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Guerra Fria

 Antes, durante e depois

“A Guerra Fria foi um período em que a guerra era improvável, e a paz, impossível”.

Raymond Aron

Não sou um cinéfilo, mas tenho o hábito de aproveitar as semanas que antecedem a entrega do Oscar, quando costumam entrar em cartaz os filmes que vão concorrer às diversas categorias da cobiçada estatueta, para assistir a alguns dos concorrentes. Este ano não está sendo diferente.

Entre os indicados – nas categorias de filme estrangeiro, direção e fotografia – está o filme Guerra Fria, dirigido pelo polonês Pawel Pawlinowski. Rodado em preto e branco, a trama começa como uma espécie de documentário, acompanhando músicos amadores da Polônia rural, até uma garota se destacar, ser escolhida para uma escola de artes, em seguida integrar uma companhia e encontrar, entre os professores, o homem de sua vida. Seguem-se os principais eventos que abalaram a macropolítica logo após o fim da Segunda Guerra Mundial. O romance se desenvolve ao longo de 15 anos, intercalando passagens na Polônia, França e Alemanha, durante os quais o diretor se limita a fornecer as informações indispensáveis sobre as inúmeras vezes em que os dois amantes se separam e se reúnem, sem detalhes sobre as circunstâncias exatas do distanciamento.

Nesse intervalo, o casal atravessa difíceis momentos provocados pela situação política da Polônia, cujos dirigentes interferem na programação da companhia. O ápice da interferência ocorre quando um dirigente político polonês “sugere” que se incluam no repertório algumas músicas enaltecendo os grandes líderes da época, em especial o camarada Stalin.

O filme não deverá fazer muito sucesso, mas deve agradar a comunidade de cinéfilos que prestam atenção a aspectos técnicos, tais como direção, fotografia, roteiro, iluminação etc.

O que me despertou atenção foi o título do filme e, nesse sentido, foi mais do que justificada minha decisão de assisti-lo. Os acontecimentos retratados no filme ilustram bem o que ocorria na época da Guerra Fria, que se estendeu do fim da Segunda Guerra até a queda do Muro de Berlim e o desmoronamento do império soviético. Nesse período, as relações internacionais foram marcadas pela intensa disputa entre dois blocos, o capitalista, liderado pelos Estados Unidos, e o socialista, liderado pela Rússia e, posteriormente, pela União Soviética.

Era a época chamada pelos internacionalistas de mundo bipolar, caracterizado, por um lado, pelos momentos de grave tensão, e por outro, por certa previsibilidade e facilidade de entender as ações dos principais atores.

O fim da Guerra Fria marca o encerramento do mundo bipolar, cedendo espaço para o mundo multipolar[1], com um grau de tensão seguramente menor, mas de compreensão e previsibilidade, muitas vezes, bem mais complicadas.

Iscas para quem quiser ir mais fundo no assunto

Referências bibliográficas

FUKUYAMA, Francis. O fim da história e o último homem. Tradução de Aulyde Soares Rodrigues. Rio de Janeiro: Rocco, 1992.

MIGST. Karen A. Princípios de relações internacionais. Tradução de Arlete Simille Marques. Rio de Janeiro: Elsevier, 2009.

Referência cinematográfica

Guerra Fria (Cold War)
Direção: Pawel Pawlikowski
Gênero: Drama
Elenco: Joanna Kulig, Tomasz Kot, Borys Szyc, Agata Kulesza, Jeanne Balibar
Duração: 89 minutos

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

[1] Esta é, pelo menos, a visão predominante entre os internacionalistas. Mas não é consensual. Vale, a respeito, reproduzir o questionamento do resumo final do capítulo 2 do livro Princípios de relações internacionais, de Karen A. Mingst. “O pós-Guerra Fria será caracterizado pela cooperação entre as grandes potências ou será uma era de conflitos entre Estados e entre novas ideias? O mundo pós-Guerra Fria sinaliza um retorno ao sistema multipolar do século XIX? Ou essa era testemunhará um sistema unipolar dominado pelos Estados Unidos e comparável à hegemonia britânica no século XIX?”. Charles Fukuyama foi provavelmente o grande propagador da tese do mundo unipolar com seu livro O fim da história e o último homem. Vide Apêndice, com a figura reproduzida da página 79 do livro Princípios de relações internacionais, que ilustra bem a evolução recente da questão da polaridade no sistema internacional.

 

Apêndice

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