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O turismo e a economia

O turismo e a economia

Luiz Alberto Machado - Iscas Econômicas -

O turismo e a economia

A indústria do turismo passou certamente pelo maior desafio das últimas décadas, mas é forte o bastante para superar. Esteja atento às possibilidades tecnológicas e agregue diferenciação à sua marca.”

Michel Torres[1]

Retomo neste artigo, dividido em três partes, um tema já focalizado anteriormente[2], incorporando algumas noções conceituais, bem como as perspectivas de recuperação pós-pandemia.

  1. O que é turismo?

Entre as diversas definições existentes, encontra-se a da Organização Mundial de Turismo (que faz parte Organização das Nações Unidas – ONU), segundo a qual “turismo compreende as atividades que as pessoas realizam durante suas viagens e permanência em lugares distintos dos que vivem, por um período de tempo inferior a um ano consecutivo, com fins de lazer, negócios e outros”[3].

Já para Mathieson e Wail, “o turismo é o movimento temporário de pessoas para destinos fora dos seus locais habituais de trabalho e residência, as atividades desenvolvidas durante a permanência nesses destinos e as facilidades criadas para satisfazer as suas necessidades”[4].

Com base nessas definições, é possível depreender que a cadeia do turismo envolve um amplo leque de segmentos que inclui transporte, hospedagem, alimentação, cultura e entretenimento, negócios e eventos.

Para se ter uma ideia da abrangência dessa cadeia, segue-se uma relação das atividades compreendidas em cada um desses segmentos:

  • Transporte: companhias aéreas, companhias ferroviárias, companhias de navegação, companhias de ônibus, companhias de táxi, uber, metrô, aeroportos, estações ferroviárias, portos, companhias de aluguel de automóveis, companhias de aluguel de helicópteros, estaleiros etc.;
  • Hospedagem: hotéis, pousadas, pensões, hostels, casas de aluguel, airbnb, empresas de tempo compartilhado (time sharing) etc.;
  • Alimentação: restaurantes, bares, lanchonetes, boates, barracas, quiosques, food trucks, vendedores ambulantes etc.;
  • Cultura e entretenimento: museus, teatros, cinemas, galerias de arte, bibliotecas, pinacotecas, circos, casas de espetáculos, festivais, shows, romarias, competições esportivas etc.;
  • Negócios e eventos: feiras, exposições, missões comerciais, compras, desfiles, convenções, congressos, seminários, conferências, reuniões, palestras etc.

Para efeito de registro econômico, receitas e despesas de turismo são contabilizadas na balança de transações correntes do nosso balanço de pagamentos[5]: tudo que estrangeiros gastam no Brasil com as atividades turísticas é contabilizado como receita de turismo e implica em entrada de recursos no Brasil; de outro lado, tudo que os brasileiros gastam no exterior com essas atividades é contabilizado como despesa de turismo e implica na saída de recursos do País.

Apesar do extraordinário potencial que possui, o saldo do turismo no Brasil é historicamente negativo, aspecto que será analisado no próximo item. 

  1. O Brasil no turismo mundial

Os dados divulgados pelo Ministério do Turismo relativos a 2019 revelam que o Brasil tem um desempenho muito aquém do seu potencial, quer em termos de receitas geradas pelo setor, quer em termos de volume de visitantes estrangeiros.

Como se vê na tabela 1, as receitas encontram-se estacionadas desde 2010, num montante em torno de US$ 6 milhões anuais. Nem mesmo dois eventos esportivos de abrangência mundial, que em outros países costumam elevar a receita turística em função da atração de elevado número de turistas, como a Copa do Mundo (2014) e os Jogos Olímpicos (2016), conseguiram ter impacto relevante no Brasil. Nos dois casos, o aumento da receita em relação aos anos anteriores foi inferior a 6%.

