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Suely Pavan Zanella - Iscas Comportamentais -

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Antigamente alguém cursava uma faculdade de Direito, Medicina, Odontologia, Psicologia ou qualquer outra carreira chamada de liberal, e ao se formar abria em seu bairro um consultório ou escritório. Normalmente, colocava uma plaquinha no local mostrando o serviço que prestava e automaticamente as pessoas do bairro iam atrás desse profissional. Se ele era bom, a propaganda boca a boca funcionava e ele conseguia mais e mais clientes. Não era necessário muito esforço, e este profissional liberal podia se focar apenas em sua área, através de cursos, pós-graduações, congressos e supervisões. Isso fazia com que ele ou ela se esmerasse a cada dia em sua profissão através de atualizações constantes. Nem sequer as faculdades tinham que preparar seus formandos para serem liberais. O foco estava apenas na competência profissional. As pessoas também buscavam isso de um profissional.

Em função de sua competência em sua área de atuação ele era convidado a ministrar aulas em faculdades, palestras em diferentes ambientes organizacionais, e também dava conferências e até consultorias quando se tornava mais experiente. O foco, insisto, era apenas a sua competência profissional. Inclusive, antigamente, os melhores professores eram aqueles que aliavam sua experiência com o desejo de formar e desenvolver novos profissionais, sem necessidade alguma de fazer um mestrado ou doutorado em sua área. Ser mestre ou doutor era apenas para aqueles que desejavam ou gostavam do meio acadêmico, e não uma obrigação para ministrar aulas como é hoje em dia. A competência profissional era a grande moeda de troca.

Se este profissional tivesse tempo, em meio à sua corrida vida profissional, ele poderia escrever livros sobre aquilo que mais entendia: sua área de atuação.

O valor nesta época era apenas a experiência, atualização e a capacidade de resolver casos de seus clientes.

Mas o mundo mudou, e com isso veio uma competição acirrada. E, claro, mais gente se formou em faculdades, além de mudanças legais, como a obrigatoriedade em se fazer um mestrado para ministrar aulas em universidades, por exemplo.

Hoje um profissional liberal precisa ser competente em marketing e empreendedorismo. Óbvio que ele terá menos tempo para aprofundar-se em sua especialização, pois estará preocupado em vender os seus serviços. Senão, como viverá de sua profissão?

Além disso, terá que se preocupar e ficar antenado, pois além da competição leal, ou seja, aquela que ocorre de forma saudável entre os profissionais de uma mesma área e com competência e experiências equivalentes e, portanto, respeitáveis, deverá se ocupar da competição desleal e desonesta, feita por pessoas que só sabem ser marqueteiras, mas que carregam um oco colossal em termos de conteúdo e prática, além de mentiras curriculares e também acadêmicas. Afinal, pouca gente se preocupa com desempenho. Hoje tanto pessoas como empresas estão atrás de famosidades, e querem ser atendidas por elas. Se antes a competência profissional era a moeda de troca, hoje ela foi sucateada através do marketing: Tem mais sucesso ($$$$ e reconhecimento) quem sabe fazer o melhor marketing.

Vejo diariamente centenas de bons profissionais sendo relegados à segundo plano em detrimento dos marqueteiros. E também gente talentosa e preparada morrer literalmente na miséria, como ocorreu, por exemplo, com a escritora e patrona do movimento feminista brasileiro Rose Marie Muraro. Se você não sabe quem é ela, dê uma pesquisada no Google, e olhe as pesquisas maravilhosas e bem fundamentadas que ela fazia.

Por falar em pesquisas, a cada vez que vou escrever um texto procuro dados fidedignos (e não palpites e opiniões) referentes à minha área, que é a Psicologia, em dissertações e teses de mestrado e doutorado, além de procurar também no Google Acadêmico. O que encontro de novo? Absolutamente nada!

Quando, ao contrário, leio livros de autores americanos e franceses, fico surpresa com o número de entidades que fornecem ao grande público dados de pesquisas e relatórios bem fundamentados. Vejo que jornalistas e escritores se apoiam nestes dados e os valorizam. Quando livros são escritos desta forma e numa linguagem de fácil acesso ao grande público (não estou falando de textos acadêmicos, que por sinal, em outros países são também mais acessíveis) informações corretas são passadas, e não por um bando de gente que se acha advogado, nutricionista, médico ou psicólogo. Minha área em particular foi invadida por um bando de falsos especialistas em pessoas, além de autoajuda (que apenas ajuda estes tais escritores a ganhar dinheiro), falsos pesquisadores de instrumentos que prometem (e as empresas compram e acreditam) detectar a personalidade das pessoas em processos seletivos pra lá de duvidosos, além de terapias baseadas em esoterismo puro e de cunho religioso.

E você poderia se perguntar: por qual razão o público compra pessoas assim?

Há na sociedade moderna e narcisista certa pressa em parecer ser aquilo que não é, e como também pesquisa pouco acredita em qualquer coisa mercadologicamente difundida. Ou você nunca prestou a atenção ou foi pesquisar depois quem era o tal “especialista” citado na TV ou em portais na Internet?

Como os jornalistas também não contam com fontes fidedignas, por aqui todos ficam no “achismo” ou no “opinionismo”.

A consequência disso tudo é um pobrismo intelectual que afeta diretamente todos aqueles que se arvoram nas profissões liberais, ao invés de um emprego ou concurso público. Isto acontece não só com os mais jovens e recém-formados, mas também com todos aqueles que estão na estrada há muito tempo. Diferentemente dos países citados por aqui se valoriza em demasia o marketing, em detrimento da competência profissional. Um médico me disse certa vez: Tenho 20 anos de carreira, mas agora tenho que saber fazer propaganda de meus serviços, aparecer na TV e ter uma conta no Youtube!

Ele dizia que os clientes que chegavam ao seu consultório sempre vinham com certezas diagnósticas, vistas e ouvidas pelo doutor fulano de tal em entrevistas na TV ou pela Internet. Em muitos casos ele foi pesquisar quem era o tal doutor, e ficou surpreso ao descobrir que nem todos eram titulados como diziam ser.

Diante deste quadro sugiro que as faculdades insiram em suas disciplinas a matéria Marketing. Afinal, marketing é tudo nos tempos atuais. Sem o devido marketing de seus trabalhos duvido que profissionais liberais possam viver de suas profissões. E, como sabemos, não dá para fazer tudo, ou seja, ser um excelente especialista em sua área de atuação e também gastar tempo fazendo marketing.

Infelizmente, muita gente ainda confunde marketing com empreendedorismo. Aquele que abraçou uma carreira liberal, por si só e também por definição, é um empreendedor. Enquanto a maioria busca um emprego com carteira assinada, o empreendedor, já desde os tempos da faculdade, caminha com suas próprias pernas e quer ter seu consultório ou escritório ao invés de um emprego. Sei que muitos adentram a carreira liberal após anos de emprego fixo, o que também é muito bom, pois fornece experiência e mostra o que é estar do outro lado da mesa.

Porém, a verdade para ambos os casos citados é a mesma: Você terá que fazer marketing de seus serviços, senão morrerá na praia como milhões de excelentes profissionais e empreendedores.

Como diria Slavoj Žižek: Bem vindo ao deserto do real!

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