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Luiz Alberto Machado - Iscas Econômicas -

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“A um escritor, assim como a um armador, não era permitido sentir medo.”

Pat Conroy

Conversando por telefone com minha irmã, depois de meses sem nos vermos por conta da quarentena, ela me falou que estava lendo um livro do qual eu provavelmente iria gostar por ser relacionado com o basquete. Na primeira oportunidade em que nos vimos rapidamente depois disso, ela me emprestou o referido livro, cujo título é A última temporada.

Ao ler os comentários da quarta capa e das orelhas, meu interesse cresceu enormemente, de tal forma que rapidamente me dediquei à sua leitura.

Que feliz surpresa!

Em síntese, trata-se de uma autobiografia, narrada a partir da última temporada do autor no campeonato de basquete universitário norte-americano como jogador da rigorosa academia militar de Charleston, Carolina do Sul.

Pat Conroy, o autor, descreve a infância e a juventude que viveu em diferentes lugares do país, em razão das sucessivas transferências de seu pai, um violento ex-fuzileiro naval, que fora também jogador de basquete, e que descarrega todas as suas frustrações na mulher e em seu filho mais velho.

Depois de considerável sucesso em equipes colegiais, que justificaram o sonho de uma bolsa como jogador de alguma das principais equipes universitárias dos Estados Unidos, Conroy acabou, sem antes sofrer algumas decepções, tendo que se contentar em estudar e jogar pela equipe da academia militar, única a lhe conceder a indispensável bolsa de estudos de que necessitava para frequentar a universidade, dadas as limitações financeiras de sua família.

O começo na academia não teve nada de animador. Muito pelo contrário. Conroy teve de experimentar as atrocidades impostas aos calouros que eram famosas na instituição e que acabaram provocando o abandono da academia de alguns dos mais promissores companheiros da equipe de basquete.

Além da sua própria quase desistência, Conroy descobriu que o treinador do time de basquete era quase uma reedição de seu pai, pois tinha uma relação extremamente fria com os atletas, criticando-os e desestimulando-os na maior parte do tempo e, com isso, gerando a insegurança e a perda de confiança de muitos jogadores.

Tal perda de confiança atingiu o próprio Conroy e, em consequência disso, ele chegou à sua última temporada acreditando que, a exemplo do que ocorrera nas três primeiras temporadas, ele continuaria sendo um reserva com poucas chances no time titular.

Diante disso, recebeu com surpresa a notícia de que fora escolhido para ser o capitão naquela temporada em que a equipe, que já não era muito forte, acumulou uma série maior de derrotas do que de vitórias. Durante a temporada, sua liderança foi se consolidando enquanto, por um lado, convivia com suas dúvidas a respeito do que faria no futuro e, de outro, procurava neutralizar o efeito negativo das atitudes do técnico sobre seus companheiros, restituindo-lhes a confiança e a autoestima.

Numa narrativa que tem como pano de fundo a sucessão de jogos da última temporada da equipe, Conroy prende a atenção do leitor, quer pela descrição detalhada dos jogos, quer pelo seu amadurecimento nas relações familiares e, principalmente, com seu técnico, seus companheiros de equipe e seus professores, em especial aqueles que o estimularam a seguir a carreira de escritor, o que não é comum numa academia militar.

Duas coisas me marcaram profundamente neste livro, cuja leitura recomendo a qualquer apreciador de esportes – e, em especial, para quem teve a oportunidade de estudar nos Estados Unidos. A primeira tem a ver com a coincidência com a minha própria trajetória, pois fui armador das equipes em que atuei enquanto jogador de basquete e acabei me tornando, entre outras coisas, autor de centenas de artigos e de alguns livros, um dos quais, Das quadras para a vida, escrito em parceria com meu filho, focalizando as lições aprendidas nas quadras aplicadas às nossas relações pessoais e profissionais. A segunda relaciona-se com a maneira pela qual o autor revela como foi forjando seu espírito a partir de uma temporada pontilhada mais de fracassos do que de sucessos.

O trecho escolhido por mim para concluir este artigo ilustra bem esse aspecto: “Não há um lado negativo na vitória. Seu sabor é eternamente fabuloso. Mas não existe professor mais seletivo ou transformador do que a derrota. O grande segredo do esporte é que você pode aprender mais com a derrota do que com a vitória”.

 

Iscas para ir mais fundo no assunto

Referências bibliográficas

CONROY, Pat. A última temporada. Tradução de Roberto Muggiati. Rio de Janeiro: Record, 2005.

MACHADO. Luiz Alberto e MACHADO, Guga. Das quadras para a vida: lições do esporte nas relações pessoais e profissionais. São Paulo: Trevisan Editora, 2018.

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