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Lady Murphy

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Chiquinho Rodrigues -

Há alguns anos dei aula em um conservatório musical em São Paulo onde conheci uma senhora muito interessante chamada Charlote Mellors Buckingham. Era uma elegante senhora inglesa alta e magra que vivia quase o tempo todo vestida de preto e carregava pra onde quer que fosse um fino estojo de couro onde guardava seu amado violino.

Ela era apaixonada pelo instrumento! Estudava todos os dias quase umas seis horas ininterruptas, o que deixava todo mundo do conservatório desesperado, pois ela tocando era uma bosta.

Tinha morado na Polônia, casado com um rico comerciante judeu e durante a Segunda Guerra ela e o marido foram perseguidos e presos pela Gestapo. Nos campos de concentração ela acabou perdendo-se do companheiro. E num dia de vacilo dos alemães ela conseguiu fugir e, não se sabe como, chegar aqui ao Brasil depois de passar fome e frio nos porões de um cargueiro com destino ao Rio de janeiro.

Ela me contou que chegou a morar em um sobrado caindo aos pedaços no Tatuapé e que a casa vivia infestada de ratos.

Um dia, limpando o banheiro no andar de cima, ela tentou matar um rato jogando-o dentro da privada e dando descarga, mas o puto não descia. Então ela teve a feliz ideia de jogar querosene para tentar matar o roedor pentelho. Parece que acabou dando resultado e o rato sumiu esgoto adentro.

Um pouco mais tarde a velha senhora sentiu necessidade de usar o banheiro. Ficou lá sentadinha fumando seu cigarrinho, castigando a louça e pensando na vida. Quando terminou de fumar jogou inadvertidamente a ponta de cigarro, ainda aceso, dentro vaso onde ainda havia resquícios de querosene na superfície da água.

Bum!

Bom… vou te poupar da descrição da cena deprimente da elegante senhora inglesa caída sem sentidos no chão do banheiro alagado, com as calcinhas arriadas, um budum de esgoto pelo ar todo e ainda por cima o porra do rato assustado patinando e espalhando merda pra tudo quanto é lado! (Mas não pára por aí não…).

Os vizinhos solícitos ouviram o barulho e foram acudi-la. Umas quatro senhoras tentaram recompor a velha dama e todas juntas resolveram transportá-la para o andar de baixo. Quando estavam (com todo o cuidado) descendo as escadas, Lady Charlotte acordou!

Preocupadas, as amigas quiseram saber o que havia acontecido! E quando a velha inglesa contou, todas cagaram de rir. E aí, é claro, ficaram molinhas e soltaram sem querer a velha senhora que rolou escada abaixo.

Lady Charlote Mellors Buckingham… além de esmerdeada, despenteada, molhada e sem calcinha, acabara também de fraturar a bacia!

Depois de ter sido perseguida por nazistas, perder o marido rico, ficar presa em um campo de concentração, fugir para o Brasil passando mais de um mês dentro de um porão fétido, ter explodido seu panaro, caído da escada e quebrado a bunda… Depois de todas essas situações bizarras e estranhas vividas por ela, é natural que o pessoal do conservatório tivesse lhe colocado o apelido de Lady Murphy!

O violino Luciano, é um instrumento maravilhoso!

Das mãos de Paganini saíram os 24 Caprichos. Uma fantasia inesgotável e um lindo romance poético que podem ser mensurados como valores definitivos de Niccolo Paganini como músico e compositor.

Das mãos de Stephane Grappelli foi definido o papel do violino no jazz, através do seu som doce, elegante e de seu fraseado cheio de swing.

Das mãos de Jean Luc Ponty o Jazz e o Rock surpreenderam-se com o resultado inovador da combinação dos sons acústicos e elétricos de seu instrumento e da aplicação do violino na música moderna.

Nas mãos de Lady Murphy o violino foi quase considerado um instrumento de tortura humana!

Era foda!