Tabela 1 – Receitas do Turismo (em US$ milhões)

Ano Receitas
2010 5.261
2011 6.095
2012 6.378
2013 6.474
2014 6.843
2015 5.844
2016 6.024
2017 5.809
2018 5.921
2019 5.913

Fonte: Ministério do Turismo

Quando examinamos o tema pelo número de visitantes (tabela 2), constatamos que estamos longe dos destinos mais procurados. Com aproximadamente seis milhões de visitantes por ano, o Brasil está próximo da quadragésima colocação, muito abaixo do México – primeiro país latino-americano da lista – que recebe 41 milhões de turistas anualmente.

Tabela 2 – Maiores destinos (em milhões de turistas) 

Lugar País Turistas Variação em relação ao ano anterior
1 França 89 3%
2 Espanha 83 1%
3 EUA 80 4%
4 China 63 4%
5 Itália 62 7%
6 Turquia 46 22%
7 México 41 5%
8 Alemanha 39 4%
9 Tailândia 38 8%
10 Reino Unido 36 -4%

Fonte: OMT. International Tourism Highlights, 2019

Observando os números do Relatório da Organização Mundial do Turismo referentes a números de visitantes e receitas geradas, chama a atenção, pela eficiência, o caso da Austrália, que é o 41º país no ranking de volume de chegadas, com 9,2 milhões de turistas, mas é o 7 º no mundo em receitas, com US$ 45 bilhões como se vê na tabela 3.

Tabela 3 – Maiores receitas (em US$ bilhões) 

Lugar País Receita Variação
1 EUA 214 2%
2 Espanha 74 4%
3 França 67 6%
4 Tailândia 63 5%
5 Reino Unido 52 2%
6 Itália 49 7%
7 Austrália 45 11%
8 Alemanha 43 3%
9 Japão 41 19%
10 China 40 21%

Fonte: OMT. International Tourism Highlights, 2019

Já quando examinamos pela ótica dos gastos (tabela 4), fica clara a ascensão dos chineses, disparadamente os que mais gastaram com turismo, muito à frente dos norte-americanos que aparecem no segundo lugar.

Tabela 4 – Gastos com turismo (em US$ bilhões)

Lugar País Gastos Variação
1 China 277 5%
2 EUA 144 7%
3 Alemanha 94 1%
4 Reino Unido 76 3%
5 França 48 11%
6 Austrália 37 10%
7 Rússia 35 11%
8 Canadá 33 4%
9 Coreia do Sul 32 1%
10 Itália 30 4%

Fonte: OMT. International Tourism Highlights, 2019

 Considerando o tamanho do território, a extensão do seu litoral pontilhado por praias belíssimas, a extraordinária biodiversidade, a riqueza da culinária e as incontáveis atrações locais espalhadas por todo o País, é inconcebível que o Brasil receba menos turistas do que países que não dispõem de atrações comparáveis às nossas.

  1. O turismo e a pandemia: perspectiva de lenta recuperação

A cadeia do turismo foi uma das mais duramente atingidas pela pandemia do coronavírus, com perdas bilionárias e irrecuperáveis, que deixaram aproximadamente 300 milhões de pessoas sem renda em todo o mundo, de acordo com a professora Mariana Aldrigui, uma das mais importantes pesquisadoras sobre o tema.

Dos diversos segmentos que compõem a cadeia do turismo, alguns foram particularmente impactados, entre os quais companhias aéreas, cruzeiros marítimos, hotéis, bares e restaurantes, eventos, feiras e exposições e shows e espetáculos musicais.

Apesar dos esforços empreendidos pelo governo – não só do Brasil, mas de vários países – que adotaram diversas ações com o objetivo de preservar empresas da cadeia turística,  muitas não resistiram e acabaram encerrando suas atividades.

No Brasil, a situação não é diferente e o turismo, que poderia ter uma relevância econômica muito maior como fonte de receita, tirando o País da posição pífia que ocupa entre os destinos internacionais, deverá passar por um lento processo de recuperação, só voltando ao patamar de 2019 por volta de 2023 ou 2024, segundo os especialistas.

