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Bruno Garschagen - Ciência Política -

Mudei de casa recentemente. Muito mais do que necessário, mudei porque quis, porque considerei que seria melhor. Mudar é sempre, porém, um tormento. Embalar os pertences, transportá-los para depois desempacotá-los; um estorvo, enfim.

Muitos de vocês que me leem já devem ter enfrentado tal suplício em algum momento. Mas não é da mudança em si que eu pretendo falar. Melhor dizendo, não pretendo compartilhar os dissabores do ato. É que a propósito da alteração de residência, mesmo tendo sido uma escolha pensada e para melhor, senti aquele incômodo profundo que só os meus pares de espírito conservador entenderão – e não falarei aqui de política.

No lugar onde eu morava, o ambiente me era familiar. Como se o bairro fosse meu, como se fosse uma extensão da minha casa, um local que eu desfrutava porque me acolhia e oferecia tudo aquilo de que eu precisava, do comércio próximo à academia de jiu-jitsu onde eu treino.

No período de organização da mudança, que é sempre uma preparação para a despedida, fui sentindo precisamente aquilo que Michael Oakeshott, filósofo político que não canso de aqui mencionar, descreveu no célebre ensaio Ser Conservador. Oakeshott ali definiu mudança como “as alterações que temos de sofrer” e inovação como “aquelas que podemos planear e executar”. Sendo assim, “mudanças são circunstâncias às quais temos de acomodar-nos, e a disposição para ser conservador é tanto o emblema da nossa dificuldade para o conseguirmos como o nosso recurso nas tentativas que para isso fazemos”.

Mudar de casa é uma combinação de mudança e inovação, portanto. E não é simplesmente deslocar corpo e pertences para outro imóvel, mas, antes de tudo, enfrentar a perda de tudo aquilo que nos vincula a um determinado lugar que consideramos um lar. É o amor pelo lar, oikophiliade que fala Roger Scruton, que permite desenvolver o sentimento de pertencimento que um conservador tanto preza e busca.

Por isso, Oakeshott dirá que “a dor da perda será maior que a excitação da novidade ou da promessa” de algo melhor, seja a nova casa e até mesmo o novo bairro. Não poderia estar mais de acordo quando o filósofo diz que “as mudanças são, pois, sempre um motivo de sofrimento, e uma pessoa de temperamento conservador (ou seja, firmemente decidida a preservar a sua identidade) não pode ser indiferente a elas. No geral, ele julga-as de acordo com o transtorno que causam e, como qualquer pessoa, usa os seus recursos para lhes fazer frente”.

A mudança de residência é um exemplo concreto que permite compreender de forma mais precisa o conhecido trecho do ensaio de Oakeshott quando ele diz que “ser conservador é preferir o familiar ao desconhecido, preferir o tentado ao não tentado, o fato ao mistério, o real ao possível, o limitado ao ilimitado, o próximo ao distante, o suficiente ao superabundante, o conveniente ao perfeito, a felicidade presente à utópica”.

O verbo-chave desse excerto é “preferir”. Por razões diversas, quando um conservador prefere algo em detrimento de outro, não quer isto dizer que rejeita esse outro de forma categórica ou que seja, por princípio, contra qualquer mudança ou inovação. Um espírito conservador simplesmente atribui uma importância maior a determinados sentimentos, decisões e elementos que considera fundamentais para desfrutar uma maneira individual de viver uma vida boa, segundo a concepção do filósofo político John Kekes em seu estudo A Case for Conservatism.

Essa vida boa só é possível, e aqui volto a citar Oakeshott, se “as relações e lealdades familiares” forem “preferíveis ao fascínio de vínculos mais proveitosos”, o que quer dizer, neste caso, adotar como padrão de conduta uma posição meramente utilitária (J. Stuart Mill) para superar uma situação desfavorável. Por isso, para um espírito conservador, “comprar e expandir será menos importante que conservar, cultivar e desfrutar”.

Essa maneira de ver o mundo e de agir é, aliás, a mais difícil e a que exige um maior grau de responsabilidade e de sentido de dever perante o outro e perante a comunidade. Porque, para citar novamente Scruton, “as coisas admiráveis são facilmente destruídas, mas não são facilmente criadas”, posto que “o trabalho de destruição é rápido, fácil e recreativo; o labor da criação é lento, árduo e maçante” (Como ser um Conservador, p. 9).

Quando um conservador prefere ou rejeita algo, nem sempre orienta-se com base numa decisão racional e calculada. A explicação para isso, como bem apontou Oakeshott, reside numa “disposição que aparece, frequentemente ou não, nas suas preferências e aversões, e não é em si mesma uma escolha ou algo cultivado especificamente”.

É um erro muito comum, portanto, definir o conservador como alguém que rejeita as mudanças e as inovações a ponto de negá-las ou inviabilizá-las. Um conservador não rejeita a mudança quando a entende necessária ou inevitável, como foi o meu caso. Se assim for, ele a aceita, assimila, reconhece os seus benefícios e depois passa a desfrutar a novidade que se tornou familiar.

Essa indisposição para a mudança está relacionada, como expliquei, ao temor da perda. Mesmo que as modificações “apresentem contrapartidas”, observou Oakeshott, “o homem de temperamento conservador inevitavelmente lamentará”. E aqui está a beleza do espírito conservador que talvez ajude a esclarecer o meu sentimento em relação à recente mudança de apartamento. O problema não é porque “aquilo que perdeu seja intrinsecamente melhor que qualquer outra possível alternativa ou porque fosse impossível melhorá-lo, nem porque o que toma o seu lugar não possa ser aproveitado, mas apenas por ter perdido algo de que desfrutava verdadeiramente, de que tinha aprendido a desfrutar, e porque aquilo que o substitui é algo com que ainda não tem qualquer afinidade.”

Porque para mim tudo ainda é desconhecido na nova residência e no novo bairro, que são alternativas mais adequadas às anteriores, ainda não tenho com ambos qualquer afinidade, vínculo que exige boa vontade, dedicação, tempo e paciência. Ainda preciso conhecer o ambiente onde passei a residir para que seja possível desenvolver aqueles sentimentos de familiaridade e de pertencimento reconhecíveis pelo meu espírito conservador. Até que eu finalmente perceba a minha nova casa como o meu novo lar, como o ambiente acolhedor que completa a minha vida.

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