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Ciência e Mito na Pandemia

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Gustavo Bertoche - É preciso lançar pontes. -

Neste tempo de controvérsias de todos os tipos a respeito do Covid-19, é preciso perceber que há vários grupos econômicos com forte interesse em um ou outro tipo de biopolítica – as biopolíticas que favorecem as vacinas, ou os tratamentos preventivos, ou os tratamentos alternativos, ou a abertura dos comércios, ou o lockdown. Essas propostas divergentes eventualmente são sustentadas por algum discurso cientificista.

Contudo, é oportuno recordar que, em 2015, Richard Horton, editor-chefe do Lancet – possivelmente o mais importante jornal científico de medicina no mundo -, declarou que talvez metade das publicações científicas sejam fraudulentas. (E nada indica que as coisas tenham melhorado de 2015 para cá).

Escreveu o Dr. Horton:

“O caso contra a ciência é simples: grande parte da literatura científica, talvez metade dela, pode simplesmente ser falsa. Atingida por estudos com amostras pequenas demais, efeitos minúsculos, análises exploratórias inválidas e evidentes confllitos de interesses, juntamente com uma obsessão por seguir tendências da moda – de importância dúbia -, a ciência deu uma guinada na direção das trevas. Como um participante afirmou, ‘métodos ruins geram resultados’. A Academy of Medical Sciences, o Medical Research Council e o Biotechnology and Biological Sciences Research Council colocaram a sua reputação em questão diante de uma investigação a respeito dessas questionáveis práticas de pesquisa. É alarmante o caráter aparentemente endêmico do mau comportamento na pesquisa. Na sua busca por contar uma história convincente, os cientistas freqüentemente demais esculpem os dados para que eles se ajustem à sua teoria preferida de mundo. Ou adaptam as hipóteses para que elas correspondam aos dados. Os editores dos periódicos científicos merecem a sua cota de crítica também. Nós ajudamos e encorajamos os piores comportamentos. Nossa aquiescência ao fator de impacto alimenta uma competição na qual o prêmio é um lugar nos periódicos mais seletos. Nosso amor à ‘importância’ polui a literatura com muitos contos de fada estatísticos. Rejeitamos importantes confirmações. Mas os jornais não são os únicos vilões. As universidades estão numa luta perpétua por dinheiro e talento, metas que favorecem métricas redutivas, como a da publicação de grande impacto. Os procedimentos de avaliação nacional, como os Research Excellence Framework, inventivam más práticas. E cientistas individuais, incluindo os mais antigos líderes, pouco fazem para alterar uma cultura de pesquisa que ocasionalmente se aproxima muito da má-conduta.”

(Richard Horton. “Offline: What is medicine’s 5 sigma?”. The Lancet, 11 de abril de 2015, página 1380. Original disponível aqui)

Isso significa que a ciência não é sagrada; ela não é a voz da Verdade. Devemos ouvir com atenção o que dizem os cientistas – todos os cientistas, dos epidemiologistas aos químicos farmacêuticos, passando por psicólogos e por economistas, tanto os ortodoxos quanto os heréticos. Todavia, e justamente por isso, não é sensato acreditar no mito do “consenso científico”. Ainda menos sensata é a crença de que os programas de pesquisa dos laboratórios farmacêuticos estejam mais interessados na nossa saúde do que nos dividendos dos acionistas.

Como diz Rubem Alves, a ciência hoje se tornou um mito; mas mitos, quaisquer que sejam, não são guias adequados para as decisões políticas que afetam a nossa vida.

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