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O poder em questão

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Luiz Alberto Machado - Iscas Econômicas -

O poder em questão

Novas reflexões

“O poder nasce no cano de um canhão.”

Mao Tsé-Tung

“O dinheiro fala.”

Anônimo

 

“O próprio conhecimento é poder.”

Francis Bacon

 

Fanático por leitura, dificilmente estou desacompanhado de um livro. Aproveito qualquer momento para ler: na academia, na praia, na piscina, durante os voos ou em qualquer outro deslocamento, em eventuais esperas etc.

Tenho alguns hábitos. O primeiro, como estudioso da criatividade, é variar bastante os estilos, alternando leituras relacionadas às minhas atividades profissionais, envolvendo economia, história, criatividade e economia criativa, com assuntos de meu especial interesse como esporte e cinema, além de outros tipos de literatura nacional e estrangeira, incluindo romance, aventura, ficção científica, poesia e biografias em geral. O segundo é não deixar de ler, pelo menos uma vez por ano, um grande clássico da literatura internacional ou nacional. E a terceira é me obrigar à leitura de um texto sobre tema relevante, que focalize mudanças importantes ou novas tendências da história da humanidade.

Apenas para citar exemplos recentes deste terceiro hábito, foi marcante a leitura da trilogia de Alvin Toffler constituída de O choque do futuro, A terceira onda e Powershift: as mudanças no poder, do qual foram extraídas as três citações utilizadas como epígrafe deste artigo. No referido livro, Toffler, que em A terceira onda havia descrito as três revoluções tecnológicas – agrícola, industrial e do conhecimento – aborda as alterações na fonte do poder das nações: de início proporcionada pelo poder bélico, passou num segundo momento a ser determinada pelo poder financeiro, para, a partir do final do século XX, ter por base o domínio do conhecimento. Vale observar que tanto no plano econômico como no plano do poder hegemônico, o conhecimento passa a ser preponderante a partir do final do século passado.

Da mesma natureza de leitura, que estimula a reflexão, enquadram-se O mundo é plano, de Thomas Friedman, em que o autor aponta para a redução da distância que separa os países desenvolvidos e os países em vias de desenvolvimento, chamando a atenção para as novas formas de competição proporcionadas pela globalização e enfatizando a ascensão da China e da Índia, e Sapiens, de Yuval Harari, em que o autor afirma que o Homo sapiens domina o mundo por ser o único animal capaz de cooperar de forma flexível em grande escala, fazendo-o de maneira racional e se utilizando cada vez mais da ciência e da técnica integradamente.

Se quisermos retroceder no tempo, pelo menos dois livros desse mesmo tipo merecem menção especial. Um deles é A grande transformação, de Karl Polanyi, em que o historiador húngaro propõe que a moderna economia de mercado e o moderno Estado-nação devem ser entendidos não como elementos distintos, mas como uma invenção humana única chamada “sociedade de mercado”. Foi só a partir da criação das instituições capitalistas, ocorridas nessa ocasião, que as pessoas tornaram-se economicamente mais racionais, superando a mentalidade predominante até então em que as pessoas baseavam as suas ações econômicas na reciprocidade e redistribuição, e não na maximização da utilidade, fator captado com precisão pelas teorias econômicas marginalista e neoclássica. O outro é Ascensão e queda das grandes potências, de Paul Kennedy, em que o grande historiador da Universidade de Yale associava o crescimento exponencial das despesas militares das grandes potências com o seu declínio econômico e político, além de prever a substituição dos Estados Unidos pelo Japão como potência hegemônica. Quando se arriscam no perigoso campo das previsões, mesmo os historiadores mais consagrados cometem enganos assustadores.

E, com um enfoque mais economicista, mas também fundamentais como fonte de estímulo à reflexão, eu citaria O fim da pobreza, de Jeffrey Sachs, Da pobreza ao poder, de Duncan Green, Por que as nações fracassam, de Daron Acemoglu e James Robinson, e Mudança global, de Peter Dicken.

Considerado um dos maiores expoentes das relações internacionais, Joseph Nye teve enorme repercussão com suas obras a respeito do tema no início do século XXI. Partindo da premissa de que a ideia de poder numa perspectiva mundial esteve sempre relacionada à detenção da hegemonia, por parte de uma nação, reconhecida por todas as demais nações, Nye afirma que a conquista e manutenção dessa hegemonia esteve historicamente baseada na força dessa nação, caracterizando o que ele chama de hard power. Nye foi pioneiro ao elaborar a teoria de que além do hard power, os países deveriam se preocupar em desenvolver o soft power, ou seja, a capacidade de convencer os outros a fazer algo por meio da influência cultural e ideológica. Ele, porém, reconhece que, dependendo da situação, seria mais adequado o uso de estratégias baseadas na força (hard power) ou no convencimento (soft power). Mais recentemente, Joseph Nye elaborou a teoria do smart power (poder inteligente), que é, na verdade, uma combinação do hard power e do soft power.

Deixei propositalmente para o fim dois livros do escritor e colunista Moisés Naím, ministro do Desenvolvimento da Venezuela entre o final da década de 1980 e o início dos anos 1990, ex-diretor executivo do Banco Mundial, e editor-chefe da revista Foreign Policy, de 1996 a 2010.

O primeiro, intitulado Ilícito, foi escrito em 2004 e mostra algumas das facetas da “globalização do mal”. Com visão extremamente apurada, Naím chamava a atenção para um fato que já era realidade na época e que continuou se agravando nos anos seguintes, qual seja, a forma articulada de ação dos agentes envolvidos com as contravenções que vão além das fronteiras nacionais, com destaque para o tráfico de armas, a pirataria e a lavagem de dinheiro. Naím alertava para o fato de que enquanto essas contravenções eram combatidas isoladamente pelas forças de segurança dos diferentes países, a prática criminosa era operada por grupos organizados internacionalmente. E, convenhamos, a contravenção levava nítida vantagem sobre as forças de contenção locais.

