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Fernando Lopes - Iscas Politicrônicas -

Já assistiu A Lista de Schindler? Não? Assista, é excelente. Já viu? Veja de novo. Uma das cenas mais tocantes é a da elaboração da lista de pessoas que o protagonista pretende “comprar” do diretor do campo de extermínio de Auschwitz para impedir que sejam enviadas às câmaras de gás. Foi chamada de A Lista da Vida, com toda razão. Quem lá estava seria salvo; quem não estivesse caminharia para a morte lenta e agônica. Os escolhidos passaram à História como “os judeus de Schindler”, mais de 2 mil seres humanos salvos da morte certa pela coragem de um único homem. Estive visitando Auschwitz em 2009, e posso garantir que é uma das maiores representações da expressão “inferno na Terra” de que já se teve notícia. Sair de lá com vida era praticamente um milagre, que um milhão de exterminados e apenas um punhado de sobreviventes confirma.

Estar na lista era sinônimo de salvação.

Aqui, na Banânia, deputistas e senateiros de vários partidos, apoiados de forma retumbante pela escumalha em fuga da lava Jato, decidiram criar uma nova lista de salvação, desta feita inspirada pelos mais baixos instintos, e não pela hombridade. Uma lista de auto-salvação, uma lista de morte – morte da democracia.

Essa imundície em forma de projeto de lei pode ser assim explicada: Uma variante de eleição proporcional, na qual o eleitor (melhor chamar de vítima mesmo) opta não pelos candidatos de sua preferência, mas sim por uma entre várias listas fechadas, de candidatos escolhidos pelos partidos. O fim do mundo.

Resumo da ópera: Segundo essa gentalha, aprovada essa indecência, não votaríamos mais em candidatos, só em partidos. Não é de espantar que essa calhordagem sem limites parta exatamente de quem está enroladíssimo com a justiça. É uma forma de maquiar a situação ruim e levar a vítima, ops, eleitor, a engolir um (ou mais) peixe podre no meio dos bagres de sempre. Eunício Oliveira (PMDB/CE), cuja folha corrida dispensa maiores apresentações, afirma que a aprovação dessa imundície é “fundamental”. Só se for para ele; para nós, aqui no fundo do porão do navio negreiro da Banânia, vivendo com as migalhas que Brasília nos envia com ares de soberba magnânima, seria passagem só de ida para o inferno. Se já estamos num purgatório tentando escolher os menos piores, avaliem só se não pudermos contar nem ao menos com essa opção?

Não por acaso, a lulada amou a ideia, abraçando-a com carinho e ânimo desmedidos. Os sujeitos, independentemente de partido (visto que nenhum deles apresenta uma linha de pensamento e conduta digna de assim ser chamada, pois o desejo de locupletar-se sobrepõe qualquer ideologia, filosofia ou razão política), unem-se contra nós e a favor, unicamente, deles próprios, e a prova cabal disso é um detalhe do projeto, uma fofura: Os parlamentares atuais teriam preferência nessas listas fechadas, mantendo o foro privilegiado e a enorme probabilidade de reeleição. Não é um mimo?

Tenham vergonha na cara, por favor. Pelo menos um mínimo, só pra disfarçar.

Aprovada essa imundície, estaremos ainda mais próximos da Venezuela – no sentido da desgraça total. Vade retro. E atenção: Pra valer já nas eleições de 2018, essa bandidagem teria de ser aprovada até setembro deste ano. Dá pra sentir na cara e no suor abundante dos inimigos da democracia o desespero pra acelerar a coisa toda.

A lista de Schindler tirava as pessoas do horror. A de Eunício nos leva a ele. E sem volta.

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