Explicações para o fraco desempenho do turismo no Brasil não faltam. Começa por um problema que afeta diversos outros setores, a descontinuidade. Desde que foi transformado em uma pasta independente, em janeiro de 2003, o Ministério do Turismo já teve mais de uma dezena de ocupantes e, como se sabe, cada novo ministro tem o péssimo hábito de querer deixar sua marca, não hesitando em interromper as políticas de seus antecessores. O investimento em promoção é muito inferior ao de outros países, o que explica, em parte, o fato de que em 2019, enquanto o Mundo, a Argentina, a Colômbia e o Paraguai crescessem entre 2,5% e 6,5%, no Brasil tenha ocorrido um recuo da ordem de 4,6% em relação a 2018. As notícias negativas veiculadas no exterior envolvendo especialmente casos de assaltos, assassinatos e outros tipos de violência têm também parcela significativa de responsabilidade.

Considerando a diversidade do território brasileiro, o potencial econômico do País e as atrações naturais que oferece, não há dúvida que existe nesse segmento uma enorme janela de oportunidade.

É preciso levar em conta que no curto prazo – pelo menos até que se tenha uma vacina confiável para neutralizar a ameaça de contaminação do coronavírus – a atividade turística deverá ter um novo perfil, com prioridade para o turismo regional, com viagens domésticas, de curta ou média distância e duração limitada. Viagens de carro com a família deverão registrar acentuado crescimento e, nesse sentido, roteiros que ofereçam boa oferta de acomodações, incluindo hotéis, pousadas, hostels e casas ou apartamentos de aluguel via airbnb, localidades próximas e múltiplas atrações, combinando equipamentos e eventos de qualidade terão a preferência.

Sem pensar ou pesquisar muito, enquadram-se nessa condição alguns roteiros, entre os quais as Serras Gaúchas e o roteiro dos vinhos, as Fazendas do Café no interior de São Paulo, as Cidades Históricas em Minas Gerais, as Cidades Serranas no Rio de Janeiro, as Cidades Históricas e Criativas de Goiás, o Roteiro da Aventura percorrendo Lençóis Maranhenses, Parnaíba e Jericoacoara, o Roteiro do São Francisco incluindo o Cânion de Xingó, o roteiro dos Litorais da Bahia, de Alagoas, de Pernambuco, da Paraíba e do Rio Grande do Norte com praias de tirar o fôlego.

As possibilidades são quase infinitas, de tal forma que, tomando o cuidado necessário e respeitando os protocolos impostos em decorrência da pandemia, dá pra viver grandes experiências.

 

[1] TORRES, Michel. O boom no turismo regional no mundo pós-pandemia do coronavírus. Disponível em https://portalcafebrasil.com.br/iscas-intelectuais/o-boom-no-turismo-regional-no-mundo-pos-pandemia-do-coronavirus/.

[2] MACHADO, Luiz Alberto. Turismo no Brasil: muito aquém do potencial. Disponível em https://portalcafebrasil.com.br/iscas-intelectuais/turismo-no-brasil/.

[3]  U.N. World Tourism Organization (UNWTO). Concepts and definitions.

[4] MATHIESON, A.; WAIL, G. Tourism: Economic, Physical and Social Impacts. Longman, Harlow, 1982.

[5] Balança (ou balanço) de pagamentos é um instrumento da contabilidade nacional referente à descrição das relações comerciais de um país com o resto do mundo. Registra o total de dinheiro que entra e sai de um país, na forma de importações e exportações de produtos, serviços, capital financeiro, bem como transferências comerciais.

Existem duas contas que resumem as transações econômicas de um país:

  • a conta corrente, que registra as entradas e saídas referentes ao comércio de bens e serviços, bem como pagamentos de transferências; e
  • a conta capital e financeira, sendo que a conta capital registra principalmente transferências de patrimônio por migrantes entre países, enquanto a conta financeira tem quatro subcontas: Investimento Direto, Investimento em Carteira, Derivativos e Outros Investimentos. Também são componentes dessa conta os capitais compensatórios: contas caixa (haveres no exterior e direitos junto ao FMI), empréstimos oferecidos pelo FMI e contas atrasadas (débitos vencidos no exterior).

A soma das duas contas resulta na balança de pagamentos.

 

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