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“O homem sensato adapta-se ao mundo. O homem insensato persiste em tentar adaptar o mundo a ele mesmo. Portanto, todo o progresso depende do homem insensato.”

George Bernard Shaw

Leitor inveterado, fico aguardando ansiosamente os recessos escolares, ocasiões em que normalmente resta mais tempo disponível para dedicar à leitura, um de meus passatempos prediletos.

Meu artigo de hoje tem o objetivo de compartilhar com o amigo internauta minhas impressões dos livros que tive oportunidade de ler até agora, neste recesso de meio de ano, cabendo a confissão de que o primeiro dos livros comentados foi lido no final de junho, quando as atividades acadêmicas regulares já se encontravam em ritmo mais reduzido.

Como será fácil constatar, alterno leituras de diferentes áreas, hábito que recomendo a qualquer pessoa interessada em expandir seu potencial criativo. Afinal, torna-se muito difícil fazê-lo quando se dedica todo o tempo à realização das mesmas tarefas, à leitura dos livros de uma mesma área ou a qualquer outro tipo de rotina.

Feito esse esclarecimento, segue breve comentário dos quatro livros que tive oportunidade de ler até agora, ou seja, até a metade do mês de julho.

O primeiro livro, que tem feito grande sucesso tanto no Brasil como no exterior, tem o título de Submissão e é de autoria do francês Michael Houellebecq, quem tem sido comparado por alguns críticos – prematuramente em minha opinião – a autores consagrados como Aldous Huxley e George Orwell. Em seu livro, Holleback projeta, para um futuro não muito distante, um segundo turno das eleições majoritárias na França sendo disputado por uma candidata da extrema direita e um candidato muçulmano. Diante da natural polarização causada por essa disputa, diversos partidos se aliam ao candidato muçulmano, que, assim, conquista a vitória, transformando-se no primeiro mandatário muçulmano da França. Todo o período que precede as eleições, assim como os meses iniciais do novo governo são examinados a partir da ótica de um professor universitário repleto de problemas existenciais que conferem à trama um sabor ainda mais especial.

Submissão

O segundo livro que devorei na primeira semana de julho foi comprado em minha última visita a encantadora capital argentina, em meados de 2013. Como faço sempre que vou a Buenos Aires, dei uma passada na famosa livraria Ateneo, de onde invariavelmente acabo saindo com alguns volumes. Um dos que adquiri nesta vez e que permaneceu aguardando na prateleira por  mais de dois anos tem por título La creatividad develada e é de autoria de Alvaro Rolon. O autor foi enfeitiçado pela magia da criatividade, bebendo na mesma fonte que eu e muitos de meus colegas da FAAP, ou seja, os eventos promovidos pela Creative Education Foundation, conhecidas como CPSI – Creative Problema Solving Institute. O grande mérito do livro, a meu juízo, decorrente do fato de que o autor se tornou um bem sucedido consultor em sua terra, e a capacidade de fazer a ligação entre a criatividade e a inovação, o que lhe permite relatar uma série de exemplos concretos do mundo corporativo. Dessa maneira, diferentemente de outros livros que não saem do campo teórico, este de Álvaro Rolón consegue construir a ponte entre a teoria e a realidade.

La creatividad develada

O terceiro livro que li – num fôlego só, diga-se de passagem – foi comprado por impulso logo que me deparei com seu título por ocasião de um lançamento de livro na Livraria da Vila do Shopping Pátio Higienópolis. Luc Ferry, o autor, fez um jogo de palavras com uma famosa contribuição teórica de Schumpeter, um dos mais importantes economistas do século XX, dando a seu livro o título de A inovação destruidora, acompanhada do subtítulo Ensaios para compreender as sociedades modernas. Numa época em que se veem crises pipocarem em várias partes do mundo, levando muita gente a questionar a própria capacidade de sobrevivência do velho capitalismo – sendo o francês Thomas Piketty o mais festejado graças ao extraordinário êxito de seu  O capital no século XXI, o livro de Luc Ferry parte de uma comparação  das proposições de Keynes e Schumpeter para, na sequência, dar mais ênfase à um aspecto negativo do capitalismo decorrente da busca incessante pela inovação do que a seus aspectos positivos enaltecidos por Schumpeter e inúmeros outros analistas, seguidores ou não das ideias do polêmico economista nascido na Áustria, mas não pertencente à chamada Escola Austríaca de Economia, tão bem representada na segunda metade do século passado por nomes como Hayek e von Mises. Embora explore  o caráter selvagem e concentrador do capitalismo, o autor o faz sem qualquer fanatismo ideológico, o que dá ao texto uma enorme credibilidade. Em nenhum momento, ele põe em dúvida a eficiência do capitalismo no que se refere à sua eficiência na produção da riqueza. Com tal postura, referenda uma das mais conhecidas afirmações de Marx e Engels, que, em 1848, em O manifesto comunista, enalteceram a capacidade da burguesia e das forças produtivas do capitalismo: “Ela (a burguesia) criou cidades colossais, aumentou muito a população urbana em relação a rural…durante pouco mais de cem anos em que se encontra no poder, ela criou forças produtivas colossais e mais sólidas do que todas as gerações anteriores juntas”.

