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Filipe Aprigliano - Iscas do Apriga -

Acredito que não há muita controvérsia em dizer que a Anarquia é um modelo utópico, por estar fundamentado na crença de que o Estado (ou autoridade) é por si só um mal. No entanto, é um mal necessário para grupos humanos.

Se juntarmos apenas duas pessoas, em pouco tempo uma delas passa a exercer uma postura de liderança sobre a outra. Não é, necessariamente, uma relação de subserviência. Podemos inclusive pensar numa relação de divisão de papeis, em alguns aspectos uma delas lidera (é autoridade pelas suas capacidades), e em outros o papel se inverte.

Quando aumentamos a escala para sociedades nômades, tribais e urbanas, a necessidade de liderança, de autoridades instituídas, e por fim de um Estado, são latentes. É curioso perceber que muitas (MUITAS!) pessoas acreditam que se uma sociedade evoluir suficientemente, o estado se tornará desnecessário e as pessoas viverão em harmonia.

É possível encontrar esse tipo de utopia em dois sabores:

  1. O primeiro é a utopia coletivista, que acredita que as pessoas serão felizes e independentes de um Estado, quando alcançarem parâmetros de igualdade absoluta e eliminarem todos os traços de individualismo e de propriedade. Baseado nesse absurdo, muitos embarcam no pensamento Marxista de que depois do Comunismo, haverá uma espécie de anarquia ou comunismo puro;
  2. A segunda é a utopia liberal, que aposta no poder do indivíduo como agente social, nas trocas voluntárias e defende ferozmente as liberdades individuais. Defende também que os avanços nas condições materiais e intelectuais da sociedade, advindos da livre iniciativa, irão aos poucos remover do Estado suas funções, até dissipá-lo completamente.

Veja que em nenhum momento eu falei de Capitalismo, até porque, ele nunca esteve ameaçado por nenhuma ideologia ou utopia. O Capitalismo é a forma natural como os seres humanos produzem e consomem bens. O que se discute na verdade, é quanto o Estado deve ou não interferir e controlar essas trocas naturais e inevitáveis.

Como você pode perceber, existem duas propostas para nos livrar do Estado de uma vez por todas. Sendo assim, é fácil encontrar desenhos de um espectro ideológico de esquerda e direita com a Anarquia representada nas pontas. Cada qual querendo que sua proposta seja vista como o caminho para o paraíso da ausência de Estado. Como consequência dessa dicotomia, a única coisa que esquerda e direita concordam é a seguinte: Quem fica no meio do espectro ideológico são pessoas de centro, de ideologia neutra.

Conversando com um amigo sobre espectros ideológicos, fui surpreendido com a seguinte proposta: “Se existem pessoas que acreditam que a Anarquia pode estar no limite de dois lados opostos e irreconciliáveis, talvez ela esteja no meio então”. Essa afirmação me deixou realmente intrigado, então eu resolvi montar esse modelo. Como seria um espectro com a Anarquia no meio?

Depois de muitos ajustes, eu cheguei nessa belezura que você pode apreciar abaixo:

Espectro

Eu fiquei tão feliz com o resultado, que resolvi compartilhar.

Na minha isca anterior (A Inconstitucionalidade do Bom Senso) eu falei da impossibilidade de apostarmos na igualdade e na liberdade ao mesmo tempo. Pois bem, refletindo melhor sobre o assunto, percebi que essa é dicotomia atual, porque as sociedades ocidentais estão engordando os Estados com um discurso coletivista e interessado em padronizar toda e qualquer forma de pensamento. A desculpa para essa censura (politicamente correta) é de que essas são ideias resultantes da evolução natural da sociedade. Se você pensa diferente é reacionário, não quer evoluir, então é melhor se calar para não contaminar outras pessoas.

A verdade, é que a livre iniciativa (inclusive de pensamento) é um poder maravilhoso, responsável por todo o avanço tecnológico e intelectual da humanidade. Por outro lado, ao tempo que indivíduos se destaquem de forma desproporcional à maioria, vão tomar o controle do Estado e criar uma aristocracia totalitária e pseudomoralista, tão nociva e perversa quanto a cúpula do Partido Comunista.

