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Adalberto Piotto - Olhar Brasileiro -

Por Adalberto Piotto

Eu tinha uns 20 anos, acho, quando fui na condição de jornalista e réu, pela finada Lei de Imprensa, a um tribunal.

Estava lá porque, como repórter de um semanário da minha cidade no interiorzão de São Paulo, eu tinha denunciado um ex-prefeito que tinha desviado dinheiro da educação para canalizar um córrego. Ele me processou.

Resumo a história pra dizer que o córrego nunca foi canalizado, a educação perdeu recursos, eu ganhei o processo ao ser absolvido das acusações e ele, o prefeito, ficou inelegível por 8 anos.

O caso é apenas uma introdução pra citar uma cena que me chamou a atenção, à época, pouco antes da primeira audiência no Fórum: o congraçamento dos advogados na salinha do inferno, também conhecida como sala da OAB.

Advogados de acusação e defesa se refestelavam exageradamente em abraços calorosos de grandes amigos, inclusive minha testemunha principal, também advogado, que tinha providenciado todas as provas que me levaram a escrever a reportagem, para momentos depois se digladiarem nas discussões em defesa da parte de cada um.

Não esperava, dado o ritual de civilidade do Forum, que antes das alegações se estapeassem. Mas que, ali, naquele momento, mantivessem só a civilidade dos cumprimentos formais, educados, só isso. Seria o suficiente, não seria?

Aquela cena dantesca, que alguns dirão que se trata de uma prova da convivência “civlizada” (uso o termo de novo) entre antagonistas no mérito, adversários no processo, mas nunca inimigos mortais pela causa, me deixou perplexo. Aos 20 anos, cheio de ideologia, tendo escrito a reportagem e denunciado o ex-prefeito que tinha praticado um atentado à verdade ao desviar recursos obrigatórios para a educação e não canalizado o córrego, ou seja, caso de malversação de dinheiro público, a cena do congraçamento causou em mim prerplexidade.

Eram todos, coincidentemente, advogados: a fonte da informação e dos documentos, na condição de minha testemunha; o alvo das denúncias, o ex-prefeito que me processava por calúnia, difamação e injúria, e seu causídico de acusação; além, claro, do meu primeiro advogado no processo. Este último, destituído da defesa por mim, logo depois, porque negociou uma retratação minha às escondidas, portanto desautorizada, sem meu conhecimento, que de tão ilegal e maldosa foi depois anulada pelo juiz. A mentirosa retratação foi considerada ofensiva à minha honra e à lei, dado que fora publicada em outro jornal, sem meu consentimento – duas ilegalidades – algo que a própria Lei de Imprensa proibia.

De novo, insisto, não pretendo aqui condenar a civilidade entre adversários, a elegância no trato, a perseverança nas relações bem educadas mesmo entre opositores. Não! De forma alguma. Sou um defensor disso tudo.

Só não posso considerar normal afagos, risos e abraços no melhor estilo ‘grandes amigos’ no momento em que partes lutam por divergências sérias, ilegalidades que comprometiam, neste caso que narrei, a educação de crianças e o saneamento básico de todos. Ilegalidades que expunham desvios de conduta, má gestão, recursos públicos perdidos.

Lembro-me muito bem de não ter cumprimentado o outro lado, o ex-prefeito que me processava, alvo de minhas reportagens que o denunciavam como um mau gestor público. Não acenei com gestos de cograçamento em nenhuma das sessões que nos encontramos. Tampouco o agredi ou me imaginei fazendo isso. Mantive a distância e o tom sério que preservavam o ambiente judicial, o respeito ao devido processo legal e a minha integridade moral. Só isso. Era o sufuciente. Pra dignidade, necessário.

Conto toda essa história por causa desta foto abaixo, de Dilma, Cardoso e Aécio, desse clima de amizade e bom humor entre opositores no Senado no momento em que o país decide sua vida no processo de impeachment de Dilma Rousseff. A divergência legal e de projeto de nação que opõem ambos os lados em suas manifestações oficiais, não poderiam permitir a nenhum deles mais que o sereno e respeitoso cumprimento formal ao opositor. E só.

Foram, perigosamente, além. Todos os da foto abaixo e outros de outras cenas que este retrato não revela! Cruzaram a linha da hipocrisia e, ao supostamente manterem o “respeito” dessa forma tão efusiva, desrespeitaram os cidadãos de bem que lutam sem rir por um país melhor. Nada abala os argumentos que podem depor a presidente ou mantê-la, porque legal ou retoricamente válidos.

No entanto, a cena constrange de cá. Seria melhor que começasse a constranger os de lá.

Não imaginem os leitores que essa seja a primeira vez que isso acontece ou que me acontece. Quando âncora de rádio, portanto sem imagem, conduzi um debate no estúdio de São Paulo, entre parlamentares em Brasília, no Congresso. Logo depois, vim a saber pelo repórter local que os assistia, que eles, apesar da forte divergência demonstrada no ar, se abraçavam no momento da crítica ao outro. Considerei ofensivo à verdade, ao jornalismo, a mim, e, sobretudo, à audiência. Coloquei ambos os parlamentares na geladeira. E de lá não saíram antes de eu deixar a rádio.

Respeito é bom e alguém precisa tomar providência.

Senão, sempre haverá lembrança do célebre causo do filme Philadelphia:

“O que são 200 advogados acorrentados no fundo do mar? Um bom começo.”

Ps.: link e foto originais de reportagem do Jornal O Globo na internet, 30/08/2016.

http://oglobo.globo.com/brasil/senadores-se-confrontam-no-julgamento-do-impeachment-mas-em-intervalo-fazem-piadas-20015553?utm_source=Facebook&utm_medium=Social&utm_campaign=compartilhar

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