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A linguagem é dialética. Para apreender toda a extensão do que é dito, é preciso captar não só o seu significado explícito, mas também o que se oculta.

Todos sabemos: em período de pandemia, é preciso ficar em casa, cumprindo com o máximo de rigor a clausura, para que possamos nos proteger mutuamente.

Esse é o aspecto evidente da frase das campanhas do tipo “fica em casa!”.

* * *

Porém, nestes nossos tempos estranhos uma estrutura hermenêutica oculta se ilumina toda vez que alguém pede que não saiamos à rua. Sob esse pedido surge, dialeticamente, um outro significado que nega o que está explícito: toda vez que pedimos que se “fique em casa”, imediatamente pressupomos a existência de uma rede social composta por pessoas que não têm o direito de ficar em casa.

O confinamento de parte da população somente é possível se outra parte da população permanecer em seu trabalho pronta para servir a quem está isolado. Para que uma parte da população possa, por meio do isolamento, proteger a sua vida e a vida dos seus, a outra parte precisa se sacrificar. A exigência de que todos se isolem corresponde, dialeticamente, à exigência do sacrifício de um outro. Essa conclusão é incontornável.

* * *

A possibilidade de manter a clausura é um privilégio: privilégio de quem possui um emprego estável, possui recursos, possui reservas. Quem pode cumprir um isolamento rigoroso, evitando o contato com as ruas e com os outros, é o integrante da classe média e alta, é a elite econômica e intelectual.
O pobre – que precisa conquistar a cada dia o pão, pois não tem carteira assinada, não é funcionário público, não tem reservas – não tem o direito de manter o claustro. Pelo contrário: ele precisa servir a quem pode se isolar.

Ele precisa guardar a portaria, faxinar, cozinhar no restaurante ou na casa do patrão, entregar de moto a comida japonesa, cuidar da internet, da água, da luz, do gás, dirigir os ônibus, os táxis e os übers, controlar o trânsito, levar o lixo, manter a ordem – para o benefício da classe que se salvaguarda no lar.

* * *

Amigos, vocês vão entender o que eu digo: na reunião de trabalho, defendemos a manutenção do isolamento, criticamos as propostas de volta ao trabalho, denunciamos uma “política genocida”. Mas quando toca a campainha fechamos o Zoom para receber o motoboy do Ifood que veio trazer o nosso sushi. E, com todo o cuidado, passamos álcool em todos os pontos da embalagem em que ele pode ter tocado.

Em outras palavras: a defesa deste modelo de isolamento, um modelo em que somente a elite – econômica ou intelectual – pode se isolar, é ideológica. Quando defendemos o isolamento, defendemos o nosso privilégio, o privilégio da elite. Afinal, para que exista este isolamento, os miseráveis precisam nos prover de todos os luxos e confortos. Nessa ideologia que incorporamos e naturalizamos, há vidas – a nossa – que valem mais do que as outras – a do outro, miserável e invisível.

Sob o pedido para que “todos” fiquem em casa, há implícita a ordem para que um “ninguém”, um outro indistinto e esquecido, continue a servir. Amigos, quem podemos – e desejamos – sacrificar para que nos salvemos?

* * *

É necessário perceber que, nesse pedido para que guardemos o claustro, existe a exigência implícita do sacrifício do outro – e o silêncio sobre essa exigência. Para que possa se salvar, uma classe exige, sem que se possa levantar uma única objeção, o sacrifício da outra.

De fato, a linguagem do “fica em casa!” opera, dialeticamente, com duas funções: uma função positiva e uma função negativa. A frase, imperativa, tem o seu reflexo espelhado como um imperativo negativo: ela carrega a exigência de que as classes baixas façam exatamente o contrário do que se pede.

Neste sentido, a exigência do isolamento é uma expressão radical de elitismo social: sob a aparência do interesse no bem comum, sob a roupagem da responsabilidade comunitária, se esconde o monstro da objetificação e da instrumentalização do ser humano.

* * *

Então o isolamento social deveria ser abandonado? Não. De fato, eu defenderia a sua radicalização.

Para que pudéssemos praticar essa radicalização, isto é: para que houvesse verdadeiramente um isolamento geral, seria necessário tomarmos consciência das nossas atitudes. Não faz sentido permanecermos em nossos apartamentos, por exemplo, enquanto pedimos um jantar pelo aplicativo. Vocês percebem, amigos, quão elitista é essa nossa atitude? Que com ela estamos estabelecendo que o outro pode arriscar a sua saúde na rua, mas nós não? – ou, em outros termos, que a vida do outro vale menos do que a nossa? Vocês percebem que, ao exigirmos que o porteiro esteja a postos, que a assistência técnica da internet esteja trabalhando, que o gari leve o nosso lixo, estamos estabelecendo uma hierarquia social – determinando o nosso valor e a nossa indispensabilidade e, ao mesmo tempo, a falta de valor e a dispensabilidade de quem é mais pobre do que nós?

Um verdadeiro isolamento – e não um isolamento somente das classes superiores da sociedade – exigiria a interrupção de todos os serviços. Todos, exceto os realmente essenciais: os hospitais, a polícia. Um confinamento assim demandaria, por conseguinte, que nos tornássemos mais responsáveis para com a nossa vida cotidiana: precisaríamos produzir menos lixo, na ausência dos garis; precisaríamos exercitar a paciência e a tolerância e nos acostumarmos com a possibilidade da queda da internet, da luz, do sinal do celular; precisarímos diminuir as nossas necessidades, racionar o nosso alimento, nos encolher do ponto de vista social e econômico.

Além disso, precisaríamos aprender a dividir e a receber: a partilhar com o nosso próximo os recursos de que dispomos com abundância e a receber, sem nos sentirmos humilhados, uma parte dos recursos de que o próximo dispõe em excesso. Quem muito possui deve, numa situação de real isolamento, compreender que a riqueza obriga à generosidade: a manutenção da vida das famílias pobres é uma responsabilidade de quem lhes pode ajudar. O exercício da fraternidade é o único caminho para que superemos sem convulsão social qualquer grande crise.

Finalmente, um verdadeiro isolamento nos levaria a descobrir que podemos viver uma vida menos exigente, menos dispendiosa, menos poluente. Façamos o isolamento, o isolamento de verdade, e o mundo – dentro e fora do homem – se tornará mais belo, mais justo, melhor.

* * *

Mas se a radicalização do isolamento for impossível, se a única quarentena possível for esta que temos, melhor seria simplesmente extingui-la. Porque, do modo como está posta, a campanha para que “fiquemos em casa” não passa de expressão ideológica de um privilégio de classe e revela a nova face da escravidão: a escravidão moderna em que a existência de alguém invisível, anônimo e miserável – um verdadeiro ninguém – é instrumentalizada em benefício do bem-estar dos novos senhores.

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