à busca da verdade como um dos objetivos supremos do homem. Afinal “a verdade é o encontro do homem com o desvelamento, com o desocultamento e com a manifestação do ser”.

Essa busca, que se inicia quando não há qualquer manifestação do objeto, que corresponde ao estado de ignorância, passa progressivamente, por outros níveis de manifestação do objeto, cada um correspondendo a um determinado estado de espírito, até chegar ao nível em que há evidência suficiente sobre o objeto para permitir ao sujeito fazer afirmações a respeito dele com certeza, ponto mais próximo de chegar à verdade (Figura 1).

Figura 1 – O problema da verdade

 Fonte: CERVO; BERVIAN, 1996, p. 13.

De acordo com Faccina e Peluso, porém, houve uma mudança de paradigma, no sentido atribuído ao termo por Thomas Kuhn[2]. A partir dessa mudança de paradigma, a verdade jamais pode ser considerada como absoluta ou definitiva. Como explica Karl Popper, um dos grandes filósofos da ciência do século XX, no livro Conjecturas e refutações, a verdade é sempre provisória, pois será, mais cedo ou mais tarde, superada, quer seja em razão de novas manifestações do objeto, quer seja pelo desenvolvimento de novos métodos ou instrumentos de investigação que permitem ao sujeito descobrir aspectos até então impossíveis de serem observados.

Importante frisar que não se deixa de ter por objetivo a busca da verdade, mas sim a maneira de encarar a verdade: não mais como definitiva, mas sim como provisória.

Aplicando tal conceito às ciências sociais, Faccina e Peluso criticam os modelos de análise tradicionalmente utilizados até o início do século XX (marxismo e liberalismo clássico), que se baseiam do critério da verificabilidade, não permitindo a evolução do conhecimento (por tentarem comprovar o que já se sabe). Propõem, em seu lugar, a adoção de modelos baseados no princípio da falseabilidade, que buscam encontrar algum erro ou lacuna no que se sabe. A validade das verdades perdura até o momento que se identifique um erro ou lacuna nas mesmas. Os modelos baseados no critério da verificabilidade são construídos com a razão dogmática, que não permite questionamento. Já os modelos baseados no critério da falseabilidade são construídos com a razão crítica, que supõe o constante questionamento das verdades prevalecentes (Figura 2). 

Figura 2 – Modelos de análise baseados na razão dogmática e na razão crítica

 Fonte: FACCINA; PELUSO, 1984, p. 10.

Anos mais tarde, assistindo a uma palestra de Robert Pike numa conferência da International Alliance for Learning, tomei conhecimento de uma forma bem mais criativa de explicar a evolução do conhecimento desde o estágio inicial, caracterizado pela ignorância absoluta, até o estágio mais próximo possível da verdade, caracterizado pela certeza do que se sabe.

Essa forma criativa obedece a sequência[3]:

II – Incompetência inconsciente (Não sei que não sei)

IC – Incompetência consciente (Sei que não sei)

CI – Competência inconsciente (Não sei que sei)

CC – Competência consciente (Sei que sei)

A etapa fundamental dessa sequência é, sem dúvida, a segunda, na qual o sujeito toma consciência da sua ignorância, primeiro passo para adotar providências com o objetivo de superá-la. Como afirma James Clerk Maxwel, talvez o maior físico entre Newton e Einstein, “uma ignorância totalmente consciente é o prelúdio a todo avanço real da ciência”.

Encerro com duas observações.

A primeira, que a meu juízo, é suficientemente forte para reafirmar a relevância da ignorância como força motriz do conhecimento e da ciência e para encorajar a leitura do livro de Stuart Firestein, diz respeito ao aspecto quantitativo. Afinal, como disse Isaac Newton, “o que sabemos é uma gota; o que ignoramos é um oceano”.

A segunda tem a ver com a nossa atual realidade política, lamentavelmente polarizada entre duas visões extremistas e dogmáticas que tanto prejuízo em causado ao Brasil. Nunca antes na história deste país tivemos tanta necessidade de posturas pautadas pela moderação, equilíbrio e consciência crítica.

 

Iscas para ir mais fundo no assunto 

Referências

CERVO, A. L. & BERVIAN, P. A. Metodologia Científica. 4ª ed. São Paulo: Makron Books, 1996.

FACCINA, Carlos Roberto; PELUSO, Luís Alberto. Metodologia científica: o problema da análise social. São Paulo: Pioneira, 1984.

FIRESTEIN, Stuart. Ignorância: Como ela impulsiona a ciência. Tradução de Paulo Geiger. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.

FONSECA, Eduardo Giannetti da. As partes & o todo. São Paulo: Siciliano, 1995.

KUHN, Thomas. A estrutura das revoluções científicas. Tradução de Beatriz Vianna Boeira e Nelson Boeira. São Paulo: Perspectiva, 1982.

MICHAELIS.  Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa. Disponível em https://michaelis.uol.com.br/moderno-portugues/busca/portugues-brasileiro/ignorante.

PIKE, Robert W. Creative Training Techniques Handbook: Tips, Tactics, and How-To’s for Delivering Effective Training. Human Resource Development Press, 2002.

POPPER, Karl R. Conjecturas e refutações. Tradução de Sérgio Bath. 4ª ed.. Brasília: Editora da Universidade de Brasília, 1972.

RIBEIRO, Lair. A magia da comunicação. São Paulo: Moderna, 1997.

 

[1] ZAMANA, Felipe. Criatividade a sério: Por que suas ideias são mais sobre nós do que sobre você. O livro encontra-se em campanha de pré-lançamento e o autor fez uma apresentação do mesmo na sessão portuguesa do World Creativity Day.

[2] Em A estrutura das revoluções científicas, Thomas Kuhn afirma: “paradigmas são as realizações científicas universalmente reconhecidas que, durante algum tempo, fornecem problemas e soluções modelares para uma comunidade de praticantes de uma ciência” (1982, p. 13).

[3] Lair Ribeiro, médico que viveu por muitos anos nos Estados Unidos atuando primeiro como assistente de pesquisa e depois como professor adjunto da Thomas Jefferson Univerisity, inverte as duas últimas etapas, considerando que CC vem antes de CI. Sem querer dar uma de tucano, ficando em cima do muro, considero que as duas sequências podem ser igualmente válidas, dependendo da situação em que são aplicadas. Há casos em que o sujeito só é capaz de fazer alguma coisa por obedecer rigorosa e conscientemente a uma orientação. Até que chega um momento em que ele passa a fazer essa coisa inconscientemente. É o que acontece quando aprendemos a dirigir. Até um dado momento, seguimos rigorosamente as instruções e prestamos enorme atenção a cada etapa necessária para colocar um carro em movimento. Com a prática, passamos a fazer as coisas natural e automaticamente, sem sequer notar que estamos percorrendo cada etapa. Nesse caso, a evolução vai do CC para o CI. Noutros casos, aprendemos a fazer algo empiricamente, obtendo êxito em sucessivas experiências. Se nos pedirem para explicar a razão de agirmos daquela maneira ou o porquê daqueles resultados, é provável que não tenhamos as respostas. Nesses casos, podemos ir atrás das explicações teóricas e, então, termos condições de, conscientemente, dar as respostas adequadas. Nesse caso, a evolução é de CI para CC.

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