Não podemos esquecer que o Estado, embora seja criado para servir a sociedade, é também formado por pessoas, interessadas em manter seus empregos e em aumentar seu escopo de atuação no mercado. Imagine que o Estado é uma empresa que vende ordem social, e que os cidadãos são os seus clientes. O Estado tem um faturamento e tem responsabilidades, ou seja, entregas a fazer. Se é exatamente igual a uma empresa, o que ocorre?

  1. Clientes que fazem muito barulho são atendidos primeiro;
  2. Clientes que pagam bem, definem as prioridades para os próximos produtos;
  3. O Estado também é bastante versátil, vende no atacado e no varejo, faz produtos de melhor qualidade e produtos para a massa, cada qual com o seu preço de mercado.

Eu não sei se você está me acompanhando até aqui, mas o resumo dessa diarreia mental é o seguinte: A Anarquia está no meio porque é o ponto de partida, e não o destino. E é utópica porque não conseguimos ficar lá por muito tempo, e a criação de um Estado é uma necessidade básica da vida social.

Dito isso, a partida pode ocorrer em duas direções, para a esquerda (coletivismo) ou para a direita (individualismo). Seja qual for o caminho, as pessoas que iniciam o processo estão bem-intencionadas, mas é muito fácil se perder. Como disse antes, o Estado é uma empresa que tem interesses próprios, não importa a roupa que ela veste, cabe aos clientes imporem limites para o seu crescimento.

Gostaria de fazer um parêntese para o seguinte: Eu sou um apoiador inabalável da livre iniciativa. Acredito na propriedade privada, na moralidade e nas liberdades individuais. Acho que esses conceitos produzem árvores mais frondosas e mais compatíveis com as características inatas dos seres humanos que qualquer pensamento coletivista. No entanto, entendo que esse caminho também impõe limites, que se não forem observados, geram uma massa de excluídos, incapazes de ascender socialmente.

O único papel inquestionável do Estado, é garantir meios para uma educação básica de qualidade. Veja que o Estado não precisa necessariamente construir escolas e colocar professores na folha de pagamento, mas deve garantir que elas sejam construídas e que sejam economicamente viáveis.

Acredito que o governo pode financiar uma escola e até mesmo custeá-la, mas quem deve geri-la é a comunidade, de acordo com seus próprios valores. Imagino uma organização sem fins lucrativos, e que contrate professores e administradores (e que eles não sejam funcionários públicos). Existem muitas organizações como essa, que oferecem educação de alta qualidade, mas são custeadas pela iniciativa privada, organizações religiosas e filantropia.

A saúde e a segurança também são importantes, mas uma possibilidade contínua e universal de ascensão social através da educação, é a única forma de justiça social que eu reconheço.

O meu falecido avô veio do interior, trabalhou em dois empregos a vida toda, para educar seis filhos em escolas públicas com muito esforço. Atualmente todos eles têm curso superior e uma condição material muito melhor que a dele, assim como todas as dezenas de netos. No entanto, isso seria quase impossível atualmente, estamos falando de uma educação básica pré-ditadura e uma educação superior durante a ditadura militar.

Resumidamente, precisamos sempre de mais anarquistas, de pessoas que nos lembrem de onde viemos, de onde está nossa verdadeira natureza e realização, ou seja, na liberdade de ser, agir e pensar. Sabemos que ela nunca será experimentada em sua plenitude, mas quanto mais dela, melhor para todos.

Quando paramos de escutar os anarquistas e nos deixamos levar pelas promessas do Estado (que sempre fala em benefício próprio), acabamos por nos entregar a algum tipo de totalitarismo, o que invariavelmente desemboca em revoluções, guerras, mortes e severas quebras institucionais.

Pense nisso, vamos evitar as pontas do espectro, e exigir de volta do Estado, as liberdades que nos foram cerceadas.

Para terminar eu proponho uma brincadeira:

  • Batman, Pinguim e Coringa
  • Vader, Obi Wan e Yoda

Dependendo da sua opção ideológica, você vai colocar o primeiro e o segundo na esquerda ou na direita, mas o terceiro é o Anarquista, o único que sabe realmente o que está acontecendo.

Obrigado pelo seu tempo. Quem sabe nos falamos novamente?

 

Obs.: Acho que não preciso entrar no mérito de que os Anarquistas aos quais me refiro, são aqueles cidadãos de bem que sempre desconfiam das intenções do Estado, mesmo quando ninguém mais desconfia. Deixo de fora, os baderneiros e as pessoas que cagam para a lei vigente. Ok?

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