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Fernando Lopes - Iscas Politicrônicas -

                      Beleza. Todo mundo acendendo o farol durante o dia nas estradas. Sem problema; a causa é nobre, é pela segurança, é lei e ponto final. Só que, pra variar, mais uma lei bem ao estilo Brasil: Muita imaginação, boas intenções, mas feita de qualquer jeito, tipo fé-em-Deus-e-pé-na-tábua.

                      O resoluto deputado autor dessa pérola se disse inspirado nas leis de trânsito dos países com longos e gelados invernos, que prevêem essa medida há muito tempo. Pura verdade; só que nesses países, tais como Canadá, Noruega ou Finlãndia, o “dia” no inverno dura apenas quatro ou cinco horas. Até menos, dependendo da longitude. Daí se percebe por qual motivo não há lei desse tipo em países de luminosidade longa e forte, como este, em que há sol forte 14 horas por dia no horário de verão. Mas tudo bem, o nobre deputado alega enorme “experiência” no assunto, embora não aponte nenhuma pesquisa ou estudo sério sobre o tema. Apenas afirma que é bom e ponto. E se um país como a Suécia faz, é bom pra nós também, claro. O grande problema é que, em todos esses países citados, antes de se criar uma nova lei, o poder público faz com que todas as outras anteriores sejam estritamente seguidas – ou a nova vai se tornar mais um papel inútil. Importante: para os pressurosos legisladores brasileiros, as leis pulam do papel e se fazer cumprir por si próprias, sem educação do povo nem fiscalização do governo. Uma espécie de milagre da fúria legiferante brazuca. Pelamor.

                      Ok, todo mundo de farol aceso na rodovia. Se é pelo bem de todos e felicidade geral da nação, diga ao povo que acendo. Mas é esse mesmo o problema dos 70 mil mortos e mais de 300 mil feridos/ano? Certamente não. Paliativos, mesmo travestidos de mágica e ideias brilhantes, não resolvem o real problema, que envolve tempo, educação e paciência.

                      Enquanto a imprudência campear solta, não tem SUS que suporte tantos mortos e feridos. As motos, por exemplo, são caso de hospício no Brasil. É simplesmente insano; as leis de trânsito “não valem” para as motos, que fazem absolutamente qualquer coisa na cara dos agentes, sem punição. Amontoam-se mortos, aleijados, feridos graves entre os motoqueiros, num número que só aumenta, e todo mundo finge que nada acontece. Dilma, por exemplo, tomou uma medida que seria motivo de riso em qualquer país decente: Em 2012, ela resolveu aumentar o valor do seguro obrigatório no Brasil, face ao gigantesco número de mortos e inválidos. Deu pra entender? Em vez de reprimir o abuso e baixar o número de feridos, ela prefere pagar mais às viúvas. Educação maciça e fiscalização pesada para evitar ou diminuir os acidentes sobre duas rodas é caro e demorado. Migalhas em dinheiro, esmolas macabras, é manobra rápida, fácil e faz sucesso para ocupar o lugar do acidentado – ao menos na cabeça dessa jeca. Taspariu.

                      Mas isso aqui é Brasil, e bola pra frente. De farol aceso durante o dia. Agora é esperar qual será a nova regra que vão impingir para regular nossa vida, até chegarem a normatizar o uso correto do papel higiênico, como certa vez lembrou o saudoso João Ubaldo Ribeiro.

                      Exagero? Não mesmo. Um sintoma simples dessa manobra populista para sair bem na foto e enganar os trouxas votantes é o fato de que os nobres deputistas e senateiros só se imbuem dessa chama civilizatória quando o país a ser copiado gera uma lei com obrigação só para o povo, e nenhuma para eles. Nós, a plebe rude e ignara, ficaríamos muito felizes se outras leis nórdicas fossem imitadas, como, por exemplo, as que tratam sobre salários, benefícios, folgas, férias, direitos, obrigações e gastos com seus congressistas. Isso sim seria um excelente e pedagógico exemplo, diploma de civismo, impondo limites a uma gente que desconhece esse vocábulo, principalmente quando se trata de gastar nosso dinheiro. Ou vocês acham mesmo que nos países-de-farol-aceso- durante-o-dia é essa esbórnia, essa casa da mãe joana com a grana dos pagadores de impostos? Aham, vai nessa.

                      Menos farol aceso e mais olho aberto, senhores. Recolham os próprios rabos antes que a porta bata. A jeca não acreditou, e deu no que deu. Aprendam.

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