Era frequente o pessoal estar fazendo um som lá no conservatório e de repente chegar Lady Murphy com seu violino pra esculhambar a jam session do povo! Ela não tocava porra nenhuma e queria participar de toda e qualquer banda criada lá na escola de música.

Ela entrava no som e de fininho um a um ia se mandando. Quase sempre me deixavam sozinho com ela. Cada um inventava uma desculpa mais esfarrapada que a outra:

– Tô indo pra facu…

– Preciso jantar…

– Minha mãe ta me chamando…

-Tenho que trocar o pneu da lancha…

Qualquer merda de desculpa servia pra me deixarem sozinho com Lady Murphy.

E ela me alugava, cara.

Charlotte havia aprendido a melodia de Garota de Ipanema e vivia pedindo pra eu acompanhá-la ao violão.

A primeira parte ela executava em piccicato e ainda dava pra aguentar. Mas na segunda parte ela carcava a mão na porra daquele arco e aí eu pagava meus pecados.

O tempo foi passando e Lady Murphy provou não ser tão azarada assim. Casou-se novamente com um rico comerciante dono de uma cadeia de lojas da 25 de março e a cada quinze ou vinte dias ela apresentava pra gente um novo e raro violino que acabara de adquirir (mas nem mesmo assim o pessoal deixava a tadinha da Charlotte participar de qualquer som ou banda).

O tempo passou, parei de dar aulas nesse conservatório e não soube quase mais nada dessa tribo até a semana passada, quando recebi um e-mail de um dos donos dessa escola que continua lá até hoje.

O e-mail era um convite endereçado a mim e a todo o pessoal daquela época.

Era uma reunião para lembrar-se dos bons tempos. Regada a nostalgia e muito som.

Fui, revi gente querida, toquei e me emocionei.

No final de uma das apresentações o diretor da escola subiu ao palco, dirigiu-se ao microfone e pediu nossa atenção.

– Gente… Estou muito feliz de ver quase todo mundo reunido aqui nesta noite. E tenho uma notícia que eu queria repartir agora com todo mundo — disse ele solene nesta hora – Lady Murphy faleceu na madrugada de ontem. Ela já estava doente há muito tempo e sabia que seu fim estava próximo. Seu marido esteve hoje de manhã aqui pra nos dizer que ela havia deixado em seu testamento toda a sua valiosa coleção com mais de 40 raros violinos para que o nosso conservatório administrasse uma Fundação com o nome de Lady Murphy (E não Charlotte Buckingham) com o propósito de ensinar e incentivar crianças sem recursos que demonstrassem, como ela, verdadeiro amor ao violino – ele fez uma pequena pausa pra engolir em seco e continuou – – Ela já sabia há muito tempo que hoje infelizmente não poderia estar aqui entre nós. O que é uma pena. Pois ela deixou claro em suas últimas palavras que o período mais feliz de sua vida foi quando tocou com músicos maravilhosos como vocês. Obrigado.

Depois dessa, todo mundo ali ficou com cara de cu,  né?

Fiquei pensando: como agradecer uma mulher dessas? Só indo pro céu mesmo! (que é pra onde ela deve ter ido).

E para eu ir para o céu você sabe muito bem que vai ser meio difícil, né?

Aliás, já fiz tanta cagada na vida que acho até que já deva existir lá no inferno um a grelha com meu nome escrito me esperando.

As orações e boas ações que pratico hoje, na verdade são mais pra tirar um pouco da brasa existente nessa grelha do que propriamente ser um conduto para ir lá para cima.

Mas já pensou… eu, você e toda a turma do conservatório lá no céu?

Fico imaginando aquelas nuvens branquinhas feito algodão… A gente ouvindo um som celestial que vem de quarenta anjos todos vestidos de branco formando uma orquestra e executando uma sinfonia com aquelas suas harpas pentelhas… e de repente chega Lady Murphy com a porra do seu violino pra esculhambar o som…

Impagável cara!

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