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Não, não existe o “novo normal” propalado por alguns construtores de expressões de efeito, apelando mais para o sentimento (desespero, histeria e terror, se possível) do que para os fatos, esses acontecimentos chatíssimos, que insistem em manter as vítimas – digo, pessoas – teimosamente dentro da realidade inescapável.

Num Brasil onde facções de todos os tipos vendem mais ilusão que mágico de festa infantil, fica cada vez mais difícil separar os histéricos dos bem intencionados, os estúpidos dos inocentes úteis, os desesperados dos precavidos, mesmo porque frequentemente são a mesma pessoa. Entre eles estão os inteligentinhos. O inteligentinho, define o filósofo pernambucano Luiz Felipe Pondé, é aquele que tem a certeza de ser mais evoluído do que os outros, seja pregando o veganismo extremo, a terapia quântica, o patinete e outras soluções geniais vindas dos três únicos livros que leu na vida, tendo a plena certeza de ser uma máquina a favor do bem, entendendo profundamente todos os problemas do mundo.

Por isso, o inteligentinho tem o dever moral de criar “soluções” tão mágicas como idiotas para os problemas que ele crê que nós, todos os idiotas que habitam o planeta, temos. Haja paciência.

Algum inteligentinho resolveu classificar o plano de proteção à Covid como um “novo normal”; segundo ele, devemos classificar como parte da vida, e de nosso futuro, o álcool gel, as máscaras, o isolamento e outras chatices que infelizmente são necessárias, inevitáveis. Mas o inteligentinho quer tudo. E por uns 30 anos, no mínimo. Portanto, até 2050, viva como se estivesse à beira do apocalipse, de preferência vestindo roupa de astronauta e a 25 metros de sua mãe, sempre sorrindo e achando ótima uma quarentena que nem mesmo a Organização Mundial de Saúde consegue mais fingir dar resultados suficientemente positivos. A OMS deveria pedir perdão à humanidade por ter empurrado o planeta à falência, insistindo na burrice do lockdown selvagem, mas ela é formada em grande parte pelos mesmo inteligentinhos mencionados por Pondé. Caso perdido. Aliás, irremediavelmente perdido, como diria Arthur Azevedo.

Em 1940 os franceses tentaram forçar um “novo normal”. Invadidos pelas forças nazistas, em vez de lutarem por cada palmo de seu país, resolveram render-se de forma humilhante, entregando seu povo e suas riquezas aos exércitos de Hitler. Por quatro longos anos conviveram amigavelmente com seus captores. Forneceram soldados, dinheiro e material bélico aos nazistas, enquanto a polícia francesa perseguia seus próprios compatriotas judeus para mandá-los aos campos de concentração do inimigo-amiguinho. Foram capachos por quatro anos, fingindo conviver bem, quase alegremente, com seus coleguinhas que falavam alemão. Covardemente, colaboraram com uma máquina de matar, tudo em nome de um “novo normal”, que alegavam não ser tão ruim assim. Se não fossem os libertadores americanos e britânicos, estariam ouvindo (e falando) alemão em Paris até hoje.

A Grã Bretanha combateu sozinha, por meses, os países do Eixo, rejeitando a rendição e um “novo normal” de ocupação por um exército inimigo. Os generais franceses riram da coragem britânica, tentando mostrar vantagens na subserviência humilhante, gabando-se de serem inteligentinhos. O resto a História conta: Os britânicos conseguiram repelir os ataques alemães, e a França hoje finge não ter se rendido, dando uma de Kátia cega e fazendo a egípcia.

Antes que as pedradas comecem: A Covid é uma doença grave e todos os cuidados preventivos devem ser tomados; mas daí a nos acomodarmos numa situação absurda de abdicar da vida é coisa de inteligentinho. Ou de francês. Vírus é inimigo, e não sócio. Que venham as vacinas o mais rápido possível.

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