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Chiquinho Rodrigues -

Um modelo 68 Stratosonic da Giannini, cópia da Fender americana. Corpo em Marupá, braço em maple, três captadores  single-coil, chave seletora, controles de graves, agudos, volumes, alavanca de efeitos e tudo mais a que se tinha direito na época.

Assim como B.B. King dera o nome de Lucille para sua famosa guitarra, João também tinha batizado a sua de Judith.

O João não era lá um grande músico, mas era um puta cara legal!

Grande contador de histórias, amigo, articulado, tinha nascido para tocar em bandas, amava e respeitava a música como os Veríssimos a palavra.

Ele e a Judith formaram uma grande dupla nos anos 70 e 80. Acompanharam artistas famosos, tocaram em bandas de baile e viajaram quase pelo Brasil todo. Ele falava o tempo todo em receber um dinheiro proveniente da herança de um tio que morrera há muito. Um dos destinos dessa grana (e seu sonho) era comprar uma guitarra importada… (cada vez que a Judith ouvia essa conversa, seu braço empenava todo e ela perdia uma ou duas daquelas bolinhas de madrepérola que servem para marcar os trastes). Porém essa grana nunca aparecia.

Cada músico tem sua praia e a do João era a do Santana.

Vê-lo espremendo e acariciando a velha Giannini num solo de “Evil Ways” era poesia pura. Ele valorizava a expressão de cada nota tocada e isso calava fundo em quem o assistia. A cumplicidade entre os dois (João & Judith) era uma coisa linda de se ver e ouvir!

Judith esteve sempre ao seu lado, mesmo nos momentos mais difíceis. Até quando ele teve que ser internado por todo o tipo de abusos cometidos: maconha, bebida e pó.

Um período negro esse. Mas ele conseguiu se safar.

Com a ajuda da Mara que era cantora e sua ex-mulher, João começou a frequentar uma igreja, acabou se convertendo e isso mudou o rumo da sua vida.

No começo dos anos 90 (já desintoxicado) ele e Judith se instalaram num quartinho nos fundos da casa da Mara e foram tocando a vida.

João conseguiu persuadir e levar para a igreja muitos outros de seus amigos músicos. O Ruy cantor, o Dalmo baterista e o Ciro baixista e, em pouco tempo, já tinham formado uma banda punk-rock-evangélica-acid-pop-retrô chamada “Inquilinos de Jeová”.

Arranjaram um empresário, convidaram a Mara pra cantar e voltaram a sonhar.

A banda compunha seus louvores, os ensaios eram puxados e eles se apresentavam todo fim de semana na igreja. Estavam felizes e de volta à estrada.

Um dia João apareceu com a grande notícia.

Tinha recebido a porra da grana da herança!

Chamou todos pra uma festa com empadinhas, coxinhas, refrigerantes, muita azia e apresentou então a todos a sua mais nova aquisição.

Uma guitarra Gibson modelo Les Paul Standart com estojo, correia, manual, pedal de efeitos, amplificador Marshall, zilhões de watts e o cacete a quatro!

Anunciou também que na seqüência estariam chegando uma nova bateria para o Dalmo e um novo baixo para o Ciro. Tudo importado!

–Uuuhhhh! — exclamaram todos.

Só Judith, encostada num cantinho, torceu suas cravelhas de ciúme até arrebentar as cordas si e ré. Assim, sem todas as suas seis cordas, sentiu-se rejeitada, velha e desdentada. Gemeu um solo triste e solitário, cheios de blue notes, glissandos, vibratos, bends e de lembranças felizes que tivera nas mãos do querido João.

Foi esquecida num canto do velho quartinho.

Fade out…

…Fade in

Os novos instrumentos chegaram e o próximo ensaio depois disso foi até gravado em vídeo.

Adilson, o empresário da “Inquilinos”, levou uma câmera e captou algumas imagens.

Terminado o ensaio, Adilson e João foram sozinhos assistir a fita e o empresário comentou:

– Sabe João, quando eu vejo a banda tocar, sinto que tem alguma coisa que me incomoda na apresentação de vocês, mas não sei bem te dizer o que é.

– Sinto o mesmo cara. Mas já sei o que é!– disse João analisando o tape.

– O que é? – perguntou Adilson já com o dedo no Review.

– É o Ruy, que já está velho, careca e gordo pra fazer parte da linha de frente. Com guitarra, baixo, bateria e amplificadores novos, ele está “destoando”. Não combina mais com a banda. Precisamos de um outro cantor.

Foi feita uma reunião.

E então… o velho amigo Ruy estava fora da banda.

No lugar dele entrou o Fred. Um carinha descolado.

