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Meus caros amigos

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Fernando Lopes - Iscas Politicrônicas -

                        É, Chico… você realmente é um gênio da música. Permaneça assim, por favor, esqueça a política. Melhor parar de interpretar pobreza como beleza e roubalheira como ato justificável. Que tudo está ótimo no Brasil, e a tal zelite arma pra cima da Dilma com medo da volta de Lula. Chega a doer ver você, um exemplo perfeito e acabado de elite, milionário, com apartamento às margens do Sena, em Paris, recebendo em dólares da EMI-Odeon, afirmar que a classe média quer ver pobre sofrendo por pura maldade. Tenha dó.

                        Assusta ver quem nasceu em berço de ouro alegar que luta pelos pobres só porque “engajado”, amiguinho de Lula e comunista festivo da esquerda caviar, que elogia Cuba, mas recebe dos americanos e viaja pra Europa por meses a fio. Quando enjoa, volta para sua caríssima residência no Leblon. Que exemplo de humildade lulista…

                        Bonito, Chico, é quem se revolta com a miséria e a vence; não quem a usa, mantendo-a viva para se eternizar no poder, com compra de votos, através de esmolas estatais. Aliás, essa era a definição que seu amigo Lula deu aos programas sociais de FHC, antes da “brilhante” idéia de juntar tudo num tal bolsa-família que compra os pobres-coitados como uma mesada sem a menor contrapartida.

Mas tem gente, Chico, que luta. Muita gente. E uns até vencem de maneira espantosa. Mas, pela régua de vocês, elite é só quem vence na vida sem pedir “bença” pro lulismo. Já a elite que abana (ou finge) o rabinho… ah, esses são camaradas. Aham. Taí o Eike que não nos deixa mentir; e Val Marchiori, a milionária, com seu Porsche comprado com dinheiro do BNDES, com juro subsidiado para fomento de empresas? A lista é interminável, e muitos estão na cadeia. Ufa.

                        Só pra lembrar: “Enriquecer é glorioso, camarada” foi uma das frases mais conhecidas de Deng Xiaoping. O premiê chinês de 1978 a 1992 descobriu que comunismo é uma imbecilidade que só leva à fome, à morte, à doença, à guerra. Os chineses o ouviram. Os soviéticos ficaram naquele sonho louco que você e seus amigos fingem defender. Deu no que deu. Já cuspi no muro de Berlim. A vontade era fazer outra coisa nele, mas ia dar cadeia pra mim. Foi ótimo ver aquele símbolo da miséria, da tirania, da podridão que vocês defendem, no chão.

                        Ah, sim: Os que vencem. Que tal um negro, sem estudo, morador de rua, um “fodido”, na expressão dele próprio? Mas que venceu, com seu esforço, sem nada do governo. Alguém poderia vencer contando com esmola estatal? Impossível, Chico? Mas com trabalho, estudo, esforço verdadeiro isso é possível, e louvável.

                        O cantor, ator e compositor e músico Seu Jorge é um ótimo exemplo; sua antítese, Chico. Ele alcançou fama internacional com seu trabalho e devia ser respeitado como um vencedor, um lutador, um exemplo a seguir, derrotando a miséria com trabalho duro… mas você e seus amigos o enxergam como um “traidor”, que não aceitou continuar pobre, recebendo quietinho as migalhas que vocês mandam. Como ele mesmo diz:

                        Favela não é lugar para ninguém. Favela não é legal. Não tem segurança, não tem saneamento, não tem hospital, não tem porra nenhuma. Favela só sofre preconceito. Eu quis sair mesmo. Eu não quis ficar enterrado na favela. Nasci lá, mas não quis ficar enterrado lá. Favela não é meu mundo, meu tudo, porra nenhuma. A favela é o abandono que o governo deixou pra gente. E hoje eu não quero tocar na favela para não me envolver com tudo que está errado lá dentro.

                        Acho que a política brasileira está passando por uma crise de identidade muito grande. Não reconhecemos mais quem nos representa. É um problema muito sério, porque atinge a percepção da capacidade de o Brasil ser um país colossal, como ele merece e tem condições para ser. O mundo todo torce para o Brasil e para o brasileiro, eu percebo isso [lá fora]. Os programas sociais não são um problema, mas causam um rombo muito grande e fazem com que as pessoas não se movam para alcançar outro plano. As contas do governo também não batem. Acho que uma série de ministérios deveria ser suprimida e que precisamos de gestores mais sérios. Está cada vez mais difícil representar o Brasil fora daqui, e essa é minha função. Não saí do Brasil para me tornar um gringo – eu saí para afirmar o Brasil. Mas está difícil, porque nossas mazelas e feridas estão expostas e as pessoas não acreditam na gente. Isso interfere diretamente no meu trabalho e carreira.

                        O patrulheiro que fica me enchendo o saco, dizendo “Pô, o Jorge agora mora nos Estados Unidos”, tem que se lembrar do seguinte: eu era morador de rua, um fodido e meu dinheiro eu fiz centavo por centavo sem sacanear ninguém, sem roubar ninguém. O Brasil em que eu acredito é esse que está na Avenida Paulista ralando; é o Brasil do motoboy, das mães solteiras fazendo faxina como diaristas, dos garçons, dos seguranças. Esse é o meu Brasil, eu vim daí. Agora, vem essa galerinha de Facebook e de Twitter [falar de mim]. Pô, morre e nasce de novo para poder chegar perto de mim, morou?

                        Suas músicas, Chico, vão continuar nas mentes e nos corações de qualquer um que conheça o sentimento. Almanaque, Meus Caros Amigos e tantas outras obras primas permanecerão. Seus discursos populistas da esquerda caviar vão para o lugar que merecem: o lixo.

                        E antes que algum idiota venha dizer que eu acuso todo recebedor das tais “bolsas” de vagabundo ou acomodado, nem tente. Há gente que precisa sim. Mas é necessária a contrapartida, ou vamos, um dia, acordar com um muro à nossa volta, metafórico ou não. Como os alemães em 1961.

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