A inovação destruidora

Por fim, o quarto e último livro me foi recomendado por meu filho, que acabou adquirindo-o na livraria do aeroporto, numa das viagens de sua atribulada agenda de percussionista. Os bilionários foi escrito por Ricardo Geromel, um estudante de economia que tentou a carreira de jogador profissional de futebol, se especializou em administração de empresas e que, depois de perambular por várias atividades, foi encontrar sua realização – pelo menos temporariamente – trabalhando na revista Forbes, onde fez parte da “equipe da riqueza”, um seleto grupo de repórteres que investiga, descobre e revela bilionários e novos potenciais integrantes dessa invejável classe. Escrito de maneira clara, com um texto muito acessível, tornando sua leitura uma experiência extremamente agradável, o livro começou a me conquistar – e também ao meu filho, com certeza – já na Introdução. Nela, o autor afirma que não existe forma melhor de aprender do que viajando, com o que eu concordo integralmente. Logo depois diz que Nova York e o centro do mundo, com o que meu filho concorda vigorosamente (e eu também, ainda que não faça questão de sair admitindo aos quatro ventos). Além do texto acessível, o livro contém ilustrações divertidas e vários exemplos de pessoas super conhecidas para contar coisas interessantíssimas, entre as quais destaco duas para encerrar este breve comentário: a primeira é que existem mais características em comum entre os 1.645 bilionários presentes na lista da edição de 2013 da Forbes do que “a quantidade de zeros antes da vírgula em suas contas bancárias”, que Geromel procura condensar em oito “regras”; a segunda é que a esmagadora maioria dos bilionários permanece trabalhando com enorme dedicação, sendo verdadeiros workholics, mesmo sendo possuidores  de enormes fortunas. Logo, se você é mais um daqueles que sonha em ganhar sozinho a Super Sena da Virada, a fim de começar o ano jogando tudo para o espaço, a começar pelo seu chefe e desfrutar imediatamente a grana recebida saiba que dificilmente permanecerá por muito tempo nesse fechadíssimo clube que detém parcela considerável do PIB mundial.

Os bilionários

Cada um à sua maneira, os quatro livros aqui comentados me fizeram sentir gratificado  é recompensado pelo tempo dedicado à sua leitura. Por isso, resolvi compartilhar com os amigos internautas, esperando que aqueles que decidirem seguir minha indicação tenham a mesma sensação de prazer e de alegria que eu tive.

Iscas para ir mais fundo no assunto

Referências e indicações bibliográficas

FERRY, Luc. A inovação destruidora: ensaio sobre a lógica das sociedades modernas. Rio de Janeiro: Objetiva, 2015.

GEROMEL, Ricardo. Bilionários. São Paulo: LeYa, 2014.

HOUELLEBECQ, Michel. Submissão. São Paulo: Alfaguara, 2015.

MARX, Karl e ENGELS, Friedrich. O manifesto comunista. Tradução de Maria Lucia Como. 15ª ed. Rio de Janeiro Paulo: Paz e Terra, 1998.

PIKETTY, Thomas. O capital no século XXI. Tradução de Monica Baumgarten de Bolle. São Paulo: Intrínseca, 2014.

ROLÓN, Álvaro. La creatividad develada. Buenos Aires: Temas Grupo Editorial, 2010.

SALGADO, Eduardo. Por que é tão desigual? Exame, edição 1067, ano 48, nº 11, 11 de junho de 2014, pp. 32-41.

SCHUMPETER, Joseph A. Teoria do desenvolvimento econômico: uma investigação sobre lucros, capital, crédito, juro e o ciclo econômico. Introdução de Rubens Vaz da Costa. Tradução de Maria Sílvia Possas. São Paulo: Abril Cultural, 1982. (Os Economistas)

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