O segundo livro de Moisés Naím, que li recentemente e que motivou o presente artigo, foi escrito em 2013 e tem por título O fim do poder e o extenso subtítulo Nas salas de diretoria ou nos campos de batalha, em Igrejas ou Estados, por que estar no poder não é mais o que costumava ser? Nele, Naím começa afirmando que “o poder – a capacidade de conseguir que os outros façam ou deixem de fazer algo – está passando por uma transformação histórica e de extrema importância”.

Na sequência, prossegue:

O poder está se dispersando cada vez mais e os grandes atores tradicionais (governos, exércitos, empresas, sindicatos etc.) estão cada vez mais sendo confrontados com novos e surpreendentes rivais – alguns muito menores em tamanho e recursos. Além disso, aqueles que controlam o poder deparam-se cada vez com mais restrições ao que podem fazer com ele.

Ao longo dos onze capítulos e do Apêndice, Naím vai discorrendo sobre os temas centrais – a dispersão do poder e as dificuldades crescentes de exercê-lo por parte dos grandes protagonistas – ilustrando com exemplos e depoimentos interessantes (entre os quais o do presidente Fernando Henrique Cardoso) e estabelecendo uma série de paralelos instigantes: um deles, entre o que está ocorrendo com o exercício do poder político e a teoria da destruição criativa, utilizada por Schumpeter para descrever a evolução do capitalismo; outro, entre o que está ocorrendo com o exercício do poder político e a teoria da mudança disruptiva, utilizada por Clayton Christensen para descrever a evolução da tecnologia presente no mundo corporativo.

Numa época em que o poder vem sendo exercido, no mínimo, de forma questionável em tantos lugares, trazendo crescente inquietação, a leitura de livros como os apresentados neste artigo ajuda a refletir e, quem sabe, entender um pouco melhor o que está acontecendo à nossa volta.

Iscas para ir mais fundo no assunto

Referências e indicações bibliográficas

ACEMOGLU, Daron e ROBINSON, James. Por que as nações fracassam: as origens do poder, da prosperidade e da pobreza. Tradução de Cristiana Serra. Rio de Janeiro: Elsevier, 2012.

CHRISTENSEN, Clayton M. O Dilema da Inovação. Tradução de Edna Emi Onoe Veiga. São Paulo: Makron Books, 2001.

DICKEN, Peter. Mudança global: mapeando as novas fronteiras da economia mundial. Tradução de Teresa Cristina Felix de Souza. Porto Alegre: Bookman, 2010.

FRIEDMAN, Thomas L. O mundo é plano: Uma breve história do século XXI. Tradução de Cristiana Serra e S. Duarte. Rio de Janeiro: Objetiva, 2005.

GREEN, Duncan. Da pobreza ao poder: como cidadãos ativos e estados efetivos podem mudar o mundo. Tradução de Luiz Vasconcelos. São Paulo: Cortez; Oxford: Oxfam International, 2009.

KENNEDY, Paul. Ascensão e queda das grandes potências: transformação econômica e conflito militar de 1500 a 2000. Tradução de Waltensir Dutra. Rio de Janeiro: Campus, 1989.

NAÍM, Moisés. Ilícito: o ataque da pirataria, da lavagem de dinheiro e do tráfico à economia global. Tradução de Sérgio Lopes. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2006.

_______________ O fim do poder: nas salas da diretoria ou nos campos de batalha, em Igrejas ou Estados, por que estar no poder não é mais o que costumava ser? Tradução de Luis Reyes Gil. São Paulo: LeYa, 2013.

NYE, Joseph S. Compreender os conflitos internacionais: uma introdução à teoria e à história. Lisboa: Gradiva, 2002.

_______________ O paradoxo do poder americano: por que a única potência do mundo não pode prosseguir isolada. São Paulo: UNESP, 2002.

_______________ Soft power: the means to success in world politics. New York, NY: Perseus Books, 2005.

_______________ Cooperação e conflito nas relações internacionais: uma leitura essencial para entender as principais questões da política mundial. Tradução de Henrique Amat Rêgo Monteiro. Revisão técnica de Janina Onuki. São Paulo: Gente, 2009.

SACHS, Jeffrey D. O fim da pobreza: como acabar com a miséria mundial nos próximos vinte anos. Prefácio de Bono. Prefácio à edição brasileira de Rubens Ricupero. Tradução de Pedro Maia Soares. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.

SCHUMPETER, Joseph A. Teoria do desenvolvimento econômico: uma investigação sobre lucros, capital, crédito, juro e o ciclo econômico. Introdução de Rubens Vaz da Costa. Tradução de Maria Sílvia Possas. São Paulo: Abril Cultural, 1982. (Os Economistas)

______________ Capitalismo, socialismo e democracia. Introdução de Tom Bottomore. Tradução de Sérgio Góes de Paula. Rio de Janeiro: Zahar, 1984.

TOFFLER. Alvin. O choque do futuro. Tradução de Marcos Aurélio de Moura Matos. Rio de Janeiro: Editora Artenova, 1972.

_______________ A terceira onda. Tradução de João Távora. Rio de Janeiro: Record, 1980.

_______________ Powershift: as mudanças no poder. Tradução de Luiz Carlos do Nascimento Silva. Revisão técnica de Marcus da Costa Moraes. Rio de Janeiro: Record, 1990.

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