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Henrique Szklo - Iscas Criativas -

O sistema em que vivemos foi criado com o objetivo claro de deixar-nos ansiosos e estressados para que utilizemos o consumo como forma de aplacar nossa desventura crônica. Mas surpreendentemente as redes sociais estão conseguindo sobrepujar o consumo como produtoras ilimitadas de prazeres momentâneos.

Num momento em que se discute a liberação das drogas, ninguém se dá conta de que o perigo está ao nosso redor, em nosso trabalho, em nossos lares e celulares. Esqueça a cocaína, a heroína, a anfetamina e a tubaína. A droga mais perigosa e perniciosa criada nos últimos tempos já é largamente disseminada em nossa sociedade. Ardilosa, se utiliza de uma aparência lúdica e inofensiva para nos enganar. Estou falando do like, ou da curtida, como preferir.

As redes sociais são gratuitas, uma das táticas mais do que conhecidas dos traficantes. Dão uma dose de graça, viciam e depois faturam em cima do viciado. Mark Zuckerberg é o verdadeiro barão das drogas. E o Facebook é a “laikolândia”. Um lugar com 2 bilhões de viciados onde o poder público não entra. Os traficantes controlam tudo: não querem que seus usuários vejam fotos de peitos femininos, nem em obras de arte, mas não ligam para discursos de ódio e fake news. Sabe como os traficantes são estranhos.

Uma multidão de viciados vaga como zumbis pelas redes sociais em busca de mais uma dose. Mas nunca é o suficiente. O prazer de receber uma curtida logo desaparece e aí desejamos outra e mais outra, desesperadamente. Não é a toa que também somos chamados pelas redes de usuários.

E cuidado: todo viciado é agressivo. Ele é capaz de qualquer coisa para conseguir uma mãozinha com o polegar pra cima. Outro dia um abestalhado quis fazer um vídeo em que sua namorada atirava nele e a bala deveria ser detida por um livro. Morreu. É o que acontece com pessoas que não sabem o que fazer com livros.
Um youtuber britânico, conhecido por suas pegadinhas, precisou da ajuda de cinco bombeiros para liberar sua cabeça que ficou presa, cimentada, dentro de um forno micro-ondas. É o que acontece com pessoas que não sabem o que fazer com a cabeça. Tudo por um punhado de likes.

Um cara chamado Justin Rosenstein –o “Boca Grande”, criador do like no Facebook e tenente do chefe do morro do Silicão, Mark Zuckerberg, o “Narigudo”– disse que todos os dispositivos psicológicos relacionados a vícios foram usados para manter o internauta ligado à internet. Aquele polegar levantado, que durante toda a história da humanidade teve o nobre papel de comunicar ao outro que está tudo certo, agora é usado para viciar crianças, jovens, adultos e velhos. Ninguém mais vive sem sua dose diária de curtidas.

A síndrome de abstinência de curtidas pode gerar reações terríveis. Dor de cabeça, enjoo, tontura, diarreia e a sensação insuportável de que aqueles mil quinhentos e vinte e sete amigos não são seus amigos de verdade. Uma pesquisa recente apontou que o que os usuários de internet de hoje mais temem é o fim de seu plano de dados. Em segundo lugar, acabar o plano de dados dos amigos que sempre lhes dão likes, e, em terceiro, a morte por afogamento.
Como sempre, todo viciado diz que não é viciado. E para comprovar que tem razão, posta esta frase em seu perfil e recebe uma overdose de likes.

Precisamos ter cuidado com o que estamos construindo para nosso futuro. O prazer fugaz de cada curtida, o orgasmo provocado por cada comentário, a excitação do compartilhamento, o barato sentido a cada seguidor conquistado, pode resultar em algo terrível daqui a alguns anos, como, por exemplo, pessoas totalmente desqualificadas virando influenciadoras de milhões de seguidores

Ainda não há cura para o vício de likes. Alguns cientistas estão testando tratamentos com drogas experimentais como a obsessão pela internet das coisas, o medo de as máquinas exterminarem os humanos e, a mais ousada, uma vida com propósito. Mas, por enquanto, ninguém está curtindo. #cientistaschatiados

 

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