Cantava e gritava com o desespero de quem tem o pau preso numa morsa. Cabelos compridos, mascava chiclete o tempo todo, usava jeans apertadinho, coçava o saco no meio dos solos do João e falava “demorô” pra qualquer merda que lhe perguntassem.

Mas era jovem e bonitinho. Foi aprovado no ato.

Depois de um mês, novo ensaio gravado e novas ponderações do João:

– Adilson, a Mara canta muito! Mas você não acha que ela já “passou do ponto” pra fazer par com o Fred lá na frente?

– Sei lá cara… a mina é sua ex-mulher, o marido dela é seu amigo, você mora quase de favor nos fundos da casa dela… vocês têm um filho juntos, você é quem sabe João. – disse o empresário apertando unzinho.

– É melhor procurar outra cantora sim. Com a minha guitarra Gibson, mais os outros instrumentos novos e o Fred cantando, a Mara não combina mais com a nova banda. Além do que eu já estou procurando um apartamento e logo mais vou deixar aquele quartinho — falou o filho-da-puta.

Foi feita uma reunião.

E a velha companheira Mara estava fora da banda.

Apareceram tantas meninas para o teste, que o João resolveu que além de trocar de cantora, poderia aproveitar a oportunidade e colocar mais duas backing vocals. Decidiu também que com todo esse contingente feminino, a banda teria que mudar de nome.

O nome Inquilinos de Jeová já não “combinava” mais com o novo layout da banda.

Nascia então a “Cólica Apostólica Romana”. Uma banda pós-punk-afro-grunge-rock-acid-pop-retrô-dancing-jazzy.

Não demorou muito para que o João começasse a achar que também o Ciro e o Dalmo não estivessem mais à altura e “combinando” com a nova “postura” da banda.

Nova reunião. Novo adeus.

No lugar deles apareceram dois carinhas amigos do Fred cantor. Agora sim, três figuras falando “demorô” o tempo todo. Todos na banda (menos o João) mascavam chicletes e faziam aquele ruído irritante de plástico-bolha estourando. A gritaria era geral, todo mundo se esguelava e ninguém se entendia. Porém, só o Fred ainda coçava o saco no meio dos raros solos de guitarra do João.

Começaram a produzir um CD e o João acabou nessa gastando o resto da herança deixada pelo tio.

As gravações eram puro mangue.

Muita confusão e discussão por bobagens. As opiniões do resto do grupo nunca iam ao encontro das do João e ele teve que vender alguns instrumentos pra poder pagar as intermináveis e infrutíferas horas de estúdio. A essa altura, já não restava mais nenhum amigo seu na banda, ele tinha voltado a beber e estava prestes a vender sua Gibson.

Num certo dia de ensaio (onde o João mais uma vez estava atrasado) o pessoal restante da banda resolveu fazer uma reunião. Ponderaram e entenderam que, com uma nova formação, com um novo nome, uma nova perspectiva e um novo CD, quem não “combinava” mais com tudo isso era o próprio João.

Quando ele chegou, lhe informaram que já não fazia mais parte da banda.

Cabisbaixo, aceitou a decisão. Pegou suas coisas e sem se despedir de ninguém foi embora. Assim que a porta do estúdio acabou de ser fechada, o resto da banda como num coro ensaiado murmurou:

– Demorô!

Daí pra frente, as coisas não andaram novamente boas pra esse meu amigo músico. Desempregado, vendeu sua Guitarra Gibson, o amplificador e saiu do apartamento que alugara.

Acabou voltando para o velho quartinho nos fundos da casa da paciente, mãe de seu filho e verdadeira amiga Mara.

E lá encontrou Judith.

Ela tinha esse tempo todo esperado sua volta.

Estava magoada sim. Fora trocada por uma “vinte anos mais nova”, tivera seu braço empenado pela umidade, seus trastes carcomidos por cupins, suas cordas enferrujadas e lotadas de zinabre provocado pelo ácido úrico das mãos do companheiro João. A pintura descascada, as feias manchas de bolor camuflavam sua cor original e essa feiura desbotada parecia traduzir o que se passava por dentro dela. Fora deixada de lado nas gravações e nos shows lotados da igreja. Esquecida fora do estojo e largada num canto frio, úmido e escuro.

Mas ninguém a tocara como ele.

E isso são coisas que uma guitarra nunca esquece. Seja ela nacional ou importada.

Com o passar do tempo o rancor da Judith foi diminuindo. Então, devagarzinho, ela foi permitindo que de vez em quando o pobre do João a tocasse e desfrutasse da sua companhia nas tristes noites de angustia e sofrimento dos dois.

Foram assim envelhecendo juntos e aos poucos aquela velha cumplicidade entre os dois até acabou voltando.

Porém, nunca mais se afinaram.

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