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Gustavo Bertoche - É preciso lançar pontes. -
Amigos, há quem nos exija uma declaração explícita de posicionamento diante das lutas políticas do nosso tempo, como se fosse necessário sustentar um discurso únivoco sobre tudo isso.
 
O problema é que vejo a realidade política como inevitavelmente dialética.
 
Por isso, não consigo me alinhar por completo às fileiras de um grupo nem às do outro. Ambas me parecem mais a expressão de uma ou de outra ideologia do que a conseqüência da análise prudente e racional sobre as nossas circunstâncias.
 
* * *
 
Por exemplo: a questão da abertura das escolas.
 
Vejo justificativas para a sua abertura: a saúde emocional de muitas crianças está em risco com a convivência contínua com as suas famílias – que eventualmente são compostas por pessoas agressivas, ou sádicas, ou indiferentes. A saúde física, e mesmo a própria vida, de algumas outras crianças, especialmente daquelas em situação de risco social, está seriamente ameaçada: sem as escolas, que, juntamente com os Conselhos Tutelares, compõem o olhar protetor da sociedade sobre o bem-estar infantil, há crianças completamente à mercê de todo tipo de abuso.
 
Sob esse viés, é urgente que as escolas recebam os equipamentos de segurança e reabram, e que a presença escolar seja obrigatória para crianças e profissionais que não estejam em grupo de risco.
 
Todavia, enxergo também razões para a manutenção do atendimento exclusivamente online: não conhecemos completamente os fatores de risco da infecção pelo vírus, e ao que tudo indica há mutações que o tornam mais agressivo e mortal. Embora a proporção de crianças que demandam cuidados hospitalares devido à infecção seja muito baixa, existem casos de óbito infantil; e, mesmo que as crianças absolutamente não fossem afetadas pelo vírus, tanto as famílias quanto os funcionários das escolas o são.
 
Sob esse viés, as escolas devem permanecer fechadas até que o risco de morte pelo vírus se torne insignificante.
 
Em suma: há excelentes argumentos de um lado e de outro. Recuso-me a declarar apoio a uma dessas posições – e a ignorar, ou menosprezar, a outra. É muito claro, para mim, que neste caso, e em tantos outros, não existe a alternativa correta: ambas são más. Essa é a natureza dialética das questões políticas.
 
* * *
 
A responsabilidade do intelectual é a de tentar apreender, a partir dos seus lugares existenciais, a dialética dos processos que diante de nós se desdobram. Por isso, não devemos nos encantar pelo espetáculo das luzes coloridas que tão facilmente entorpecem, nem nos deixar embriagar – de amor ou de ódio – pelo discurso que ouvimos; em vez disso, precisamos investigar, dentro de nós, as sombras por essas luzes criadas, e descobrir aquilo que o discurso ilumina ao silenciar.
 
Por essa razão, sempre que estamos prestes a propor uma utopia, descobrimos que, nela, está implicada uma distopia; sempre que estamos prontos para levantar a voz a favor de uma transformação do mundo em um lugar mais justo, percebemos que a nova justiça será infalivelmente sangrenta e atroz.
 
O que fazer diante da inevitável condição dialética da existência humana? Gritar por uma das teses, gritar tão alto que o sussurro do daemon se torne inaudível? Ou reconhecer, vencido, a aporia?
 
Talvez a síntese possível da dialética do pensamento seja o reconhecimento que não há possibilidade de síntese. Ou o reconhecimento de que a própria aporia é sintética. A certeza da nossa incapacidade de escolher o melhor caminho, ao mesmo tempo em que necessariamente escolhemos algum caminho, é a conclusão a que a nossa condição nos permite chegar quando nos deparamos com algum problema social, político, humano.
 
Assim, se devemos escolher um caminho – sempre um caminho que, a rigor, não deveríamos ter escolhido, pois todos, ao fim, são maus –, que nos seja dado o direito de percorrê-lo com o silêncio necessário, o silêncio que é a canção do trágico, o silêncio que nos permite seguir ouvindo, noite adentro, as advertências desesperadas do nosso daemon.

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